Os vírus são considerados seres vivos nos limites da vida porque, embora possuindo material genético, são desprovidos da estrutura celular típica que lhes permita reproduzirem-se sem parasitarem outros seres vivos. Para se multiplicarem têm de utilizar o material genético de um ser vivo pluricelular, ou unicelular – uma bactéria sendo, neste caso. denominados bacteriófagos ou simplesmente fagos.
Mas remetamo-nos, agora, apenas aos vírus que provocam doenças quando invadem as células dos eucariotas. Os eucariotas são os seres vivos cujo organismo, como o corpo humano, é constituído por células com o núcleo envolvido por uma membrana.
É neste núcleo da célula que se situa o ADN – Ácido Desoxirribonucleico -, constituinte dos genes e fornecedor da informação sobre o modo como tudo se há-de conformar e funcionar no nosso organismo. O ARN – Ácido Ribonucleico -, além de outras funções, desempenha o papel de mensageiro dessa informação por ele levada a outra zona da célula chamada citoplasma onde terá lugar a síntese das proteínas que constituem a matéria de que somos feitos. Têm, assim, estas duas moléculas um desempenho primordial no que na nossa vida orgânica vai acontecendo.
Mas os vírus não são capazes de fazer isso devido à ausência da estrutura celular já referida, para além de possuirem apenas um dos ácidos nucleicos – o ADN ou o ARN -, e invadem as nossas células recombinando o seu material genético com o da célula parasitada o que lhes permite reproduzirem-se e disseminarem-se no organismo hospedeiro . E é depois disso que deixam connosco o mal que transportam.
Estudos recentes, a que não é alheio o vírus da SIDA, trouxeram-nos novos dados sobre o comportamento genético de determinado tipo de vírus a que, no entanto, não iremos agora aludir.
Estas são noções que, embora muito rudimentares, ilustram processos orgânicos fundamentais à vida.
Para se produzir uma vacina tem que, primeiro, se identificar o material genético do vírus e, depois, como já foi explicado num texto do Octopus, eliminar os patogenes, os genes susceptíveis de provocar a infecção. Um vírus sem esses genes maléficos, poderá, então, ajudar o organismo a defender-se dum futuro ataque pelo vírus activo.
E é a partir daqui que se levanta a questão: sim ou não às vacinas?
Nada sabendo sobre fabrico de produtos farmacêuticos torna-se impossível pronunciar-me sobre os elementos ou compostos químicos a integrar no conjunto que constitui uma vacina. Acresce a isto ser fortemente crítica do mundo obscuro de muitos dos negócios desta indústria.
No entanto, é patente e indesmentível que a descoberta de vacinas tem impedido milhares de seres humanos de contraírem doenças graves, mau grado os efeitos colaterais que possam provocar. Trata-se dum risco igual ao comportado pela toma de qualquer outro medicamento, de acordo com o afirmado por todos os médicos. Mas, que me conste, não há nenhum médico que não receite fármacos, ainda que os mais conscientes não o façam tendo em mente os interesses da indústria farmacêutica mas os dos seus doentes enquanto pessoas e não apenas órgãos afectados. Por mais de uma vez o Adão Cruz aqui escreveu sobre este tema.
Sendo os riscos das vacinas e dos medicamentos potencialmente análogos, cabe perguntar: o que vale mais, a prevenção ou a terapêutica?
A propósito desta questão, refere o Octopus duas coisas:
– Que se adquire imunidade natural em contacto com os agentes patogénicos contra os quais o organismo invadido possui e tem capacidade de desenvolver defesas próprias;
– Que, “o decréscimo verificado nas várias doenças para as quais actualmente as crianças são vacinadas, verificou-se antes da segunda guerra mundial, isto é, antes do aparecimento das vacinas. Isso deve-se à implementação de uma estratégia de saúde pública, de que se destacam: o alargamento da rede de água potável, a melhoria das condições de vida e a melhoria do estado nutricional”.
Não restam dúvidas de que a melhoria da situação apontada se deveu, em grande parte, às condições que refere. Mas é bom lembrarmo-nos, por exemplo, da tragédia que representou a epidemia de poliomielite que assolou a América – e não só – em plena Segunda Guerra Mundial. O último livro de Philip Roth “Némesis” dá-nos um retrato dramático do ambiente vivido em plena cidade de Newark, no ano de 1944, com a morte de muitas crianças e o pavor instalado pela epidemia. Não houve imunidade natural que chegasse para combater esta virose, como não houve para outras com a mesma gravidade antes da existência das respectivas vacinas, entre elas a raiva e a varíola. O peso a pagar em vidas humanas seria muito elevado e a própria medicina curativa é, muitas vezes impotente para impedir lesões permanentes provocadas por essas viroses.
O facto de existirem ainda casos de doenças para que foram descobertas vacinas não se deve a reacções a eventuais efeitos nocivos das mesmas – efeitos cuja probabilidade não me atreveria a negar – mas sim por os resquícios dessas patologias serem visíveis sobretudo em países e continentes em que as multinacionais de engenharia genética, entre as quais se encontram muitas empresas de produtos farmacêuticos, apostarem mais na rapina do património genético da flora local, a utilizar na sua produção laboratorial, do que no investimento na prevenção dessas doenças.
A ciência faz parte da cultura e, em muitos aspectos da existência humana, só se é verdadeiramente culto com a sua vivência. A ciência dá muitas respostas mas não dá todas. Ser ou não vacinado, sobretudo contra uma doença grave, tem a ver com a liberdade de cada um…se for adulto. Mas ninguém me convence de que temos o direito de dizer “ eu não me vacino, logo não vacino os meus filhos” porque há mais certezas sobre os malefícios conhecidos de diversas patologias do que sobre os efeitos secundários das vacinas.
A Natureza não se deixa revelar com a facilidade que julgávamos possível devido aos avanços das técnicas de investigação. Dez anos depois da Sequenciação do Genoma Humano ter ficado concluída os geneticistas aí estão a dar-se conta disso:
http://www.i-sis.org.uk/Mystery_of_Missing_Heritability_Solved.php
Os vírus têm a capacidade de “adormecer” durante períodos mais ou menos alargados até voltarem ao seu estado violento activo. De igual modo, “em certos casos o vírus passa, muito simplesmente, a fazer parte do património genético do seu hospedeiro, dirigindo este numa nova via (…) conferindo-lhe (…) um carácter novo que se torna hereditário” (Pernette Danysz, Os Vírus, Nas Fronteiras da Vida, Enciclopédia Diagramas, 22, Estúdios Cor).
Não me parece, pois, que esteja errado um plano de vacinação precoce contra certas doenças provocadas por vírus de acção altamente gravosa para a saúde pública.
Só se vivêssemos num paraíso natural poderíamos descansar na acção da imunidade espontânea.
