Este texto é uma adaptação de um outro que, com o mesmo título, foi publicado no Estrolabio
Aquarela do Brasil interpretada pelo grupo vocal esloveno Perpetuum Jazzile. Além do notável desempenho musical, note-se o quase perfeito português do Brasil em que a letra é cantada.
O hino nacional brasileiro é uma bonita composição musical, com belas ressonâncias verdianas. A música é da autoria de Francisco Manuel da Silva (1765-1865), maestro, compositor e professor, fundador do Conservatório do Rio de Janeiro e regente da Orquestra do Teatro Lírico Fluminense que viria a ser transformado na Ópera Nacional. Quanto a mim, a letra, não acompanha a qualidade musical. Foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927) – a linguagem é empolada. Mas é assim que a maioria dos hinos nacionais costumam ser – exortadores do patriotismo. Note-se que os dois autores não se cruzaram em vida – o maestro partiu cinco anos antes do poeta chegar. Em todo o caso, é um belo hino. Pois para muitos cidadãos brasileiros «Aquarela do Brasil», de Ary Barroso, é como que um outro hino do país. Numa sondagem organizada pela Academia Brasileira de Letras, a «Aquarela» ficou em primeiro lugar. A letra, também de Ary Barroso, canta um Brasil idílico, uma terra de sonho, onde o samba é rei. Será que, em 1939, o Brasil era assim tão agradável para ser pintado numa aguarela de cores tão vivas? Talvez o fosse para os ricos e para os turistas.
E para a generalidade dos brasileiros dessa época?
Em 1939, ano em que eclodiu a II Guerra Mundial, governava a República brasileira Getúlio Vargas. Chegara ao poder em 1930 mercê de um golpe militar, pondo termo à chamada República Velha e depondo o presidente Washington Luís. As instituições democráticas foram desmanteladas – dissolução do Congresso e das assembleias legislativas. Em 1932, eclodiu em São Paulo uma revolução constitucionalista, derrotada pelas forças fiéis ao Governo. Em 1934, o regime ditatorial consolidou-se ao ser aprovada uma nova Constituição, inspirada na de Weimar. Getúlio foi eleito para um mandato de quatro anos.
Em 1935, eclodiram novas revoltas e movimentos insurrecionais organizados pelo Partido Comunista Brasileiro, reprimidos duramente pelo Governo. Em 1937, dando como pretexto a existência de uma conspiração comunista para tomar o poder, em 10 de Novembro, Getúlio desencadeara um golpe de Estado. E criou o Estado Novo (nome igual ao do regime corporativo de Salazar e, segundo tudo o indica, nele inspirado). Em 1 de Janeiro de 1938 Getúlio promulgou uma nova Constituição
O Brasil, nos sete anos seguintes, até 1945, seria governado de forma autoritária, num regime de figurino fascista. Em «Memórias do Cárcere», Graciliano Ramos (1892-1953) descreve, em páginas de grande beleza e rigor, o que acontecia aos presos da ditadura getulista – torturas e outras sevícias, quando não mesmo a morte. O povo, não falando numa minoria de privilegiados, continuava a viver numa pobreza lancinante, alimentado por discursos demagógicos de recorte justicialista, tão ao gosto dos caudilhos latino-americanos.
Foi neste quadro de miséria, dor e repressão que Ary Barroso (1903-1963) escreveu a sua «Aquarela do Brasil», o retrato falso de um país triturado pela repressão getulista. Foi, no entanto, um grande êxito. Na imaginação dos que viviam num mundo em guerra, a existência de um paraíso, era reconfortante. Diz-se que numa noite chuvosa do Rio, Ary estava na sala de sua casa conversando com a mulher e o cunhado, quando se sentou ao piano e compôs de um jacto a música e a letra de «Aquarela do Brasil». Disse depois, que pretendera libertar o samba das tragédias da vida e das paixões sensuais que dominavam as letras da canção nacional. Talvez sem o pretender, ajudou a branquear um regime iníquo, brutal e corrupto.
O filme baseado no livro «1984», de George Orwell, realizado em 1985, por Terry Gilliam, chamou-se «Brazil» e, como tema recorrente da banda sonora, soa a «Aquarela do Brasil». Num mundo disfuncional, como é o que Orwell cria na sua obra, não haveria tema melhor – uma realidade cruel e, em contraponto, um retrato colorido, belo e falso dessa realidade.
As bandas sonoras de filmes como «Stardust memories» («Memórias», 1980), de Woody Allen, ou «The Aviator» («O Aviador», 2004), de Martin Scorsese, incluíram a «Aquarela». Para não falar no «Olá, Amigos» (1943), de Walt Disney e, mais recentemente , num episódio dos Simpson. Uma inspiração repentina que permitiu a Ary Barroso ser cantado por Frank Sinatra, Bing Crosby, Rosemary Clooney, Harry Belafonte…
Um país onde imperava o terror de um governo fascista e a miséria endémica coberta pelo manto diáfano de inomináveis assimetrias sociais, aparecia transmutado em paraíso, naqueles anos em que o horror da guerra tornava apelativo o bilhete postal colorido que Ary Barroso compôs numa noite em que a chuva flagelava o seu Rio de Janeiro.
