EM COMBATE – 100 – por José Brandão

Companhia de Caçadores 1590

 

 

GUINÉ
1966-1968

  

 

 

Partida para a Guiné

 

 

Lisboa, 3 de Agosto de 1966.

Embarquei no paquete “Ana Mafalda” com destino à Guiné, para aí cumprir o serviço militar, integrado na Companhia de Caçadores nº 1590, pertencendo esta, ao Batalhão de Caçadores nº 1894.

A partida teve lugar no Cais Marítimo de Alcântara. Muitos familiares dos militares que embarcaram, choravam, gritavam e acenavam com lenços brancos. Muitos camaradas também choravam, porque alguns deles, ou já eram casados, ou porque também já tinham filhos e estes estavam ao colo das mães a despedirem-se deles, porque iam partir para a guerra. Eu não tinha ali qualquer familiar, ou amigo próximo. Embora não me rolassem as lágrimas pela cara abaixo, estava um pouco comovido com todo aquele ambiente à minha volta. Passamos a Ponte e levaram-nos por esse mar fora.

Os dias nascem e voltam a nascer. Sucessivamente. Como é normal, só vejo mar e mais mar, nuvens, o barco e o ruído dos motores. À muito que deixei de ver as gaivotas. Essas já ficaram para trás, pois já vou no alto mar.

 

Passo grande parte do tempo debruçado no convés, com o olhar fixo sobre as ondas ou as águas calmas do mar, como que a tentar descobrir que mundo estaria por baixo de mim. Outras vezes vou-me deitar no camarote, enquanto que os meus camaradas vão jogando umas partidas de cartas. Os graduados estão alojados em camarotes duplos, enquanto que os soldados vão repartidos por dois ou três porões, como se de gado se tratasse. Vários soldados pedem ao furriel vagomestre Zorro que lhe compre umas sandes e tabaco, o que este faz e desce ao porão para lhe levar a encomenda. As refeições dos graduados são servidas por empregados que usam papilon e acompanhadas pela orquestra privativa do navio, a que eu assisto mesmo sem comer.

 

Nos porões, vão várias centenas de jovens amontoados, sem quaisquer condições de higiene. Muitos vomitam, sendo necessário logo recorrer a baldes com água e vassouras para não ficar um cheiro nauseabundo. Dá-me pena ver aqueles pobres rapazes naquelas condições sub-humanas. Manifestei o meu desagrado e quase a minha revolta sobre esta situação ao Ratinho, porque é aquele camarada em quem mais deposito confiança. Não por que outros não mereçam a minha consideração, mas porque passamos muito tempo juntos no mesmo pelotão, o que é normal. Enfim, que se pode fazer? Quando sabemos que o analfabetismo e não só, grassa no país? Há que continuar viagem a caminho da guerra, sem sabermos se regressamos ou não. Mas dá para pensar em muita coisa. É tudo tão solitário, até não chegarmos a Cabo Verde. Aí, vamos estar um dia ou pelo menos umas horas em terra firme. Depois voltará a ser tudo como antes. Solidão, saudades dos entes queridos e mais solidão. Antes de iniciar a viagem, tomei uma decisão. Durante os nove dias, que vai durar a viagem, para não enjoar, não vou meter nada no estômago, a não ser quando estiver em terra firme. Só vou beber água. Mentalizei-me que tem que ser assim. E porquê? Porque em Outubro de 1965, fiz uma viagem no Paquete “Funchal” com destino à Madeira, onde fui dar uma recruta e durante a viagem, ia vomitando as tripas, chegando enjoadíssimo ao Funchal. Então alguém me aconselhou, que nestas condições, o melhor que há a fazer, é comer o menos possível e acima de tudo só beber líquidos. Estou a seguir este conselho e por enquanto, estou a dar-me bem.

Disseram-me que faltam dois dias para chegar à Guiné. Parece-me que todos estamos desejosos de pôr o pé em terra firme e já que tem que ser, que seja.

 

Bissau, 11 de Agosto de 1966.

 

Finalmente, cheguei a Bissau no dia 11, às 14 horas.

 

O desembarque só se verificou no dia seguinte, às sete da manhã, com desfile pela Av. Marginal, tendo a companhia sido alojada no quartel da Amura, mesmo virado para o Rio Geba. Amura, é um nome crioulo, que significa muralha, daí o nome de Fortaleza da Amura.

 

A companhia foi instalada na Amura, de forma a que todo o pessoal se sinta o melhor possível, o que é difícil. Fui arrumar as minhas coisas. Arrumar para quê?. Pensei que o melhor é continuarem na mala. Não há armários, nem estantes, apenas uma cama de ferro com uma rede mosquiteira. Dizem-me que é por causa dos mosquitos não nos picarem. Parece que são gigantes, fazem umas grandes babas e sugam-nos o sangue.

 

Findo este trabalho, o capitão deu folga a todo o pessoal para conhecer a cidade. Logo na primeira noite, juntei-me a um pequeno grupo para irmos dar uma volta, para conhecermos um pouco da noite guineense.

 

Na Amura passei momentos de grande solidão e tristeza, outros menos maus, próprios de quem tem 20 anos, associados ao momento de guerra que se vive. Penso se aqui em Bissau é mau, então quando for para o mato é que vai ser bonito.

 

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