UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra, por Manuela Degerine. Série II, Capítulo 9.

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cartas do interior da URSS

 

 

Não, não é verdade, não creio que os zeros à esquerda sejam mobilizados logo que eu entro num serviço. Os meus amigos passam por desventuras não menos caricatas do que as minhas; e o leitor lembrar-se-á de outras igualmente. Cada dia supostamente útil, metade dos portugueses, em vez de trabalhar ou passar férias, luta com as inépcias da metade que naquele dia trabalha a pensar nos imbróglios que lhe criaram noutros sítios. É um círculo vicioso.


Também não há na Europa sociedade capaz de inventar regras de funcionamento mais absurdas. Só mais este exemplo… SCUT são as iniciais de Sem Custo para o Utilizador. Ora em Portugal as SCUT passam a ser pagas; o que revela a lógica e a fiabilidade de quem nos governa. (Tantos portugueses compraram casa contando com as SCUT; agora mudam-lhes as regras de cálculo: acrescentadas as portagens, a casa fica muito mais cara e, se quiserem vendê-la, o pormenor não passará despercebido. Por conseguinte: a casa desvalorizou-se.) Mas não bastava que as SCUT fossem pagas pelo utilizador – têm igualmente que ser pagas de maneira rígida. Os turistas, por exemplo, devem procurar um DT (Dispositivo Temporário)… Se os portugueses protestam mas acabam por obedecer – que remédio – diferente é a situação dos turistas. A Europa (e não só) é vasta. Para viajar e passar férias não faltam países mais seguros, mais limpos, com praias, cultura, paisagens; e não mais caros. Um deles é a Espanha. O DT será portanto determinante: muitos turistas hão-de preferir não entrar no Reino do Absurdo. Ouvimos dizer que a economia portuguesa contava com as receitas do turismo? Um boato, decerto.


Quando me sinto desesperada, releio duas páginas de Lettres des profondeurs de l’URSS, Le courrier de lecteurs d’Ogoniok, (Cartas do interior da URSS, O correio dos leitores de Ogoniok), colecção Témoins, edição Gallimard, 1989. Trata-se de cartas enviadas a um jornal por cidadãos da URSS entre 1987 e 1989 expondo o surrealismo da sociedade em que viviam. E por que será?… Descubro muitas semelhanças com a sociedade portuguesa contemporânea.

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