Partimos no dia seguinte logo de manhã cedo. O tipo de ambiente era sempre o mesmo: mata e vegetação baixa. Quando passadas umas horas de viagem o sol torrava-nos as costas; começamos a descer. Era uma descida suave, extensa. Ao longe viam-se árvores: mais uma mata, pensei. Só que esta era muito verdejante, sinal de que ali devia haver água. Deveria dar para lavar a cara à vontade, coisa que já não fazíamos há muito tempo. Parte da companhia já tinha passado o riacho, chamado “Cuilo” que, embora levando muita água permitia a passagem das viaturas sem problemas de maior. Não foi autorizada a paragem e a companhia seguiu o seu caminho calmamente, quando, sem o menor aviso, se começaram a ouvir rajadas de metralhadora, do outro lado do riacho e da mata que ficava á nossa direita. Cornos no chão, era o que tínhamos de fazer e fizemos sem esperar qualquer ordem. Eu tive azar porque a minha aliança ficou presa num dos ganchos que seguram o toldo da viatura. Aflito lá consegui desenfrascar-me Ainda não tinha chegado ao chão quando uma bala cantou – segundo mais tarde observei – exactamente no gancho onde eu tinha ficado preso. É preciso sorte para tudo! Adiante.
Respondemos ao fogo durante algum tempo, até que da frente veio a ordem de parar o fogo. Ficou um silêncio de morte. Ninguém se mexia.
Embarcar e avançar foi a ordem ouvida. Assim fizemos. Cautelosamente, um de cada vez tomava o seu lugar na viatura, arma apontada, pronta a fazer fogo. As viaturas avançaram e continuámos viagem. Quando a nossa viatura passou pelo riacho uma fresquidão saborosa assaltou os nossos corpos suados. As árvores eram altas e frondosas. Havia canas da Índia com seis ou sete metros de altura, e um diâmetro igual ao da minha coxa.
Prosseguimos o nosso caminho, sempre a mesma coisa: mata capim, capim mata: Hei! Que é aquilo?! Finalmente um sinal de civilização: Um sinal de aproximação de estrada sem prioridade e os dizeres ” Gasolina Sphinx” e por baixo Vacuun Company. Isto no meio de uma imensidão de terreno, onde já tínhamos desistido de encontrar qualquer sinal da dita “civilização”. Era impensável. Aproximação de estrada sem prioridade. Provavelmente seria o desvio para Pangala. Mas, aproximação de estrada no país onde nos encontrávamos não nos dizia muita coisa. De maneira que o melhor era ir andando e esperando. Era melhor contar tempo e não distância! Fomos andando e passados uns tempos lá apareceu o tal desvio, por onde continuámos viagem. Até que chegámos ao local. Desolados encontrámos a tal casa abandonada. Ficava antes da sanzala chamada Pangala, mas era ali que a nossa companhia iria ficar, mais de um ano. Que tristeza. Que desconforto. Havia companhias que destacadas em fazendas, tinham instalações que, comparadas com o nada que encontrámos eram um luxo. Tínhamos de fazer tudo. O capim era alto. Quase da altura de um homem. Chegados, tivemos que descapinar para arranjas espaço para montar as tendas nessa noite.
A. Ribau Teixeira (Memórias de um ex-combatente)
