Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte II – Compreender a alta finança – 3. Compreender a finança nº 3 – De que mercados financeiros necessitamos ? (3ª parte-conclusão) Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Seleção de Júlio Marques Mota, tradução de Francisco Tavares

Parte II – Compreender a alta finança

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3. Compreender a finança nº 3 – De que mercados financeiros necessitamos? (3ª parte-conclusão)

logo finance watch Por Finance Watch, 2014/2015

(3ª parte-conclusão)

PARTE 2: O debate e a posição de Finance Watch

Desmistificar as afirmações do lóbi financeiro

Os lóbis do setor financeiro exerceram uma enorme pressão – e com sucesso, aliás – para limitar o alcance da legislação que afeta seus interesses. Essas pressões baseiam-se num grande número de mitos, alguns dos quais visam criar um clima de medo no mundo político, insistindo que qualquer reforma seria prejudicial para uma economia já frágil. Aqui estão as respostas do Finance Watch a alguns desses mitos.

O que diz o lóbi financeiro: “Os mercados são eficientes por natureza. Qualquer intervenção externa deve ser limitada ao mínimo “

Este mito baseia-se na Hipótese da Eficácia dos Mercados (MEA-Market Efficiency Assumption), uma teoria que pressupõe que os participantes no mercado são “otimizadores racionais” e que a distribuição do capital será otimizada porque o mecanismo de formação dos preços é perfeito e os atores são perfeitamente racionais. Qualquer intervenção externa (governos, reguladores) teria, portanto, um impacto negativo direto sobre a capacidade dos mercados de seguirem a sua finalidade. Em suma, a teoria do MEA propugna a auto-regulação.

A crença na eficácia dos mercados tem dominado a abordagem regulatória nos últimos 30 anos. Os regulamentos favoreceram sistematicamente a concorrência criando regras de jogo idênticas para todos os atores, sendo o princípio subjacente que a concorrência entre interesses privados criaria mercados mais eficazes colocando-os ao serviço da sociedade.

No entanto, muitas análises da crise financeira mostraram que os operadores do mercado dão prioridade à otimização de lucros a curto prazo, apostando na evolução dos preços, em vez de uma estratégia de investimento de longo prazo baseada na análise dos retornos futuros do ativo subjacente. Os operadores de mercado, portanto, não atuam como “otimistas racionais” procurando um preço que reflita o valor fundamental dos ativos. Pelo contrário – e isso é bem conhecido pelos profissionais – os operadores do mercado também são influenciados por comportamentos humanos irracionais (medo, ganância, etc.) e muito poucas pessoas podem resistir à tentação de lucrar com uma simples mudança de preço, mesmo que esse preço não reflita o valor real do título.

Os factos mostram, além disso, que o setor financeiro se tornou menos eficaz nos últimos anos. De acordo com um estudo recente, o custo unitário da intermediação financeira (aproximadamente, o valor de todos os ativos financeiros em termos do PIB produzido pelo setor financeiro) é mais alto hoje do que era na década de 1990 – noutras palavras, a produção de um euro de ativos financeiros é mais dispendiosa hoje do que então. E isto apesar das autoproclamadas inovações e eficiências dos financiamentos de mercado, como tem sido afirmado de forma constante ao longo deste período.

O que diz o lóbi financeiro: “As Transações de Alta Frequência aumentam a liquidez”

As Transações de Alta Frequência aumentam os volumes negociados – não a liquidez!

As estratégias da HFT inserem-se seja num seguimento das tendências do mercado – que, portanto, geram volumes, mas secam a liquidez dos mercados – seja em estratégias autoproclamadas de “criadoras de liquidez” que visam colher as reduções de custos concedidas pelas bolsas de valores aos atores que geram grandes volumes. Este tipo de estratégia não cria liquidez, mas impede que os investidores façam grandes transações: assim, quando um investidor procura executar um pedido e esse pedido é detetado por um ator de HFT, este último anuncia um preço; mas no momento em que o investidor confirma a transação, o operador de HFT provavelmente já cancelou sua oferta – de facto, a maioria dos pedidos feitos pelo operador HFT são imediatamente cancelados. O operador de HFT, portanto, “bombeia” a liquidez para os mercados praticando uma concorrência desleal em relação aos investidores reais e, deste modo, ameaça a equidade, a ordem e a integridade dos mercados financeiros.

O que diz o lóbi financeiro: “A financeirização da economia é boa para o crescimento”

A implantação das finanças nos países ditos desenvolvidos reforçou-se profundamente nas últimas décadas, especialmente desde que o período de desregulamentação começou na década de 1980. Mas uma tal financeirização da economia é boa para o crescimento? O Fundo Monetário Internacional (FMI) escrevia recentemente: “A nossa análise mostra que pode haver “demasiada finança” no sentido de que além de um certo nível de desenvolvimento financeiro, os impactos positivos sobre o crescimento economia diminuem, enquanto os custos em termos de volatilidade económica e financeira aumentam“. Quando a proporção da dívida privada no PIB se torna muito grande, mais financiamento leva a um menor crescimento, um efeito que os investigadores do FMI chamaram de “efeito adverso do desenvolvimento financeiro”.

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Embora o superdesenvolvimento do setor financeiro seja geralmente um fardo para a economia, alguns tipos de crédito contribuem para o crescimento. Assim, o crédito bancário às empresas não financeiras contribui para o crescimento económico. Esse tipo de crédito é mais produtivo do que o crédito a empresas financeiras ou ao setor imobiliário. O problema é que os maiores bancos europeus concentram-se hoje principalmente nessas mesmas atividades, que são menos produtivas e, também sobretudo em atividades que não sejam de crédito, como a transação de títulos financeiros (trading) ou a criação de mercado. (market making). A Finance Watch organizou uma conferência em novembro de 2014 intitulada “Qual o financiamento para que crescimento? “. O relato dessa conferência, bem como o dossier de informação produzido para a ocasião, estão disponíveis aqui.

Qual a posição de Finance Watch? Promover o investimento, não a especulação

Os esforços de nova regulamentação iniciados nos Estados Unidos e na Europa deveriam basear-se numa avaliação realista do comportamento dos agentes do mercado e dos critérios em que assentam as suas decisões. O período recente (e, em particular, nos últimos quinze anos) mostrou que a auto-regulação nos mercados de ações, títulos e derivados não é sinónimo de estabilidade financeira e de resultados positivos para a sociedade.

O sistema de auto-regulação dos mercados dentro de um objetivo de concorrência levou, de facto, a uma concentração dos mercados nas mãos de alguns agentes muito poderosos, um aumento da complexidade das estruturas de mercado e a uma desregulamentação do setor. Os reguladores devem enfrentar estas questões para restaurar a estabilidade e a equidade nos mercados financeiros, tendo em mente que cabe aos mercados financeiros adaptarem-se aos regulamentos e não o contrário. Sem uma regulamentação adequada, as más práticas expandem-se rapidamente, como o demonstrou a crise do subprime.

O objetivo anunciado pelos legisladores é – num período económico difícil como o que estamos a atravessar – reorientar capital para estratégias de investimento de longo prazo em benefício da economia real. Essa mudança terá um custo para os especuladores e outros beneficiários de estratégias de curto prazo. Mas essa mudança de modelo é necessária e será em benefício da maioria.

Deve também ter-se em mente que o principal objetivo dos mercados financeiros é contribuir para a alocação de capital e que o custo da intermediação financeira se justifica somente se atender às necessidades da economia e da sociedade.

Segundo Financial Watch, os legisladores devem questionar seriamente a utilidade das atividades financeiras que não servem utilizadores finais e que não contribuem diretamente para o financiamento da economia real. Se quiser saber mais sobre estes tópicos, veja o nosso relatório sobre a regulamentação dos mercados financeiros europeus (MIFID II) intitulado “Investir não é apostar“.

Mais recentemente, a Comissão Europeia lançou uma iniciativa chamada União dos mercados de capitais. Embora seja necessária uma mudança de estratégia para que o investimento leve a melhor sobre a especulação, a União dos Mercados de Capitais corre o risco de promover ainda mais um crescimento de curto prazo, em detrimento de um investimento de longo prazo em benefício da economia e da sociedade em geral. Para saber mais sobre a análise da União dos Mercados de Capitais e a análise de Finance Watch, consulte o nosso relatório.

 

Texto original em http://www.finance-watch.org/informer/comprendre-la-finance/1142-comprendre-finance-3?lang=fr

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