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Sobre a des-financeirização da economia – por Joël Decarsin

3. Des-financeirizar a economia ? A verdadeira revolução intelectual

 

“Devemos des-financierizara economia”, diz André Orléan em Le Monde de 6 de Dezembro, pela simples razão que, se a famosa teoria do mercado eficiente é admissível sobre o papel, os seus efeitos, esses, são na realidadedesastrosos. Esta tese, diz-nos ele, é contraproducentequando se aplicaaos mercados financeiros um princípio que estruturavaaté aí apenas os mercados dos bens correntes: “do mesmo modo que o preço das mercadorias édestinadosa reflectir a sua escassez objectiva, diz o economista, os preços financeiros são esperados proporemuma imagemjustado futuro e dosseus riscos”. A crise provém,aos seus olhos, no essencial, do facto de que o princípio que preside ao funcionamento da finança é contrário ao princípio que garante a regulamentação dos mercados de bens, enquanto que os actores procedem exactamente como fossem a mesma coisa.

 

A demonstração parece-nos atraente, emboramenos entretanto do que no Manifesto dos Economistas Aterrados de queAndré Orléan é um dos co-autores. Lembremo-la, mesmo que brevemente.

 

“O grande erro da teoria da eficiência dos mercados financeiros é o de se transpor a teoria habitual dos mercados de bens comuns para a teoria dos produtos financeiros”. Nestes últimos,a concorrência é fundamentalmenteautocorrectora devido emparte ao que é chamado a lei da oferta e da procura: quando aumenta o preço, então os produtores aumentam a sua oferta e os compradores reduzem a sua procura. O preço vai diminuir e, portanto, estará perto do seu nível de equilíbrio. Por outras palavras, quando o preço de um bem aumenta,as forças equilibrantes do mercado tendem a travare, em seguida, ainverter esta alta. A concorrênciagera efeitos de reacção negativos. (…)

 

A ideia da eficiência nascede uma transposição directa deste mecanismo para o mercado de capitais. Ora, para estes últimos, a situação é radicalmente diferente. Quando o preço aumenta, é comum observar, não uma baixa mas simum aumento da procura! Com efeito, o aumento dos preços significa um rendimento acrescidopara aqueles que detêm o título, devido à mais –valia realizada…

 

O aumento dos preços, portanto, atrai novos compradores que fortalecemainda mais o aumento inicial.As promessas de bónus leva ainda a que os tradersprocurem ampliarainda mais estemovimento. “Até ao incidente, imprevisível, mas inevitável, que faz com que se desenvolvauma inversão dasexpectativas e se dá se o krach, o rebentamento da bolha, a explosão da crise”.

 

Nós pessoalmente não temos qualquer objecção a esta conclusão que nos parece das mais claras sobre a questão. É a análise, no entanto, que nos parece um pouco superficial. Porque é que, no fim de contas,este fenómeno perdurano tempo? Porque é que os agentes económicosnão se apercebemque eles estão a patinar no gelocomo seestivessema surfarem praias ensolaradas?O que é que explica o que Orléan chama de forte miopia dos mercados ?“Homem prevenido valepordois”, diz o ditado. O que é que então nos pode permitircompreender a atitude de panurge dosmercados? Depois deter lembradoque “a teoria de eficiência financeira acompanhouo processode desregulaçãofinanceira, e que foi aí queencontrou as suas mais fortes justificações “, Orleanavança com uma resposta: depois de ter lembrado que os “mercados bolsistas veiculam, desde há mais de uma década, a exigência de uma dadataxade rentabilidade, a famosa ROE (returnonequity, taxa de rentabilidade sobre capítais próprios ) e que pesa no investimento e no crescimento”. As “exigências de rentabilidade”. Eis-nos pois neste outro terreno.Tal é, nas palavras elegantes e sábias, o motivotantas vezes declinadona opinião por maneirasbem menos elegantes: o mundo está em desordem porque um punhado de gente mal-intencionadaquer encher rapidamente os bolsos e até mesmo bem cheios sobre as costas de milhões de outras pessoas.Nós estaríamos dispostos a aceitar tal explicação se a ganância fosse um dado novo, o que não é de forma nenhuma o caso. O argumento invocado não explica porque é quea crise que enfrentamos é, como dizOrléan,”sem precedentes desde a crise dos anos 30″. Existe, na nossa opinião,um factorde”acelerador” que não foi tomado em consideração na suademonstração, comoo não foi também nas outras- que o saibamos-publicadaspormuitos outros especialistas.

 

Este factor, vemo-lo nodesenvolvimento exponencial das técnicas. O que caracteriza fundamentalmente o capitalismo contemporâneo, já não é a acumulação de capital como na época de Karl Marx, mas as capacidades imensasde o fazer circular em tempos absolutamente incomparáveis, devido ao facto mesmo das formas ultra-sofisticadas de que dispõemos agentes económicos, todos eles, quaisquer que eles sejam, tanto se democratizaram estes mesmos meios. Nós não reivindicamos apaternidade desta explicação nem sequerafirmamosque ela é nova.Ela é de facto a ideia de um pensador francês ausente desde há quase 20 anos, mas que passou quase despercebidano seu tempo. Desde 1954, que Jacques Ellul afirmava:”é inútil estar sucessivamente a gritar contra o capitalismo, não foi ele que criou este mundo, foi a máquina”especificando em 1981: “o capitalismo é uma realidade já historicamenteultrapassada. Estepode muito bem durar ainda mais um século mas,no entanto, não tem jáinteresse histórico. “O que é novo, significativo e determinante,é a técnica.” Podemos pois afirmar que os grandes problemas que actualmente estamos a atravessar nos estão a dar razão. X Em primeiro lugar, constatemosprimeiramente amos uma coisa: todos os comentadores (que estes se pronunciem a partir do campoou no campo oposto) falamgeralmentedos “mercados”de tal modo como se a expressãotenha passado para a língua comum semque, verdadeiramente,se tenha tido o cuidado de descriptografaro que é que são exactamenteessesmercados, qual é a realidade que efectivamenteabrangem.

 

A tese que aqui defendemos é a seguinte: a teoria dos mercados eficientes postula que toda a gentepode interpretar as informações que lhes chegam e de que a essas informações pode reagircorrectamente. Na realidade, estassão tão numerosas que elasse contradizem e tornam impossíveis, a prazo, qualquer racionalidade e,por maioria de razão,qualquer previsibilidade em termos macroeconómicos. Contrariamente auma opinião mais ou menos formuladamas generalizadamente difundida, os”mercados” nãoconstituemde modo algum o ponto dereferência para os especuladores que se concertampara fazer valeruma qualquer “lógica” neoliberal massão nada nada menos do que as imensasredes informatizadasque são usadas pormilhões de cidadãos que, de imediato, assimjustificamasuaexistência e a tornamincriticável. Seria a técnica, portanto, culpada? Deve-se”regressar ao uso da vela”, como a maioria dos comentadores ironicamente se posicionam aresponderàqueles que assumem o risco da criticar actualmente as noções de progresso e crescimento? Certamente que não. Ellulassumia um extremo cuidadoa argumentação que “não é a técnica que nos escraviza, mas o sagrado transferido para a técnica “.

 

O sagrado… qual é oeconomista que introduzeste conceito no quadro do seu diagnóstico? Quem é que hoje estápronto para levar a sério a ideia de que “o homem moderno” possa sacralizar seja o que for ? Até mesmo um Marcel Gauchet (um dos raros pensadores de hoje a inscrever nassuas análises do presenteo tempo longo e a pensar opolíticocomo um participante de uma continuidade com o religioso)conclui aodesencantamento do mundo.

 

Em última análise, não é o mundo como um todo, na sua globalidade, queestá a ser dessacralizadomas somente a natureza (o nosso meio- ambiente poluído é disso umaprova) enquanto que é o próprioinstrumento desta dessacralização, a técnica, que – ao longo de umjogo decadeiras finamente descritopor Ellul através de seu trabalho –se tornou o objecto tabu porexcelência: não criticável e, portanto, não dominável.

 

Não podemos aqui, por falta de espaço,continuar a desenvolver o conceito de sagrado tal como Jacques Ellulo entendia. No máximo, podemosabrir o debate sobretodo o poder da técnicapor uma das suas citações (que data ela também de 1954): “o fenómeno técnico é a preocupação da grande maioria dos homens do nosso tempo para procurarem todas as coisas o método absolutamentemais eficaz.”Essa obsessão pela eficácialevou ao caos actual, pelo facto de que os meios técnicos foramcompletamente democratizados. A enorme influência que exercem as agênciasde rating sobre os governosmarca o primado da técnicanão só na política como também em toda a economia.X Quando, por conseguinte, André Orléannos diz que “ades-financeirização assenta naconstituição de poderes de avaliaçãofora dos mercados (empresários, sindicatos, associações, entidades públicas), aptas apropor, finalidades com fins de interesse público, de interessecolectivo”,nóspensamos simultaneamente que eletem toda a razãomasque não medea verdadeiramente dimensãodo “grande projecto de trabalhocolectivo”,da “verdadeira revolução intelectual”a que ele tanto aspira.

 

Joël Decarsin, membre de l’Association internationale Jacques Ellul

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