CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE…, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

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CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE…, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

 

1890 - 1916
1890 – 1916

 

 

 

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada

Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza,

Que eu lembro não sei d’Onde a voz duma Princesa

Bailando meia nua entre clarões de Espada.

 

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;

E bêbada de Si, arfante de Beleza,

Acera os seios nus, descobre o sexo… Reza

O espasmo que a estrebucha em Alma copulada…

 

Entanto nunca a vi mesmo em visão. Somente

A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim

Não lhe desejo a carne – a carne inexistente…

 

É só de voz – em – cio a bailadeira astral ─

E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total,

É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim

 

 

Lisboa 1914 – janeiro 31

 

 

De Poemas Completos. Incluído no Poemário 2004, da Assírio & Alvim, de onde foi reproduzido, com os nossos cumprimentos. Já tinha sido reproduzido no Estrolabio, no VerbArte, em 3 de Junho de 2014.

4 Comments

  1. *Poema bem erótico -Obrigada por este belo poema -Maria *

    No dia 2 de Junho de 2014 às 09:01, A Viagem dos Argonautas escreveu:

    > joaompmachado posted: ” CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE…, DE > MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada Em sons > cor de amaranto, às noites de incerteza, Que eu lembro não sei d’Onde a voz > duma Princesa”

  2. Não há grandes certezas sobre as “versões correctas” da maioria dos poemas de Mário de Sá-Carneiro, como mais pormenorizadamente exemplifica Maria Estela Guedes numa introdução a uma compilação de poemas deste autor, que os enviava, manuscritos, aos amigos, sobretudo a Fernando Pessoa, a quem autorizou a fazer as alterações que entendesse.
    Na edição da Ática da sua “Poesia Completa”, este poema intitula-se “CERTA VOZ NA NOITE RUIVANTE…” e, no 3.º verso aparece “…de Onde…”, não havendo justificação para as alterações que se verificam, relativamente à versão publicada no 1.º vol. da “ORPHEU” (de que tenho uma edição fac-similada), em que o título é o aqui transcrito, o mesmo acontecendo com “…d’Onde…”.
    Há, no entanto, um pequeno (mas importante) erro nesta transcrição, pois não conheço nenhuma versão que não contenha um “travessão” entre “…d’Onde” e “a voz…”, nem me parece que a sua elisão faça sentido. Portanto, neste pormenor, há praticamente a certeza de que é “… d’Onde – a voz…”, o que elimina hesitações na leitura.
    Outro pormenor, este de interpretação do texto, é que – discordando de Maria de sa – eu não classificaria este poema como “bem erótico”… É bastante mais complexo do que isso, conhecendo-se a obra de Mátrio de Sá-Carneiro e a sua “circunstância” poético-pessoal. Mas, se tal não acontece com Maria de sa, como a sua observação sugere, atrevo-me a recomendar-lhe que procure conhecer melhor este autor (mesmo na “net”, creio que encontrará um número elevado de poemas, espero que transcritos com suficiente exactidão). Garanto-lhe que vale a pena, pois Mário de Sá-Carneiro é uma “aparição” única, inclassificável (embora se lhe encontrem, naturalmente, referências e ligações a diversos movimentos literários, mas chamar-lhe simplesmente “modernista” é escasso) e provavelmente tão “fulgurante” (apesar de obra bem menos extensa) como Rimbaud na poesia francesa…

  3. Obrigado Paulo, pelo teu excelente comentário. Seria óptimo dispormos de mais elementos sobre a obra deste espantoso poeta. Obrigado pelo teu contributo. Se puderes acrescentar mais alguma coisa…

  4. Acrescentar alguma coisa seria repetir, pior, o que já foi escrito por pessoas bem mais capazes do que eu. A começar pelo próprio Fernando Pessoa. Tenho consciência dos meus limites…
    Na “net” encontrei a reprodução de um texto excelente de Maria Estela Guedes (a que já me referi). Além de outros. Claro que, como é habitual, há muita parvoíce, mas não é difícil encontrar um razoável número de textos com análises e reflexões bem estruturadas sobre MSC, incluindo algumas que, embora delas discorde, em certos pormenores, ajudam, no próprio “debate” contido na leitura discordante, a aprofundar o conhecimento deste poeta singularíssimo.
    Arrisco só alguns pequenos sinais de orientação, muito ao correr do teclado, em relação à qualificação “erótica”, já que me meti nisso.
    A relação de MSC com a sensualidade e o erotismo reais, físicos, parte de uma angústia e “desacomodação” perante algo de que tem dificuldade de se aproximar e de viver, de experimentar, começando pela rejeição do próprio corpo (“Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde / Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…”, em “CARANGUEJOLA”). Creio que se sentiria também incapaz de “sentir como os outros”, afectivamente, emocionalmente… Por outro lado, há nele a consciência de uma grandeza interior dificilmente concretizável, até nas palavras com que se propunha comunicá-la, que filtra o seu convívio com o “mundo” e os outros, numa sociedade generalizadamente medíocre mas cheia de regras artificialmente elaboradas e de fronteiras absurdas. Acrescente-se a “ânsia” de se transportar para domínios de um outro real, construído interiormente como um cenário que o acolha e aceite – a ele, que a si próprio não se aceita, a não ser, dificilmente, como “obra” que “daqui a vinte anos talvez se entenda”! –, ou em permanente construção-destruição, pois nada o satisfaz, nada lhe permite alcançar, ante a sua própria exigência, um esplendor que adivinha e lhe foge (“Só de ouro falso os meus olhos se douram; / Sou esfinge sem mistério no poente.” e “Sou templo prestes a ruir sem deus, / Estátua falsa ainda erguida ao ar…”, em “ESTÁTUA FALSA”; “Um pouco mais de sol – eu era brasa, Um pouco mais de azul – eu era além.”, em “QUASE”).
    “CERTA VOZ…” situar-se-á, muito simplificadamente, neste limbo entre o real que não vive e o ansiado que procura atingir, através desse processo de construção poética, pela palavra, que é o que sabe manejar sem temor, pelo menos absoluto, de ser repudiado, transpondo um erotismo que não se concretiza através do corpo ou do encontro dos corpos, por uma elaboração intelectual e emocional (no sentido da pessoana “AUTOPSICOGRAFIA”), para um indefinido, imponderável nível de percepção onde, se não concretizáveis, o desejo e a sua expressão são possíveis.
    O que é notável é que o poema consegue transmitir, através de uma genial “construção de palavras”, a vertigem e a turbulência interiores que atormentam o homem e impulsionam o poeta, conduzindo quem lê à percepção de um lugar e uma circunstância nebulosamente “erotizados”, que justifica a interpretação “imediata” da nossa amiga Maria de Sá (que não considero errada – bem pelo contrário! – apenas alerto que não se pode ficar por aí), mas se mantêm suspensos, no que toca ao objecto inalcançável, a sentimentos inexprimíveis, a emoções intangíveis.
    Poucas vezes esta angustiante ambiguidade de emoções e sentimentos intelectualizados, impulsionados pelo “não vivido”, terá atingido tais alturas poéticas!
    O que não significa que, escrito isto, não me pareça que não consegui explicar nada, isto é, transmitir a tal complexidade do texto… “Mea culpa!”

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