Um Café na Internet
Jornadas Europeias do Património: Águas Termais de Alfama
Os leitores sabiam que Alfama tem águas termais? Eu ignorava o fenómeno. Descobri-o graças ao Museu da Cidade durante as Jornadas Europeias do Património de 2011. A água das chuvas infiltra-se, como todos sabemos; ora em Alfama, devido à existência de falhas geológicas, a água profunda ascende ainda quente, entre 24 e 34 graus, razão pela qual, ao longo dos séculos, se aproveitaram aqui as suas propriedades térmicas ou curativas: curtumes, lavagem de roupa, alcaçarias (banhos com fins terapêuticos), termas públicas e privadas… A abundância de águas está patente na toponímia (Rua da Regueira, Largo das Alcaçarias, por exemplo), surge em documentos escritos, em equipamentos hidráulicos (condutas, chafarizes, reservatórios) e é identificada nas pesquisas arqueológicas.
O topónimo árabe “Bãb al-Hamma”, a “Porta das Termas”, situada junto aos actuais números 17-17A da Rua de S. João da Praça, terá originado o nome do arrabalde: Alfama. Numerosos são os chafarizes que, ao longo dos séculos, abasteceram a população desta encosta: Chafariz de Páos, Chafariz da Praia, Chafariz de Dentro (água bicarbonatada cálcica a 25.5 graus), Chafariz d’El-Rei (água bicarbonatada cloretada cálcica a 27 graus)… No Largo das Alcaçarias, a arqueologia revelou, da época romana à moderna, atividades ligadas à água: um tanque romano, curtumes, banhos numa casa do século XVI… Entre os séculos XVI e XIX, as lavadeiras usufruíram aqui de um tanque com água corrente à temperatura de 28 graus. Nada mau… A mesma nascente abastecia uma fonte com fama de ser terapêutica: a Fonte das Ratas. Também abundaram no bairro os banhos e alcaçarias: Banhos do Mosteiro de Alcobaça (século XIV), Alcaçarias do Duque (século XVII), Alcaçarias de D. Clara (século XVIII), Banhos de J. A. Baptista (século XIX), Banhos do Doutor Fernando (este balneário foi criado no século XIX mas a nascente era já referenciada no século XVII).
Perguntam agora os leitores… As águas secaram? Não, nesta época de spas e de hidroterapias, as águas de Alfama continuam a correr, bicarbonatadas, cloretadas, cálcicas, quentes… para o Tejo! Não há quem as aproveite. (Não andará ninguém à procura de investimentos rentáveis?)
