«O Governo ouve mais os sussurros dos ministros alemães do que o grito das dificuldades do povo, e é por isso que é tão importante que” (…) “milhares de pessoas de todo o país, possam vir aqui dizer que é indispensável termos a dignidade de responder ao empobrecimento, de defender o trabalho, o emprego, de olhar para os jovens precários, para as pessoas a quem está a ser cortada a sua pensão», disse Francisco Louçã, que considerou que a manifestação da CGTP «é um momento de recuperação e de dignidade do país». Jerónimo de Sousa, num idêntico registo de entusiasmo, qualificou a manifestação como “um acontecimento histórico” (…) “que demonstra a razão que temos quando dizemos que é preciso ter confiança para acreditar que é possível mudar, travar este pacto de agressão, este ataque aos direitos dos trabalhadores”.
Este executivo arrisca-se a protagonizar o prodígio de unir a esquerda. Se assim fosse, teríamos de considerar positiva a sua eleição. E está também a esclarecer muitos dos que o elegeram do erro cometido em querer substituir Sócrates (anseio legítimo) por um indivíduo que, embora com uma maneira de mentir diferente, é obstinado na estupidez, arrogante e vazio de ideias, tomando como coragem a subserviência de obedecer aos alemães à custa dos sacrifícios que está a causar à maioria do povo português. E, apoiando-se nestas três virtudes, escolheu uma equipa em que o seu baixo QI faz figura. As gafes sucedem-se a um ritmo que agrada a uma comunicação social domesticada e servil, mais propensa a explorar episódios anedóticos do que a pôr os dedos nas feridas.
A indignação começa a ser generalizada e este Governo cairá rotundamente nas próximas eleições que até poderão ser antecipadas. No barco desta gente que se diz social democrata há aqueles que ao mínimo sinal de afundamento o abandonam. E esse abalo interior, inevitável se as coisas prosseguirem neste ritmo, poderá forçar à antecipação de eleições. O que se teme é que repitamos o erro, ou seja, que para escapar a um Coelho elejamos um Seguro; se assim fizermos, estaremos numa espécie de Never Ending Story, o romance de Michael Ende – em que, como uma cobra mordendo a cauda, se volta sempre ao mesmo ponto.
Quando falamos em unir a esquerda, falamos nas pessoas da rua, nos que estão a pagar esta política de subserviência e corrupção – os aparelhos de partidos e de centrais sindicais continuarão a querer que a unidade se faça com base nos princípios que defendem – o que a torna impossível. Porém, entre as trezentas mil pessoas que ontem acorreram à manifestação, muitas por certo votaram PSD ou PS. Será que compreenderam que com essa orientação nunca sairão de labirinto perverso?
Não sabemos se «recuperámos a dignidade» ou se estamos perante «um momento histórico». Recuperar a dignidade e viver um momento histórico, passaria pela unidade de uma esquerda que pusesse acima de princípios e de ideologias desfasadas da realidade, os interesses de quem trabalha ou trabalhou e não os daqueles que enriquecem à sombra de uma democracia que privilegia as liberdades em prejuízo da Liberdade.
Passaria por apresentar uma alternativa credível e consistente a esta infernal, estúpida e cruel máquina do bloco central. E teria de ser construída não só pelo PCP e pelo BE, como pela gente capaz que existe ainda no PS e por pessoas que têm apoiado o PSD, não por desonestidade, mas por um conceito de pragmatismo e de “bom senso”. Uma alternativa que tivesse por base os interesses comuns de quem anda há dezenas de anos a ser expoliado.
Se isso acontecesse, estaríamos a viver um momento histórico e a caminho de recuperarmos a dignidade.

