DIA DO BRASIL – Aquarela do Brasil – (I) por Carlos Loures

 

(Este texto é uma adaptação do que foi publicado no Estrolabio) 

 

Por que motivo dei este nome ao artigo– “Aquarela do Brasil” (nós dizemos aguarela)? Vamos começar por ouvir «Aquarela do Brasil», a canção de Ary Barroso( 1903-1963). Depois explicarei a razão de ser do título. Canta Gal Costa:

 

 

 

Como se sabe, o Hino do Brasil tem música de Francisco Manuel da Silva (1795 – 1865) e letra de Joaquim Osório Duque Estrada (1870 – 1927). Foi decretado como Hino Nacional em 21 de Agosto de 1922, durante a presidência de Epitácio Pessoa. É um hino muito bonito, com ressonâncias operáticas, verdianas. A letra é talvez menos inspirada, mas é aquilo que (como sucede com «A Marselheza» ou com A Portuguesa») as letras dos hinos nacionais costumam ser – exaltantes, apelando ao amor pela Pátria, invocando o heroísmo dos próceres. Pois, para muitos, a “Aquarela do Brasil” é como que um outro hino do país. Numa sondagem organizada pela Academia Brasileira de Letras, a «Aquarela» ficou em primeiro lugar. A letra, também de Ary Barroso, canta um Brasil idílico, uma terra de sonho, onde o samba é rei.

Diz-se que numa noite chuvosa do Rio, Ary estava na sala de sua casa conversando com a mulher e o cunhado,

quando se sentou ao piano e compôs de um jacto a música e a letra de «Aquarela do Brasil». Disse depois, que pretendera libertar o samba das tragédias da vida e das paixões sensuais que dominavam as letras da canção nacional. Talvez sem o pretender, ajudou a branquear um regime iníquo, brutal e corrupto.  Será que, em 1939, o Brasil era assim tão agradável para ser pintado numa aguarela de cores tão vivas? Talvez o fosse para os ricos e para os turistas. E para os brasileiros?

 

Em 1939, quando eclodiu a II Guerra Mundial, governava o Brasil, Getúlio Vargas. Chegara ao poder em 1930 mercê de um golpe militar, pondo termo à “República Velha” e depondo o presidente Washington Luís. As instituições democráticas foram desmanteladas – dissolução do Congresso e das assembleias legislativas. Em 1932, eclodiu em São Paulo uma revolução constitucionalista, derrotada pelas forças governamentais. Em 1934, a ditadura consolidou-se com a aprovação de uma nova Constituição. Getúlio foi eleito para um mandato de quatro anos. Em 1935, novas revoltas e movimentos insurrecionais organizados pelo Partido Comunista Brasileiro, foram reprimidos pelo Governo. Em 1937, pretextando a existência de uma conspiração comunista para tomar o poder, em 10 de Novembro, Getúlio desencadeou um golpe de Estado,. Era o Estado Novo (nome igual ao do regime corporativo de Salazar e, segundo tudo o indica, nele inspirado). Em 1 de Janeiro de 1938, Getúlio promulgou uma nova Constituição Até 1945, o país seria governado de forma autoritária, num regime parafascista. Em «Memórias do Cárcere», Graciliano Ramos (1892-1953) descreveu , em páginas de grande beleza e rigor, o que acontecia aos presos políticos – torturas, sevícias, quando não mesmo a morte. O povo, não falando numa minoria de privilegiados, continuava a viver numa pobreza lancinante, alimentado por discursos demagógicos de recorte justicialista. Foi neste quadro de miséria, dor e repressão que Ary Barroso (escreveu a sua «Aquarela do Brasil», o retrato falso de um país triturado pela repressão getulista. Foi, no entanto, um grande êxito. Na imaginação dos que viviam num mundo em guerra, a existência de um paraíso, era reconfortante.

 

O filme baseado no livro «1984» de George Orwell foi realizado em 1985, por Terry Gilliam, chamou-se «Brazil» e, como tema recorrente, soa a «Aquarela do Brasil». Já aqui enunciei o conceito de distopia na ficção literária e, particularmente, em «1984», de George Orwell Num mundo disfuncional, como é o que Orwell criou na sua obra, não haveria tema mais adequado para a banda sonora – uma realidade cruel e um retrato colorido, belo e falso dessa realidade. Foi exactamente assim que funcionou a música de Ary Barroso no Brasil de 1939. Um país onde imperava o terror de um governo fascista e a miséria endémica coberta pelo manto diáfano de inomináveis assimetrias sociais, aparecia transmutado em paraíso, naqueles anos em que o horror da guerra tornou apelativo o bilhete postal colorido que Ary Barroso compôs numa noite em que a chuva flagelava o Rio de Janeiro.

 

 (Continua)

 

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