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CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE…, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amadeo de Souza Cardoso

(1890 – 1916) 

 

 

 

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada

Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza,

Que eu lembro não sei d’Onde a voz duma Princesa

Bailando meia nua entre clarões de Espada.

 

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;

E bêbada de Si, arfante de Beleza,

Acera os seios nus, descobre o sexo… Reza

O espasmo que a estrebucha em Alma copulada…

 

Entanto nunca a vi mesmo em visão. Somente

A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim

Não lhe desejo a carne – a carne inexistente…

 

É só de voz – em – cio a bailadeira astral ─

E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total,

É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim

 

Lisboa 1914 – janeiro 31

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