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A ALEGRIA QUE TIVEMOS, NEM A TROIKA NOS PODE ROUBAR!

 

 

 

 

 

19h00 Marcelo Caetano, Rui Patrício e Moreira Baptista abandonam o Quartel do Carmo,

 sendo conduzidos na autometralhadora Chaimite “Bula”, em direcção ao Quartel da Pontinha. – A Baixa de Lisboa é invadida por enorme multidão que vitoria as Forças Armadas e a Liberdade.

 

19h50 – Comunicado do MFA anunciando formalmente a queda do Governo é lido por Fialho Gouveia na RTP.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Pedro Godinho tinha 14 anos e comunica-nos informalmente como viveu esse dia. Diz «Bem-aventurado quem, como eu, viveu o 25 de Abril de 1974. Isso ninguém nos pode tirar, nunca».

 

  Foi a minha avó paterna quem me acordou:


– É melhor não ires hoje ao liceu, está a haver uma revolução.

 

 

Nos meus quase catorze anos, revolução não sabia bem o que era – apesar de já ouvir José Afonso e ler às escondidas os comunicados clandestinos do MAEESL – mas soou-me bem porque trazia consigo a ideia de mudança e o fim dum regime assente no medo.


O medo da minha avó era outro – tinha assistido aos acontecimentos do 5 de Outubro, do 28 de Maio e da guerra civil espanhola e temia os tiros perdidos, os acertos de contas e a violência na rua.


O que eu sabia era que o que quer que fosse que acabasse com o bolor salazarento só podia ser bom – nem nunca me ocorreu que podia ser um golpe dos salazaristas que tinham o Marcelo Caetano por mole –, porque a importância da liberdade já a tinha apreendido a ler e ouvir o meu avô materno que, assim, não voltaria a ser perseguido e preso – por ser não se calar e fazer parte da oposição e acção democrática e antifascista. Felizmente nunca foi alvo da tortura e espancamento que outros presos sofreram.


Tomei o pequeno-almoço e, como habitualmente, fui a pé para o liceu – era o meu primeiro ano e isso fazia-me sentir quase adulto.


O liceu estava fechado, sem professores nem empregados – feriado premonitório – pelo que voltei para casa e fui ouvir na rádio os comunicados do MFA: “Aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas!…”.


Fui andar de bicicleta no bairro, levando comigo o rádio a pilhas, e, de forma inconsciente, acabei a ir espreitar a revolução na baixa de Lisboa, onde a emissora dizia tudo estava a acontecer.


A alegria transbordava dos rostos e vozes das pessoas – “a poesia está na rua”, nas palavras da poeta.


Por lá andei até à hora de voltar para o jantar.


A subir a Avenida da Liberdade parei porque estava a passar uma caravana automóvel com bandeiras da CDE, dum dos carros uma mulher disse-me: “Já não vais ter de ir à guerra…”.


Continuei a ouvir o rádio durante horas, madrugada dentro, até adormecer. Sem saber que como na canção daquele 25 de Abril podia verdadeiramente dizer “hoje é o primeiro dia do resto da minha vida”.


E que os dias seguintes seriam ainda mais vivos e revolucionários.


Bem-aventurado quem, como eu, viveu o 25 de Abril de 1974. Isso ninguém nos pode tirar, nunca.

 

Vitória, Vitória!

 

 

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