“Quem me dera que a tropa fosse sempre assim…”
(…) Tínhamos atravessado o rio Metumbué, afluente do rio Rovuma, para a instalação do novo aquartelamento no Tartibo, na margem direita daquele rio, já que na esquerda vislumbrávamos a Tanzânia e o nosso inimigo. Tudo isso nos deixou de rastos, – corpos desnudos num calor infernal. Arrastávamo-nos cambaleantes, pois não existiam pontes nem barcaças.
Não sei como nem porquê, ficámos especados naquele imenso matagal. O resto da malta já havia destroçado para o aquartelamento. E nós, meia dúzia de gatos-pingados, ficáramos ali não sei se esquecidos ou como guardas do material que ainda ali ficara. Com muito medo e muito capim à nossa volta, perplexos e exaustos, desconhecedores da picada, perguntámos: – E agora? Sair dali era perigo iminente, a emboscada espreitava a cada passo, embora fossemos portadores duma G3. – E o material? O calor abrasava e a sede apertava. Beber água do Metumbué era suicídio certo; esta água era imprópria para lavar roupa… – “Eureka”! – Gritou alguém que no meio daquele material vislumbrou umas pipas amontoadas por entre o material. Era vinho. Bebemos… e tanto bebemos que nos esquecemos de deixar de beber… depois, vendo vários trilhos, orientámo-nos pelo do meio anteriormente recalcado pelos nossos camaradas. G3 às costas ou a tiracolo. Posição de tiro “nem pó”… risos provocados pelo elixir de Baco e a descontracção natural de qualquer turista de visita a terras de África. Chegado ao aquartelamento (cerca de seis quilómetros) dirigi-me mais ou menos sóbrio ao capitão e perguntei-lhe o porquê de tanta demora. Tínhamos sido esquecidos … Recebemos uma menção honrosa pelo nosso destemor. No dia seguinte foram buscar o resto do material. Entre nós (os esquecidos e ainda estupefactos pela nossa pseudo-ousadia) houve alguém que comentou: – Quem me dera que a tropa fosse sempre assim (…) João da Silva Arteiro ex-Soldado Condutor Auto Rodas NM 15393470 da Companhia de Caçadores 3309
“A sorte não protege os audazes”. 20 de Julho de 1971
Por me ter sido pedido por um camarada de armas da Companhia de Caçadores 3309 colaboração no relato do sucedido num acidente em Nangade, norte de Moçambique em 20 de Julho de 1971, e salvo algumas falhas de memória, aqui vai o que me recordo:
(…) Ainda estávamos no 1º semestre do ano de 1971, numa bela manhã de um sol derradeiro, estava eu junto ao depósito de géneros no inicio do aldeamento Macua no aquartelamento de Nangade quando ouvi uma grande explosão que facilmente identifiquei por ser o rebentamento de uma forte mina e, ao olhar para o vale que tinha uma vista fantástica do local onde me encontrava, logo me apercebi que havia acidente dado que há hora em que estávamos era normal que várias viaturas descessem ao vale; ora com pessoal para carregar água junto ao rio Litinguinha ou para levar gente para as machambas (hortas), ou até gente da população nativa que ali se deslocava para lavar roupa, percurso que de uma forma habitual era quase todos os dias feito pelo Sr. comandante à época tenente-coronel Vasconcelos Porto, zona absolutamente controlada pelas nossas companhias militares, e que nada fazia querer poder ser uma zona de grande risco.
Mas naquela manhã quis o destino que a 1ª viatura que desceu para o vale fosse aquele Unimog 404 que transportava 16 vidas, 14 negros civis habitantes das aldeias sobre o nosso controlo mais dois militares nossos da Companhia de Caçadores 3309, sendo um deles o 1º Cabo Condutor Victor que se ofereceu para efectuar aquela missão e que levava com ele um camarada da sua companhia, o Albino Dias de Sousa ao que mais tarde vim a saber este ia na viatura a seu convite dado que nunca tinha ido à Machamba, acabando os dois por morrer na dita explosão de uma mina anti-carro fortemente reforçada, assim como seis dos civis negros, ficando ainda mais 5 feridos graves e 3 ligeiros. Eu ao me aperceber do que estava a acontecer do local onde me encontrava, peguei rapidamente na minha bolsa de enfermagem que estava sempre por perto de mim e bem apetrechada, na minha arma, e corri para a descida acompanhado de mais uma meia dúzia de companheiros, que sem olhar a meios nos metemos numa viatura e chegamos ao local. Recordo que fui uma das primeiras pessoas a chegar junto dos sinistrados, “mortos e feridos por todo o lado com um forte cheiro a pessoas queimadas”, e aí de uma forma consertada com os outros companheiros batemos toda a zona a tiro com o objectivo de obrigar o inimigo a retirar-se caso por ali ainda houvesse alguém por perto.
Ao fazer uma rapidíssima inspecção ao sucessivo, como mandam as regras, comecei por assistir aos casos mais graves deixando os que já não tinha solução para mais tarde.
Depois de chegar o pessoal da Companhia de Artilharia 2745 que não tardaram e que nos foram proteger, então com as devidas precauções pedi que removessem à força de braços a viatura minada de onde retirei o cadáver do nosso camarada e meu amigo Victor, que antes desta operação era difícil vê-lo pois estava debaixo dos destroços da viatura minada.
Estava bastante esmagado embora a sua cabeça e cara não tivessem sido muito atingidas, quanto ao outro camarada, tinha alguns ferimentos mas à minha chegada também já estava morto no terreno. Julgo que o número elevado de mortos foi provocado pelo rebentamento, tendo em conta a forte onda de choque de calor e sobro que a potente mina produziu. Quanto aos restantes feridos foram todos evacuados por helicóptero a partir do local para o Hospital de Mueda e os mortos negros ficaram em Nangade. Os nossos militares feridos que seguiram em helicópteros para Mueda mais tarde foram enviados deste hospital para Nampula, onde eu posteriormente me desloquei para os visitar e apoiar.
Quando recordo a minha passagem por África sempre retrato o Victor, pois era um bom companheiro e um jovem de bom carácter, muito voluntarioso e bem-humorado, e a propósito disto, lembro-me alguns dias antes da sua morte termos pessoal da CCS do Batalhão de Artilharia 2918 fora do arame em patrulha de reconhecimento na picada (onde o Acácio Pedrosa, Cabo de Transmissões da minha companhia morreu com um tiro na cabeça – 10 de Maio de 1971) um grupo de voluntários no aquartelamento ao saber da noticia quis sair de imediato para o mato para resgatar o cadáver, e o Victor, foi de rápido o condutor que se ofereceu para conduzir a Berliet “rebenta minas” que se deslocou ao local (…)
Mário Fernando Silva ex- 1º Cabo Enfermeiro da CCS do Batalhão de Artilharia 2918


eu também estive no sagal na companhia 2718 batalhao 2918 entre 20 de maio 1970 que embarcamos no velho Niassa o 10 de junho chegamos a Lourenço Marques e fomos desembarcar em mocimbua da praia