A propósito dos vírus e das vacinas – Augusta Clara

 

 

Os vírus são considerados seres vivos nos limites da vida porque, embora possuindo material genético, são desprovidos  da estrutura celular típica que lhes permita reproduzirem-se sem parasitarem outros seres vivos. Para se multiplicarem têm de utilizar o  material genético de um ser vivo pluricelular, ou unicelular – uma bactéria sendo, neste caso. denominados bacteriófagos ou simplesmente fagos.

 

Mas remetamo-nos, agora, apenas aos vírus que provocam doenças quando invadem as células dos eucariotas. Os eucariotas são os seres vivos cujo organismo, como o corpo humano, é constituído por  células com o núcleo envolvido por uma membrana.

 

É neste núcleo da célula que se situa o ADN – Ácido Desoxirribonucleico -, constituinte dos genes e fornecedor da informação sobre o modo como tudo se há-de conformar e funcionar no nosso organismo. O ARN – Ácido Ribonucleico -, além de outras funções, desempenha o papel de mensageiro dessa informação por ele levada a outra zona da célula chamada citoplasma onde terá lugar a síntese das proteínas que constituem a matéria de que somos feitos. Têm, assim, estas duas moléculas um desempenho primordial no que na nossa vida orgânica vai acontecendo.

 

Mas os vírus não são capazes de fazer isso devido à ausência da estrutura celular já referida, para além de possuirem apenas um dos ácidos nucleicos – o ADN ou o ARN -,  e invadem as nossas células  recombinando o seu material genético com o da célula parasitada o que lhes permite reproduzirem-se e disseminarem-se no organismo hospedeiro . E é depois disso que deixam connosco o mal que transportam.

 

Estudos recentes, a que não é alheio o vírus da SIDA, trouxeram-nos novos dados sobre o comportamento genético de determinado tipo de vírus a que, no entanto, não iremos agora aludir.

 

Estas são noções que, embora muito rudimentares, ilustram processos orgânicos fundamentais à vida.

 

Para se produzir uma vacina tem que, primeiro, se identificar o material genético do vírus e, depois, como já foi explicado num texto do Octopus, eliminar os patogenes, os genes susceptíveis de provocar a infecção. Um vírus sem esses genes maléficos, poderá, então, ajudar o organismo a defender-se dum futuro ataque pelo vírus activo.

 

E é a partir daqui que se levanta a questão: sim ou não às vacinas?

 

Nada sabendo sobre fabrico de produtos farmacêuticos torna-se impossível pronunciar-me sobre os elementos ou compostos químicos a integrar no conjunto que constitui uma vacina. Acresce a isto ser fortemente crítica do mundo obscuro de muitos dos negócios desta indústria.

 

No entanto, é patente e indesmentível que a descoberta de vacinas tem impedido milhares de seres humanos de contraírem doenças graves, mau grado os efeitos colaterais que possam provocar. Trata-se dum risco igual ao comportado pela toma de qualquer  outro medicamento, de acordo com o afirmado por  todos os médicos. Mas, que me conste, não há nenhum médico que não receite fármacos, ainda que os mais conscientes não o façam tendo em mente os interesses da indústria farmacêutica mas os dos seus doentes enquanto pessoas e não apenas órgãos afectados. Por mais de uma vez o Adão Cruz aqui escreveu sobre este tema.

 

Sendo os riscos das vacinas e dos medicamentos potencialmente análogos, cabe perguntar: o que vale mais, a prevenção ou a terapêutica?

 

A propósito desta questão, refere o Octopus duas coisas:

 

– Que se adquire imunidade natural em contacto com os agentes patogénicos contra os quais o organismo invadido possui e tem capacidade de desenvolver defesas próprias;

 

– Que, “o decréscimo verificado nas várias doenças para as quais actualmente as crianças são vacinadas, verificou-se antes da segunda guerra mundial, isto é, antes do aparecimento das vacinas.  Isso deve-se à implementação de uma estratégia de saúde pública, de que se destacam: o alargamento da rede de água potável, a melhoria das condições de vida e a melhoria do estado nutricional”.

 

Não restam dúvidas de que a melhoria da situação apontada se deveu, em grande parte, às condições que refere. Mas é bom lembrarmo-nos, por exemplo, da tragédia que representou a epidemia de poliomielite que assolou a América – e não só – em plena Segunda Guerra Mundial. O último livro de Philip Roth “Némesis” dá-nos um retrato dramático do ambiente vivido em plena cidade de Newark, no ano de 1944, com a morte de muitas crianças e o pavor instalado pela epidemia. Não houve imunidade natural que chegasse para combater esta virose, como não houve para outras com a mesma gravidade antes da existência das respectivas vacinas, entre elas a raiva e a varíola. O peso a pagar em vidas humanas seria muito elevado e a própria medicina curativa é, muitas vezes impotente para impedir lesões permanentes provocadas por essas viroses.

 

O facto de existirem ainda casos de doenças para que foram descobertas vacinas não se deve a reacções a eventuais efeitos nocivos das mesmas – efeitos cuja probabilidade não me atreveria a negar – mas sim  por os resquícios dessas patologias serem visíveis sobretudo em países e continentes em que as multinacionais de engenharia genética, entre as quais se encontram muitas empresas de produtos farmacêuticos, apostarem mais na rapina do património genético da flora local, a utilizar na sua produção laboratorial, do que no investimento na prevenção dessas doenças.

 

A ciência faz parte da cultura e, em muitos aspectos da existência humana, só se é verdadeiramente culto com a sua vivência. A ciência dá muitas respostas mas não dá todas. Ser ou não vacinado, sobretudo contra uma doença grave, tem a ver com a liberdade de cada um…se for adulto. Mas ninguém me convence de que temos o direito de dizer “ eu não me vacino, logo não vacino os meus filhos” porque há mais certezas sobre os malefícios conhecidos de diversas patologias do que sobre os efeitos secundários das vacinas.

 

A Natureza não se deixa revelar com a facilidade que julgávamos possível devido aos avanços das técnicas de investigação. Dez anos depois da Sequenciação do Genoma Humano ter ficado concluída os geneticistas aí estão a dar-se conta disso:

 

http://www.i-sis.org.uk/Mystery_of_Missing_Heritability_Solved.php

 

Os vírus têm a capacidade de “adormecer” durante períodos mais ou menos alargados até voltarem ao seu estado violento activo. De igual modo, “em certos casos o vírus passa, muito simplesmente, a fazer parte do património genético do seu hospedeiro, dirigindo este numa nova via (…) conferindo-lhe (…) um carácter novo que se torna hereditário” (Pernette Danysz, Os Vírus, Nas Fronteiras da Vida, Enciclopédia Diagramas, 22, Estúdios Cor).

 

Não me parece, pois, que esteja errado um plano de vacinação precoce contra certas doenças provocadas por vírus de acção altamente gravosa para a saúde pública.

 

Só se vivêssemos num paraíso natural poderíamos descansar na acção da imunidade espontânea.

 

 

9 Comments

  1. Augusta Clara, gostei muito da tua explicação e apesar de não ser uma ignorante no campo da genética consegui compreender. O facto de entrar em pânico de cada vez que vacinava os meus filhos não me impediu de os vacinar. Vacinar ou não para a gripe quando são tantos os vírus? O que deve o idoso, o adulto fazer?Bjo e parabéns pelo teu texto

  2. Cara Augusta Clara,Foi com particular atenção que li o seu artigo, que gostei.É sempre estimulante confrontarmo-nos com opiniões diferentes ou contrarias das nossas.Ainda bem que fala no surto de poliomielite que assolou os Estados Unidos em plena segunda guerra mundial. Nos anos seguintes foi desenvolvida uma vacina contra a poliomielite. Em 1954, foi iniciou-se a maior experiência clínica da história, com 1 800 000 crianças, entre os 5 e os 8 anos de idade, a serem vacinadas, um grupo com a vacina e outro com um placebo.Em abril do anos seguinte, 1955, foi declarado que a vacinação tinha sido um sucesso. Rapidamente, foi desencadeada um corrida ao fabrico de mais vacinas.Quinze dias depois desse anúncio triunfante, surgem os primeiros casos de poliomielite provocados pela vacina. Ao todo vão ser infectados pela vacina 220 000 crianças, 70 000 dos quais ficaram doentes, 164 com paralisias graves e 10 mortes.Chegou-se à conclusão que o vírus injectado não estaria suficientemente atenuado.Início dos anos 60, após várias melhorias na atenuação do vírus, a vacina contra a poliomielite tornas segura e faz parte dos programas de vacinação um pouco por todo o mundo.Até essa data, milhõess pessoas foram infectadas com o vírus símio SV40, um vírus altamente oncogénico, quando a produção das vacinas era feita em macacos. Isto sem falar da possível origem da SIDA do macaco para o homem.Actualmente a poliomielite continua endémica em África e no sudeste asiático, apesar da massiva campanha de vacinação. Isto deve-se às péssimas condições de higiene desses países.Não nos devemos esquecer que a transmissão desta doença faz-se por via digestiva (oro-fecal). Este facto explica que a diminuição de casos de poliomielite, na Europa e nos USA, se tenha verificado muito antes da vacinação graças a melhoria das condições sanitárias. Coisa que não aconteceu em África, que apesar de vacinadas, a poliomielite continua endémica dado a falta de higiene.Um outro facto pouco conhecido é a mudança na definição da doença. Até 1954, considerava-se que um doente tinha poliomielite quando apresentava sintomas de paralisia durante 24 horas, sob a pressão do fabricantes da vacina, a OMS alterou essa definição sendo que agora os doentes eram classificados como tendo poliomielite durante pelo menos um período de…60 dias! Sendo que em muitos casos de poliomielite a paralisia é transitória, a baixa espectacular de casos deve-se durante esse período, não a vacinação, mas Às alterações de critérios.Um abraço,Octopus

  3. Boa tarde Octopus e obrigada pelo seu comentário em relação ao qual acrescento, apenas, o seguinte:- De todas as pessoas que conheço que, ainda na década de 1950, foram vacinadas, nenhuma contraiu a pólio ;- Não disponho dos dados mais recentes sobre a epidemiologia da pólio que, na década de 1970, estava ainda longe de ser esclarecida pois, sendo o vírus transmitido por via digestiva, se esperaria que os principais surtos ocorressem nos países com piores condições de higiene alimentar. Ora, não foi isso que aconteceu. Embora não podendo ser considerada uma doença da civilização, uma vez que a infestação se deu em variadas zonas do mundo como a Costa Rica, Congo Belga, Israrel, etc., as epidemias fulminantes deram-se nos Estados Unidos e no Canadá; – Relativamente às vacinas, nada do que li me transmitiu esse panorama dramático resultante da sua aplicação. Antes pelo contrário, a vacinação anti pólio foi considerada um sucesso, ainda que se tenham introduzido alterações no fabrico e na prática da vacinação relacionados com a transmissão do vírus e a existência de três estirpes sem imunidade cruzada, problemas que julgo estarem já hoje resolvidos. Um abraçoA. Clara

  4. Augusta, belo texto e muito claro. É um assunto no qual, por estar afastado da minha área, não gosto de me meter. Apesar de saber a perversão que muitas vezes subjaz a estes negócios, estou contigo na forma equilibrada e sábia como vês e apresentas o assunto. Não deixo, no entanto, de entender o amigo Octopus, aceitando, talvez não tão seguramente, muito do que diz. Mas volto a repetir que a minha área é outra e não gosto de abrir a boca sem a saber fechar. Abraço aos dois.

  5. Olá AugustaTenho resistido a vacinar-me, sobretudo por não confiar nos laboratórios, desconfiança que vem do facto de pensar que atiram com vacinas para o mercado sem que se saiba ainda qual a estirpe do vírus desse ano. Estarei enganado?Com a idade avançada que já vou tendo, lá virá o ano em que terei de ceder.Continue a escrever para esclarecimento dos «casmurros» como eu.AbraçoAntónio

  6. Olá, António! Sobre vacinas a pessoa indicada é o Rui Oliveira que é médico e especialista na área. Eu não sou médica. Limitei-me a lançar a discussão “sim ou não às vacinas?”, na sequência de anterior post . Mas não tenho competência para pronunciar-me sobre a vacinação específica de cada pessoa. Penso que nem os médicos o farão por esta via.Um abraçoA. Clara

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