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AINDA A PROPÓSITO DE FÀTIMA – por Carlos Loures

Diluída que está a divergência com Adão Cruz, venho tentar colmatar falhas de argumentação feita em comentários que, pela sua forma física, são mais vulneráveis a essas falhas. Pretendo também recuperar algumas coisas  que foram ditas nesses comentários. Antes de mais, queria tornar claro que, de modo algum, aprovo  “limpezas étnicas” venham de onde vierem. Não há bons genocídios e maus genocídios. Só  quis afirmar que os croatas não são piores nem melhores do que os outros povos balcânicos. Foram algozes e vítimas. A sérvios, croatas, bósnios, não se desculpam os crimes – mas podemos tentar entender o que motivou tanto ódio.

 

A Croácia é uma nação que  existia já como estado no século VI. Desde a Idade Média foi alvo de permanentes disputas entre o os reinos vizinhos – Hungria, República de Veneza, Império Otomano, Império dos Habsburgos… Em 1918 uniu-se à Sérvia e ao Montenegro, mas a partir de 1921 as coisas azedaram quando os sérvios começaram a tomar conta de todos os centros e mecanismos do poder, centralizando-os em Belgrado. O líder dos croatas  Stjepan Radić opôs-se ao Partido Radical Popular, dos sérvios, mas em 1928, foi assassinado por um deputado sérvio durante uma sessão do Parlamento. O Rei Alexandre proclamou a ditadura e impôs uma nova constituição, mudou o nome do reino para Jugoslávia – um rei sérvio, capital instalada na Sérvia, uma ditadura liderada por um Partido sérvio. A Croácia fora esmagada e apagada do mapa. A ocupação da Jugoslávia pelo Eixo em 1941 permitiu ao Ustaše, partido croata radical de direita subir ao poder, formando o Estado Independente da Croácia, chefiado por Ante Pavelić. Na verdade um fantoche das potências do Eixo, o novo Estado promulgou leis raciais, estabeleceu oito campos de concentração e deu início a uma campanha de extermínio de sérvios, judeus e roma(ciganos).

 

O movimento de resistência antifascista surgiu no início de 1941, sob comando do Partido Comunista, chefiado por Josip Broz (Tito). A guerrilha monárquica sérvia Četnici, por sua vez, protegia do Ustaše os aldeães sérvios e retaliava contra os croatas. Uns e outros, agiam com uma crueldade aberrante. O campo de concentração Jasenovac, criado pelos Ustaše no começo da guerra, foi um dos maiores sítios de execuções em massa da Europa ocupada, no qual pereceram dezenas de milhares pessoas (havendo estimativas onde se ultrapassa a centena de milhares). Tanto o Ustaše como a Četnici sérvia colaboraram com o Eixo e combateram juntos contra a resistência. Em 1943, o movimento de resistência recebeu o apoio do Exército Soviético conseguiu por os croatas e sérvios colaboracionistas em fuga.

 

A colagem às forças nazis feita pelos católicos croatas é idêntica à dos católicos irlandeses em 14-18. Esta adesão, baseia-se no princípio de que os inimigos do nosso inimigo são nossos amigos. Não se pode é analisar os factos como se a Jugoslávia fosse um estado com identidade própria – não o era. Os sérvios esmagaram a autonomia croata e quiseram aculturar, impor a sua hegemonia. Aproveitando a invasão alemã, os fascistas croatas cometeram crimes e quiseram proceder a uma limpeza étnica, assassinando dezenas ou centenas de milhares de sérvios; aproveitando a ajuda soviética, os sérvios, assassinaram muitos milhares de croatas… Onde estão os bons, onde estão os maus?

 

Tal como Espanha é a realização de um objectivo histórico castelhano, a Grã-Bretanha um projecto dos ingleses, a Alemanha a imposição do modelo prussiano aos povos germânicos, a Jugoslávia foi a utopia sérvia. Repito a metáfora de Gonçalo Ribeiro Telles dos cursos de água que, ocupados os seus leitos pela expansão urbana, os recuperam de forma violenta. As nacionalidades reprimidas são também recuperadas com violência e com crueldade. A natureza humana nessas situações, recupera estádios de primitivismo que julgávamos sepultados sob camadas sedimentares de cultura e de apuro comportamental. E como disse num comentário, a culpa do terrorismo é de quem ocupa terra alheia e transforma homens normais em assassinos. Na intrincada questão dos Balcãs, não vejo maiores culpados do que os sérvios. Sem o expansionismo sérvio, não teria havido limpezas étnicas.

 
Mas estou de acordo com a condenação da Igreja católica. N
ão tenho dúvidas de que o Vaticano é o centro de uma teia que opera à escala mundial. Esquemas mafiosos, assassínios… Deus não é para ali chamado – como na anedota do Pedro Godinho, de bispo para cima, não é preciso ser crente – eu diria que de bispo para cima, ser crente só serve para atrapalhar. Mas a Igreja católica é um inimigo, não é o inimigo; faz parte dele – tal como as outras igrejas e cultos. Parece-nos mais desprezível porque é a que nos afecta. Por exemplo, o islamismo integrista não é melhor, nem o seu clero é mais sério do que o da Igreja de Roma. Não há estruturas religiosas sérias – todas vivem da mentira, da superstição, do medo da morte. São uma face oculta da Humanidade, o eco atávico do canibalismo cavernícola.  Anunciam-se como Luz, mas vêm directamente do coração das trevas.

 

Máximo Gorki defendia que  o importante é que o homem se vá afastando da condição animal – Quando formos humanos no sentido filosófico do termo, Fátima, Lourdes ou Meca, entrarão em declínio e desaparecerão. Se formos capazes de nos transformar em pessoas, deixará de haver espaço para as igrejas. Que poderá haver de mais transcendente do que a fé na nossa humanidade? Para que necessitamos de um deus inexistente? Bem, fiquemos por aqui e oxalá este texto, feito para esclarecer o que foi dito por mim nos comentários, não precise de um esclarecimento.

 

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