Memórias do holocausto nazi e o papel de Pio XII no processo – “O outro holocausto. O Vaticano e o genocídio na Croácia”, por Santiago Camacho

 

Nota do editor:

Com este texto e os que publicamos amanhã e depois de amanhã – “A esquecida e consentida sepultura em Madrid do genocida fascista Ante Pavelic” e “A controvérsia sobre Pio XII e o holocausto” – queremos sublinhar a importância da preservação da memória dos factos históricos, não como lembrança estática do passado ou para nos comprazermos com uma controvérsia que é certamente importante, mas antes porque, para além de trazer à luz factos gravíssimos (totalmente) silenciados por muitas das reportagens sobre o holocausto e a Alemanha nazi e o papel da Igreja católica em todo o processo, a memória destes factos é essencial ao nosso olhar e reflexão sobre o presente e às escolhas que fazemos viradas para o futuro.

São textos longos mas que nos parece que devem ser publicados numa única edição dado a importância de uma leitura seguida dos relatos.

O caso do genocídio sob o regime da Croácia fascista entre 1941 e 1945 não é caso único de entre outras perseguições por motivos religiosos, culturais ou de raça [1]. Mas merece a nossa atenção pelo silêncio que tem rodeado o autêntico holocausto aí ocorrido no período do nazi-fascismo.

O texto de hoje, é um texto duro, mesmo violento, mas assim foram os factos que nele se descrevem. Foi publicado por Mario Olcese Sanguineti em 17 de Janeiro de 2009 (ver aqui) e por Xavier Cadalso (ver aqui) , é constituído por extratos do livro “Biografía no autorizada del Vaticano” da autoria de Santiago Camacho (ver aqui), jornalista e escritor espanhol, editado em 2005 (Ediciones Martinez Roca).

Algumas das fotografias são do texto publicado por Xavier Cadalso e outras da responsabilidade do editor.

Da Introdução deste livro citamos o seguinte:

O que não é sagrado

Antes de começar a desenvolver ao longo dos próximos capítulos a apaixonante história de um dos maiores e mais desconhecido centro de poder do mundo, há algumas questões que será necessário esclarecer para, na medida do possível, evitar mal-entendidos. (…)

Quando o leitor encontra na capa de um livro as palavras biografia não autorizada sabe que pode estar seguro de que a obra em questão terá causado desgosto ao biografado por conter nas suas páginas todos os factos polémicos, escandalosos ou pouco dignos que o protagonista preferiria que jamais aparecessem nas suas memórias. Assim pois, partindo desta premissa, esta “biografia” do Vaticano é, sem dúvida “não autorizada”.

No entanto, e apesar da qualidade de “não autorizado” do nosso relato, há uma observação que considero necessário fazer. Este não é um livro anti-católico, e muito menos anti-religioso. Nas suas páginas não lerá temas que afetem a doutrina da fé cristã em geral nem da católica em particular, para lá de algumas explicações que foram consideradas necessárias para lançar luz sobre determinadas questões que de outro modo não ficariam suficientemente esclarecidas.

Costuma dizer-se que no Vaticano tudo o que não é sagrado é secreto. Pois bem, vamos deixar de lado o sagrado e centrar-nos-emos no secreto, em concreto nos aspetos menos conhecidos da política, da diplomacia e, sobretudo, da economia do Vaticano, um Estado soberano que, como todas as nações do mundo que existiram, perdeu de vista em muitas ocasiões a estrita observância da moralidade para assegurar a sua própria sobrevivência e prosperidade. Neste sentido, atrever-me-ia a dizer que se poderia ter escrito um livro semelhante sobre quase qualquer outra nação do mundo.

Ninguém deveria sentir-se ofendido ou atacado no que respeita às suas crenças, pois o objetivo deste trabalho são questões completamente alheias ao que é espiritual. (…)

Este é um livro que conta o que acontece detrás dos muros da capital do catolicismo: as lutas pelo poder, as intrigas políticas internas e externas, as manobras económicas de altos voos… É precisamente a este terreno que daremos especial ênfase uma vez que é notável que, com excepção da descoberta em 2002 da magnitude que tinham alcançado os casos de abuso de menores no seio da Igreja, a quase totalidade dos escândalos que salpicaram a Santa Sé ao longo do século XX estão marcados, em maior ou menor medida, pelo económico. (…)

Para além disto, o dinheiro e a religião fazem muito más amizades.

A opulência do Vaticano serviu para atrair personagens que não são exactamente santos, que, por vezes surpreendendo a boa fé dos administradores da Santa Sé, e outras vezes com a sua cumplicidade, conduziram a instituição a situações extremamente embaraçosas. Outras vezes as amizades perigosas eram feitas não tanto pelo calor do dinheiro, mas pela afinidade ideológica. Durante a maior parte do século XX, o grande inimigo da Igreja Católica foi o comunismo, e era lógico que aqueles que partilhavam essa inimizade olhavam para Roma em busca de uma aliança. O mau é que entre estes “inimigos dos meus inimigos” havia companheiros de viagem tão pouco recomendáveis para projetar uma imagem de santidade, como os de toda a lista de ditadores fascistas na Europa e América do Sul, os serviços de inteligência de várias nações, ou a Democracia Cristã italiana, outrora fortemente ligada à Máfia.

(…)

O segundo texto – “A esquecida e consentida sepultura em Madrid do genocida fascista Ante Pavelic” – debruça-se sobre o papel e atrocidades cometidas por Ante Pavelic, líder da Croácia fascista independente, a sua morte e sepultura em Espanha e de outros comparsas que igualmente terminaram os seus dias, descansadamente ou não, em Espanha.

O terceiro texto – “A controvérsia sobre Pio XII e o holocausto” – a publicar amanhã, ajuda-nos a contextualizar as divergências em torno da figura de Pio XII e o seu comportamento durante a Segunda Guerra Mundial, e o qual finaliza destacando a falta de firmeza do Papa na condenação do nazismo e o facto de cada abertura de novos arquivos da época lançarem “sombras cada vez mais densas não só sobre a atitude mas também sobre a ideologia do Papa Pacelli“.

 

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O outro holocausto. O Vaticano e o genocídio na Croácia

Por Santiago Camacho

 

Resgatamos da Biografia não autorizada do Vaticano extratos de factos e crimes imperdoáveis cometidos pelo Vaticano e pelo estado croata NDH [Nezavisna Država Hrvatska, 1941-45] sobre os povos sérvio, judeu e cigano nos territórios da Croácia atual.

 

Capítulo 5 – O outro holocausto. O Vaticano e o genocídio croata

A maior parte das pessoas ignora que durante a II Guerra Mundial se produziu outro genocídio cuja brutalidade excedeu em muito o ocorrido nos campos de concentração nazis. O assassinato de mais de 750.000 sérvios na Croácia faz já parte por direito próprio dos anais dos crimes mais infames contra a humanidade. O papel da Igreja católica nesta tragédia não foi, de forma alguma, menor.

Quando Adolf Hitler atacou a Jugoslávia [então reino da Jugoslávia, que sucedeu em 1929 ao Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, ver aqui) a 6 de Abril de 1941, foi imediatamente evidente que a Wehrmacht [as forças armadas nazis] contava com o apoio de grupos traidores dentro do Estado jugoslavo. O exército do país estava entre a espada e a parede, ultrapassado pela imensa máquina de guerra alemã e apunhalado pelas costas por terroristas pró-nazis que eram membros do Partido Ustacha, uma perigosa organização croata de extrema-direita. Mesmo os comandantes de algumas unidades da maioria croata estiveram em conversações com os nazis, abrindo-lhes praticamente as portas do país [1].

O Estado independente da Croácia foi declarado a 10 de Abril de 1941, no mesmo dia em que a 14ª Divisão Panzer alemã entrou em Zagreb e foi entusiasticamente acolhida pela população. A invasão da Jugoslávia pelas tropas de Hitler significou a divisão do país em duas nações independentes. A Croácia católica via o seu sonho de independência da Sérvia ortodoxa tornar-se realidade. Em termos da sua organização e ideologia, o novo Estado croata era uma nação totalitária fundada sobre o princípio de um Führer que, enquanto mantivesse a sua subordinação à Alemanha, podia fazer e desfazer o que quisesse.

Ante Pavelic

O senhor da guerra que tomou as rédeas do país foi Ante Pavelic, chefe do Ustashes. Pavelic e os seus seguidores tinham estado exilados em Itália sob a proteção de Mussolini, uma vez que eram procurados pelos governos francês e jugoslavo sob a acusação de planear os assassinatos do rei Alexandre da Jugoslávia e do primeiro-ministro francês Louis Barthou. Pavelic estabeleceu na Croácia, com a ajuda dos seus padrinhos nazis, o NDH “Nezavisna Drzava Hrvatska” (Estado Independente da Croácia). A 14 de Abril, o Primaz da Croácia, arcebispo Alojzije Stepinac, encontrou-se com Pavelic para o felicitar, enquanto todos os sinos do país tocavam para celebrar a vitória. Em troca, Stepinac recebeu a nomeação do Vigário Apostólico Supremo Militar do Exército de Ustachas. A imprensa católica estava cheia de elogios ao ditador: Deus, que controla o destino das nações e dirige os corações dos reis, deu-nos Ante Pavelic e levou o líder de um povo amigo e aliado, Adolf Hitler, a empregar as suas tropas vitoriosas para dispersar os nossos opressores e permitir-nos criar um estado independente da Croácia. Glória a Deus, a nossa gratidão a Adolf Hitler, e lealdade infinita ao líder Ante Pavelic [2].

Nazis alemães, fascistas italianos, Ustachas croatas, o núncio papal Ramiro marcone (sotaina branca) e o arcebispo de Zagreb Alejzije Stepinac (sotaina preta)

 

Uma tal efusão não é surpreendente considerando que uma investigação da comissão jugoslava de crimes de guerra estabeleceu que o Arcebispo Stepinac tinha sido um dos principais actores na conspiração que levou à conquista da Jugoslávia. Afinal, a Igreja Católica tinha sonhado durante séculos com a ideia de um reino católico nos Balcãs, algo que finalmente aconteceu quando Pavelic e Hitler elevaram Tomislav II ao trono, cujo papel era meramente decorativo. A identidade do Estado baseava-se mais na filiação religiosa do que na etnia. O fanatismo católico dos Ustachas estava determinado a transformar a Croácia num país católico através de uma combinação de conversões religiosas forçadas, expulsão e extermínio.

 

O herói Pavelic

O clero apoiava o regime com entusiasmo fanático. A maioria dos católicos partilhava os objetivos ideológicos dos Ustachas e regozijou-se com o fim da tolerância religiosa imposta pela ex-Jugoslávia. O próprio papa recebeu Pavelic em audiência e abençoou toda a delegação dos Ustachas em Roma, incluindo a representação da Irmandade dos Grandes Cruzados, encarregada de converter os sérvios ao catolicismo por meio de táticas que, como veremos, não eram propriamente evangelizadoras [3].

Durante os seus quatro anos de existência como Estado independente (1941-1945), mais de 750.000 sérvios foram executados na Croácia, mais milhares de judeus e ciganos [4]. Dos 80.000 judeus na Jugoslávia, 60.000 foram assassinados, a grande maioria dos quais na Croácia. A maioria destas mortes foram cometidas pelos Ustachas. A Croácia foi o único país, juntamente com a Alemanha, onde funcionaram campos de concentração de grande escala durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao contrário dos nazis, que conceberam um sistema de extermínio industrial e discreto, o genocídio na Croácia e na Bósnia-Herzegovina caracterizou-se pela execução de assassínios rituais em locais públicos, levados a cabo com entusiasmo sádico e desenfreado. O historiador austríaco Freidrich Heer comentou em 1968 que o que aconteceu na Croácia foi o resultado do “fanatismo arcaico de épocas pré-históricas”. Segundo este perito, Pavelic foi “um dos maiores assassinos do século XX”. Isto não impede Pavelic de ser visto como um herói na Croácia moderna.

O “herói” croata costumava referir-se aos sérvios da seguinte forma: “Os sérvios-eslavos são o desperdício de uma nação, o tipo de pessoas que se vendem a qualquer pessoa a qualquer preço…“. Grande parte desta animosidade foi arrancada dos púlpitos. O próprio arcebispo Stepinac dizia:

Afinal, croatas e sérvios pertencem a dois mundos diferentes, pólo norte e pólo sul, nunca se entenderão a não ser por um milagre de Deus. O cisma da Igreja Ortodoxa é a maior maldição da Europa, quase mais do que o Protestantismo. Aqui não há moral, não há princípios, não há verdade, não há justiça, não há honestidade[5].

Em 12 de Junho de 1941, todos os judeus e sérvios na Croácia descobriram que a sua liberdade de circulação tinha sido restringida. O Ministro da Justiça, Milovan Žanić, não teve a menor hesitação em declarar o significado destas medidas:

Este estado, o nosso país, é apenas para croatas e para mais ninguém. Não haverá formas e nem medidas que os croatas não utilizem para tornar o nosso país verdadeiramente nosso, purificando dele todos os ortodoxos sérvios. Todos aqueles que vieram para o nosso país há trezentos anos atrás devem desaparecer. Não escondemos as nossas intenções. É a política do nosso Estado e para a sua promoção tudo o que faremos é seguir fielmente os princípios dos ustachas[6].

 

Limpeza étnica

Nessa altura, os assassinatos já tinham começado. Mile Budak, Ministro da Educação do governo croata, declarava na cidade de Gospic a 22 de Julho de 1941:

A base do movimento ustacha é a religião. Para as minorias, tais como sérvios, judeus e ciganos, temos três milhões de balas. mataremos um terço da população sérvia, deportaremos outro terço, e o resto convertê-los-emos à fé católica para que sejam assimilados ao povo croata. Desta forma destruiremos todos os seus últimos vestígios, e tudo o que restar será uma memória infeliz deles…” [7].

A campanha de limpeza étnica começou quase imediatamente. Grande parte da legislação e da estrutura administrativa do novo Estado foi adaptada para se adaptar o mais próximo possível do direito canónico.

O arcebispo Stepinac viu com particular satisfação a lei que decretava a pena de morte por aborto e a lei que impunha trinta dias de prisão por insulto [8]. A oposição política foi varrida da vida pública. A publicação de textos em cirílico, o alfabeto utilizado pelos sérvios, foi proibida. Foi também iniciada uma campanha de “Arianização”, negando casamentos mistos entre católicos croatas e membros de outras etnias. Foram colocados sinais na entrada dos parques onde se podia ler: “Proibida a entrada para sérvios, judeus, ciganos e cães” [9]. A Igreja croata recebeu estas medidas com entusiasmo mal disfarçado, que foi revelado, por exemplo, nas palavras do Mate Mogus, padre em Udbina:

Até agora temos trabalhado para a fé católica com o livro de orações e a cruz. Agora chegou o momento de trabalhar com a espingarda e o revólver[10].

Entretanto, o infame campo de concentração de Danica começou a receber as suas primeiras vítimas:” inicialmente judeus, e depois todos os qualificados como “indesejáveis”, ou seja, não-católicos, que representavam mais de 60 por cento da população [11].

Campo de concentração de Danica

As atrocidades cometidas nos campos de concentração da Croácia são inigualáveis, em alguns casos ultrapassando as dos nazis. Djordana Diedlender, guarda do campo de Stara Gradiska, deu este testemunho chocante durante o julgamento do comandante do campo, Ante Vrban:

Naquela época, novas mulheres e crianças chegavam diariamente ao campo em Stara Gradiska. Ante Vrban ordenou que todas as crianças fossem separadas das suas mães e levadas para um quarto. Disseram a dez de nós que as levássemos para lá embrulhadas em cobertores. As crianças gritavam por toda a sala e uma delas colocou um braço e uma perna na porta de modo a que a porta não pudesse ser fechada. Vrban gritou, “empurra-a”. Não o fiz, então ele bateu com a porta e destroçou a perna do rapaz, depois agarrou-o pela outra perna e bateu com ele contra a parede até o matar. Depois disso, continuou a colocar as crianças lá dentro. Quando a sala estava cheia, Vrban usou gás venenoso e matou-as a todas [12].

 

O prazer de matar

A ferocidade dos Ustachas alarmou até mesmo os próprios nazis, que temiam que uma repressão tão brutal de uma população tão numerosa levasse a uma revolta armada. A 17 de Fevereiro de 1942, Reinhard Heydrich, um dos principais artífices da Solução Final (o plano das altas hierarquias do Terceiro Reich para exterminar os judeus) e, como tal, não propriamente conhecido pela sua piedade, manifestou a sua preocupação ao Reichführer das SS, Heinrich Himmler:

O número de eslavos massacrados pelos croatas das formas mais sádicas é estimado em 300.000 […]. A realidade é que na Croácia os sérvios deixados vivos são aqueles que se converteram ao catolicismo, aos quais foi permitido viver sem ser molestados […]. Devido a isto, é evidente que o estado de tensão servo-croata é uma luta entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa.

Perante a fria eficiência dos nazis, que tinham transformado o genocídio num tipo sinistro de produção em massa, os Ustachas faziam da morte das suas vítimas algo de pessoal, tendo prazer na sua tortura e humilhação pública. Esta e nenhuma outra é a razão pela qual se conserva um grande número de testemunhos fotográficos de tais atrocidades. Estes são instantâneos que foram na sua maioria tomados como “lembranças” pelos carrascos. Nelas se podem ver barbáries dificilmente concebíveis a uma mente sã: desde sessões de tortura aplaudidas por um público enfurecido até procissões de cabeças cravadas em estacas pelas ruas de Zagreb [13]. O próprio Pavelic tinha um perverso prazer em apresentar aos diplomatas visitantes cestos cheios de olhos humanos [14].

Até mesmo os endurecidos fascistas italianos que controlaram uma parte da Croácia durante a guerra estavam horrorizados com os Ustachas, e conseguiram salvar um grande número de judeus e ortodoxos, recusando-se a devolver à morte certa os refugiados que entraram na sua zona de controlo. O arcebispo Stepinac queixou-se desta atitude dos italianos tanto ao bispo de Mostar, como aos italianos que regressaram e reimpuseram a sua autoridade civil e militar. As igrejas cismáticas reanimaram imediatamente após o seu regresso e os padres ortodoxos, até então escondidos, reapareceram com liberdade. Os italianos parecem favorecer os sérvios e prejudicar os católicos [15], como salientou o Ministro para os Assuntos Italianos em Zagreb:

Acontece que nos territórios croatas anexados pela Itália se pode observar um constante declínio na vida religiosa e uma evidente mudança do catolicismo para o cisma. Se a parte mais católica da croácia deixasse de ser católica no futuro, a culpa e a responsabilidade perante Deus e a história pertenceriam à Itália católica. O aspecto religioso deste problema faz com que seja minha obrigação falar em termos simples e abertos uma vez que eu, pessoalmente, sou o responsável pelo bem-estar religioso da Croácia [16].

 

Os frades assassinos

O mais escandaloso de todo este sórdido assunto é que não foram poucos os padres e, sobretudo, os frades franciscanos, que se encarregaram destes campos de morte.

Com algumas excepções aqui e ali, o fenómeno aqui descrito era característico dos massacres ustacha. Ao contrário dos extermínios em outros países durante a Segunda Guerra Mundial, era quase impossível imaginar uma expedição punitiva de ustachas sem a presença de um padre à cabeça, geralmente um franciscano [17].

     Miroslav Filipovic

O mais conhecido deles foi o frade franciscano Miroslav Filipovic [também conhecido como Irmão Satã], que liderou o campo de Jasenovac, onde milhares de pessoas tiveram uma morte atroz. Outro franciscano desse campo, Pero Brzica, detém um recorde ainda mais macabro.

Com a chegada de novos prisioneiros, tornou-se claro que os prisioneiros existentes tinham de ser mortos para dar lugar aos recém-chegados. O pessoal do campo mostrou-se entusiasmado com esta perspetiva:

    

O franciscano Pero Brzica, Ante Zrinusic, Sipka e eu fizemos uma aposta para ver quem mataria mais prisioneiros numa noite. A matança começou e após uma hora matei muito mais do que eles. Senti-me como se estivesse no sétimo céu. Nunca tinha sentido tanto êxtase na minha vida. Após um par de horas tinha conseguido matar 1.100 pessoas, enquanto os outros só conseguiram matar entre 300 e 400 pessoas cada um. E depois, quando estava a experimentar o meu maior prazer, reparei num velho camponês ali parado a olhar calmamente para mim enquanto matava as minhas vítimas e para elas enquanto morriam com a maior dor.

Esse olhar chocou-me; de repente congelei e durante algum tempo não consegui mexer-me. Aproximei-me dele e descobri que ele era da aldeia de Klepci, perto de Capijina, e que a sua família tinha sido morta, tendo sido enviado para Jasenovac depois de ter trabalhado na floresta. Falava-me com uma paz incompreensível que me afetou mais do que os dilacerantes gritos que se ouviam à minha volta. De repente senti a necessidade de destruir a sua paz através da tortura para que, através do seu sofrimento, pudesse restaurar o meu estado de êxtase para que pudesse continuar com o prazer de infligir dor.

Apontei para ele e fi-lo sentar-se comigo num tronco. Ordenei-lhe que gritasse: “viva o Poglavnik Pavelic”, ou corto-te uma orelha. Vukasin não falou. Arranquei-lhe uma orelha. Ele não disse uma palavra. Disse-lhe novamente para gritar: “viva o Pavelic!” ou arranco-te a outra orelha. Arranquei-lha. Grita: “viva o Pavelic!”, ou corto-te o nariz, e quando lhe ordenei pela quarta vez que gritasse “viva o Pavelic!” e o ameacei arrancar-lhe o coração com a minha faca, ele olhou para mim e na sua dor e agonia disse:

“Faz o teu trabalho, criatura!”. Essas palavras confundiram-me, congelaram-me, e arranquei-lhe os olhos, depois o coração, cortei-lhe a garganta de orelha a orelha e atirei-o para o poço. Mas algo se rompeu dentro de mim e já não consegui matar mais naquela noite.

O franciscano Pero Brzica ganhou-me a aposta, ele tinha morto 1.350 prisioneiros. Paguei sem dizer uma palavra [18].

Por esta façanha, o franciscano recebeu o título de “rei dos cortadores de garganta” e um relógio de ouro, possivelmente roubado de um prisioneiro antes de o executar.

 

Converter-se ou morrer

A barbárie, longe de diminuir, aumentou e chegou a um ponto em que nem sequer a formalidade dos campos de extermínio foi considerada necessária. Aldeias inteiras foram invadidas e os seus habitantes foram passados a fio de espada, se não assassinados com martelos e machados, enforcados ou mesmo crucificados. Os sérvios sofreram as torturas mais atrozes, que foram particularmente cruéis contra os padres ortodoxos, muitos dos quais foram queimados, esfolados ou esquartejados vivos.

As execuções em massa eram comuns, as vítimas eram degoladas e por vezes cortadas em pedaços. Em muitas ocasiões era comum ver pedaços de carne pendurados em talhos com um cartaz que dizia “carne humana”. Os crimes dos alemães nos campos de morte pareciam pequenos em comparação com as atrocidades cometidas pelos católicos. Os Ustachas adoravam jogos de tortura que se convertiam em orgias noturnas, incluindo martelar pregos vermelhos quentes sob as unhas, esfregar sal em feridas abertas, cortar todas as partes humanas concebíveis, e competir pelo título de quem era o melhor a cortar as gargantas das suas vítimas. Queimaram igrejas ortodoxas cheias de pessoas, empalaram crianças em Vlasenika e Kladany, cortaram narizes, orelhas e arrancaram olhos. Os italianos fotografaram um ustacha que tinha duas correntes de línguas e olhos à volta do pescoço [19].

Milícia ustacha tortura um prisioneiro com uma serra no Campo de Jasenovac

Todos os bens e propriedades da Igreja Ortodoxa foram saqueadas e confiscadas. A maior parte deste espólio foi transferido para a Igreja Católica Croata, que continuava encantada com o regime. O Arcebispo de Sarajevo, Saric, chegou ao ponto de publicar um poema elogiando o líder dos ustachas: “Contra os judeus gananciosos com todo o seu dinheiro, que queriam vender as nossas almas, trair os nossos nomes, esses miseráveis. Você é a rocha sobre a qual a pátria e a liberdade são construídas. Proteger as nossas vidas do inferno, marxista e bolchevique”.

Outro espólio, neste caso espiritual e económico ao mesmo tempo, que a Igreja Católica recebeu foi a conversão forçada de milhares de sérvios, que, sob a ameaça de uma faca, foram forçados a renunciar à sua religião. Estas conversões em massa foram descritas como um grande triunfo para o catolicismo pela hierarquia eclesiástica [20]. Porque é que este espólio de almas era também económico? Porque para acrescentar iniquidade à infâmia, estas conversões foram realizadas mediante o pagamento de 180 dinares à Igreja por parte do convertido.

Além disso, aqueles que sabiam escrever tiveram de enviar uma carta de agradecimento ao Arcebispo Stepinac, que informava prontamente o Papa sobre o progresso das conversões. Em qualquer caso, os únicos que tiveram a oportunidade de salvar as suas vidas através da conversão foram os camponeses pobres e sem instrução das zonas rurais. Todos os sérvios instruídos com a capacidade de conversar ou de transmitir algo que se assemelhasse a uma identidade nacional sérvia foram mortos sem a possibilidade de salvação.

 

O visitante apostólico

Em 14 de Maio de 1941, os sérvios da aldeia de Glina foram reunidos num salão de assembleia por uma banda de ustachas comandada pelo abade do mosteiro Gunic. Foi-lhes então ordenado que mostrassem os seus certificados de conversão. Apenas dois deles tinham o documento. Os restantes foram decapitados enquanto o abade rezava pelas suas almas.

Entre a venda de certificados de conversão e o saque dos tesouros guardados nas igrejas ortodoxas, não é exagero dizer que se houve alguém que beneficiou financeiramente do genocídio cometido pelos croatas, foi precisamente a Igreja Católica. Em troca, durante toda a guerra, a Igreja Católica apoiou oficialmente o regime, apesar do facto de os seus excessos e intervenção dos padres serem públicos e notórios.

O Vaticano não podia alegar desconhecimento destes graves acontecimentos. Em 17 de Março de 1942, o Congresso Mundial Judaico enviou uma nota de apoio à Santa Sé, uma cópia da qual ainda se conserva em Jerusalém.

Vários milhares de famílias foram deportadas para ilhas desertas ao largo da costa da Dalmácia ou internadas em campos de concentração […]. Todos os homens judeus foram enviados para campos de trabalho onde foram afectados a trabalhos de drenagem ou saneamento durante os quais pereceram em grande número […]. Ao mesmo tempo, as suas esposas e filhos foram transferidos para outros campos onde também tiveram de enfrentar graves privações.

Monsenhor Giuseppe Ramiro Marcene, beneditino da congregação Monte Vergine e membro da Academia Romana de S. Tomás de Aquino, foi o representante pessoal do Papa no episcopado da Croácia, e mantinha o Santo Padre ao corrente de tudo o que ali se passava. Os defensores do Vaticano alegam que Marcene era apenas um “visitante apostólico”. No entanto, para o Ministério dos Negócios Estrangeiros em Zagreb, o Padre Marcene tinha o estatuto de “delegado da Santa Sé”, e em cerimónias oficiais era colocado à frente até dos representantes do Eixo, sendo considerado o decano do corpo diplomático. Além disso, Marcone, na sua correspondência com o governo ustacha, qualificou-se a si próprio como Sancti seáis legatus ou Elegatus, mas nunca como “visitante apostólico”.

Esta situação também teve eco nos meios de comunicação social. Em 16 de Fevereiro de 1942, a BBC transmitiu a seguinte reportagem sobre a Croácia:

As piores atrocidades estão a ser cometidas em torno do Arcebispo de Zagreb. O sangue dos irmãos está a correr como rios. Os ortodoxos estão a ser forçados a converter-se ao catolicismo e não ouvimos a voz do Arcebispo a pregar a rebelião. Em vez disso, é relatada a sua participação em desfiles nazis e fascistas.

Nem mesmo quando a imprensa internacional começou a noticiar amplamente as barbaridades cometidas pelos clérigos católicos, o Papa fez qualquer coisa para deter os sanguinários franciscanos. A própria imprensa católica croata reflectiu a perseguição nas suas páginas, tratando-a como se fosse a coisa mais normal do mundo. Em 25 de Maio de 1941, no Katolicki List, o padre Franjo Kralik publicou um relatório intitulado “Por que estão os judeus a ser perseguidos?”, no qual o genocídio era justificado da seguinte forma:

Os descendentes daqueles que odiaram jesus, que o condenaram à morte, que o crucificaram e imediatamente perseguiram os seus discípulos, são culpados de excessos maiores do que os dos seus antepassados. A ganância aumenta. Os judeus que conduziram a Europa e o mundo inteiro ao desastre – moral, cultural e económico – desenvolveram um apetite que só o mundo no seu conjunto pode satisfazer. Satanás ajudou-os a inventar o socialismo e o comunismo. O amor tem os seus limites. O movimento para livrar o mundo dos judeus é um movimento para o renascimento da dignidade humana. O Deus todo-poderoso e sábio está por detrás deste movimento.

 

O fim do arcebispo Stepinac

Quando se tornou claro que o curso da guerra ia ser contrária aos países do Eixo, Stepinac realizou alguns actos de “humanitarismo súbito”, actos em que os revisionistas croatas se apoiaram para pedir a inclusão de Stepinac na sua “Lista dos Justos” ao Yad Vashem israelita, a Autoridade Nacional para a Memória dos Mártires e Heróis do Holocausto. O pedido foi negado duas vezes. Um representante da instituição declarou a este respeito que “pessoas que, ocasionalmente, ajudaram um judeu e simultaneamente colaboraram com um regime fascista que fazia parte do plano de extermínio nazi contra os judeus, são desqualificadas para o título de “Justos””.

Os contactos dos Ustachas com o Vaticano não terminaram com o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 25 de Junho de 1945, apenas sete semanas após o fim do conflito, os Ustachas contactaram com uma missão papal em Salzburgo, na área da Áustria que se encontrava sob administração estado-unidense. Pediam ao Papa a sua ajuda para a criação de um Estado croata, ou pelo menos de uma união Danúbio-Adriática em que os croatas pudessem estabelecer-se [21]. A própria Igreja escondeu e ajudou Ante Pavelic a fugir – enganando as autoridades Aliadas – e ele conseguiu fugir para a Argentina [22]. No seu leito de morte, e sob a proteção de Franco, recebeu a bênção pessoal do Papa João XXIII [23]. O papa João Paulo II recusou-se repetidamente a visitar os campos de concentração de Jasenovac nas suas visitas à Croácia, preferindo receber o antigo líder croata e negador do Holocausto Franjo Tudjman.

Finalmente, um dos factores mais marcantes desta história é que, no final da guerra, o Vaticano nada fez para ajudar Stepinac, facto que sabemos por uma carta do Marechal Tito datada de 31 de Outubro de 1946, em Zagreb:

Quando o representante do papa ante o nosso governo, o bispo Hurley, me fez a sua primeira visita, levantei com ele a questão da Stepinac. “Levem-no da Jugoslávia”, disse-lhe eu, “porque senão obrigam-nos a prendê-lo”. Adverti o bispo Hurley sobre as acções que teríamos de tomar. discuti o assunto detalhadamente com ele. Fiz-lhe saber dos muitos actos hostis de Stepinac contra o nosso país. Dei-lhe um ficheiro com todo o tipo de provas documentais dos crimes do arcebispo.

Esperámos quatro meses sem qualquer resposta, até as autoridades prenderam Stepinac e levaram-no a julgamento, tal como qualquer outro indivíduo que actue contra o povo.

O arcebispo saiu-se bastante bem, apesar da sordidez das suas andanças em tempo de guerra. Foi julgado e condenado a dezasseis anos de prisão num julgamento que incluiu o depoimento de dezenas de testemunhas que relataram todo o tipo de ultrajes cometidos por clérigos católicos sob o reinado do terror dos Ustachas. A sua única defesa durante o julgamento foi dizer: “A minha consciência está limpa”. Só então Pio XII agiu, excomungando precipitadamente os participantes no julgamento, e finalmente conseguindo a sua libertação anos mais tarde. Stepinac foi elevado à categoria de Beato por João Paulo II em Outubro de 1998 [24] .

 

Capítulo 6 – O barco afunda-se, as ratas em fuga. O Vaticano no final da Segunda Guerra Mundial

Longe de ser um mistério histórico, a fuga de milhares de proscritos nazis para a América do Sul e outras partes do mundo é um facto sobejamente documentado em que a Santa Sé é conhecida por ter desempenhado um papel activo. Personagens tão sinistros como Pavelic, Klaus Barbie ou Joseph Mengele partiram para o exílio com uma escala no Vaticano. Entretanto, na Croácia, os últimos Ustachas esperavam que uma intervenção oportuna da diplomacia do Vaticano levasse à criação de um Estado croata independente da Jugoslávia.

Quando se tornou claro que Zagreb seria libertada pelas tropas Aliadas, os Ustachas tentaram salvar tudo o que puderam. No final de Abril de 1945, Pavelic, com a permissão total do seu amigo Stepinac, ordenou que trinta e seis arcas contendo o espólio macabro (principalmente jóias e dentes de ouro) apreendidas das vítimas do massacre de sérvios, judeus e ciganos fossem levadas para o Mosteiro Franciscano em Zagreb [1]. No entanto, Pavelic manteve consigo outras treze arcas para garantir a sua fuga e uma confortável reforma [2]. Os monges esconderam o tesouro primeiro numa cripta debaixo do altar-mor e depois num buraco cavado sob os confessionários, onde permaneceu até ser recuperado pelas tropas do Marechal Tito. Depois de enterrar o seu espólio, Pavelic pôs-se à frente de quinze mil lealistas em direção à Áustria [3], esperando a proteção dos britânicos e do Vaticano. Mas ele não esperava ser feito prisioneiro pelos americanos, que lhe seguiam a pista desde a sua chegada à Áustria. Conseguiram prendê-lo perto de Salzburg.

Contudo, quando os preparativos para o julgamento dos crimes de guerra estavam a ser finalizados, Stepinac e o Arcebispo de Salzburg intercederam pela libertação de Pavelic. Finalmente, o criminoso de guerra encontrou abrigo dentro dos próprios muros do Vaticano, embora a sua estadia tenha sido curta. Para evitar escândalo, Pio XII, consciente de que a vitória Aliada tinha virado a política mundial de pernas para o ar, convidou Pavelic a deixar a Santa Sé disfarçado de sacerdote num carro com matrícula diplomática. Pavelic manteve a falsa identidade de sacerdote durante algum tempo sob os pseudónimos de Padre Benares ou de Padre Gomez [4]. Os americanos seguiram o esquivo Pavelic, mas decidiram não agir por deferência para com a Santa Sé. Os agentes militares de contra-informação encarregados do assunto deixaram isto claro num relatório:

Os actuais contactos de Pavelic estão a um nível tão elevado, e a sua situação actual é tão comprometedora para o Vaticano, que a sua extradição poderia constituir um problema para a igreja católica[5].

Por essa altura, o padre Krunoslav Draganovic, secretário da Confraria Croata de S. Girolamo, que fazia parte da Pontifícia Obra de Assistência criada por Pio XII, uma instituição do Vaticano em Roma, recebeu da Croácia mais de quatrocentos quilos de ouro [6] para serem utilizados “no trabalho de assistência e cuidados pastorais aos refugiados da Croácia” (ou seja, para ajudar os antigos Ustachas a escapar às autoridades Aliadas em geral e aos partidários de Tito em particular). Com toda a honestidade, há que reconhecer que este ouro não fazia parte do espólio das vítimas sérvias e judaicas, como salienta Monsenhor Simcic, agora perito permanente da Pontifícia Comissão Ecciesia Dei, e colaborador de Draganovic na altura:

Para esta operação caritativa ele teve à sua disposição duas caixas de lingotes em ouro retiradas pelo Exército em retirada da frente, face ao avanço dos partidários de Tito. Eram caixas do banco nacional croata, enquanto os bens apreendidos aos judeus eram administrados pela Divisão do Ministério da Segurança Pública. Eram duas administrações bastante diferentes. [7]

 

Operação caritativa

Parte da “operação caritativa” de Draganovic – que, a propósito, era subordinado do Subsecretário de Estado Giovanni Battista Montini, que mais se tornaria o papa Paulo VI – consistia em organizar pessoalmente a partida para a Argentina de um bom número de criminosos de guerra alemães e croatas [8]. O croata franciscano Draganovic não tinha um registo muito limpo naqueles dias, já que tinha sido um oficial ustacha e tinha realizado conversões forçadas de sérvios [9]. Em 1943 Draganovic deixou para trás a sua vida problemática como ustacha e incorporou-se ao Vaticano [10]. Por isso, não é de estranhar que tenha mostrado algum interesse em salvar os seus antigos camaradas.

Houve uma época em que não menos de trinta antigos ustachas, incluindo o próprio Draganovic, se reuniam no seminário de São Jerónimo (San Girolamo degli Illirici), cinco dos quais, incluindo um padre, estavam na lista dos criminosos de guerra mais procurados [11]. Outros refugiaram-se em várias instituições católicas, tais como o Instituto Oriental. Existem, de facto, relatórios confidenciais dos serviços secretos americanos da época nos quais o seminário de San Girolamo é inequivocamente descrito como a sede do que restava dos Ustachas [12]. Os serviços secretos aliados não podiam fazer nada, uma vez que San Girolamo, embora fora dos muros do Vaticano, tinha o estatuto de território da Santa Sé.

O hóspede mais ilustre de São Jerónimo foi Klaus Barbie, O Carniceiro de Lião, que foi entregue a Draganovic na estação de comboios de Génova por agentes dos serviços secretos americanos, que esperavam lucrar com Barbie no futuro. Draganovic obteve documentos da Cruz Vermelha sob um apelido falso para ele e para a sua família. Barbie e outros nazis embarcaram em Génova, em Março de 1951, com destino a Buenos Aires, para mais tarde se mudarem para a Bolívia. No início de 1948, à medida que as relações com a União Soviética se foram tornando cada vez mais tensas, os britânicos e os americanos começaram a ver com melhores olhos as operações de encobrimento do Vaticano, uma vez que alguns dos fugitivos possuíam conhecimentos técnicos, científicos, militares e de inteligência que poderiam ser de grande ajuda durante a Guerra Fria.

De facto, os americanos criaram a sua própria operação de contrabando de criminosos de guerra – sob o nome de Operação Paperclip – através da qual asseguraram os serviços de cientistas de topo, tais como Werner von Braun, que deveria ter-se sentado nos bancos do tribunal de Nuremberga devido às suas experiências com seres humanos no centro de investigação aeronáutica Peenemunde na Alemanha, ou o General Reinhard Gehien, que acabou num lugar de topo na CIA antes de assumir os serviços de inteligência da República Federal da Alemanha.

Outros criminosos de guerra que encontraram refúgio atrás das muralhas do Vaticano foram Franz Stangí, comandante do campo de extermínio de Treblinka (Polónia), Eduard Roschmann, O Carniceiro de Riga, o General das SS Walter Rauff, inventor da câmara de gás portátil, Gustav Wagner, comandante do campo de Soribibor, e, sobretudo, o Dr. Joseph Mengele, o Anjo da Morte do campo de Auschwitz.

Draganovic também colaborou com o governo argentino para tornar possível a chegada à Argentina dos técnicos que o desenhador alemão Kurt Tank necessitava para a fábrica de aviões em Córdoba. Também receberam passaportes da Cruz Vermelha e ficaram alojadas no convento de freiras de Centocelle até apanharem um avião da frota aérea mercante argentina com destino a Buenos Aires. (Por curiosidade, diremos que os refugiados que estiveram escondidos nos conventos das freiras o fizeram, na sua maioria, disfarçados de freiras. Tanto que em vários conventos houve um aumento súbito do número de freiras, muitas delas com graves problemas hormonais, a julgar pela dureza da sua voz e maneirismos, bem como dos seus pêlos faciais). Contudo, este grupo trouxe consigo um presente “surpresa”: nada mais nada menos que o criminoso de guerra Gerhard Bohne, responsável pelo programa de eutanásia do Reich.

Assim, toda uma galeria de personagens sinistras, de Pavelic a Adolf Eichmann, obtiveram os seus bilhetes para a Argentina através da Santa Sé. No caso específico de Pavelic, Draganovic abriu uma excepção e, depois de lhe ter fornecido um novo passaporte da Cruz Vermelha, acompanhou-o pessoalmente a Buenos Aires juntamente com um grande grupo de antigos camaradas ustachas.

Entre os fugitivos houve também alguns verdadeiros heróis de guerra que foram perseguidos apenas pelo seu extraordinário zelo no campo de batalha, como o Coronel Hans Rudel, que aos comandos do seu bombardeiro Stuka destruiu mais de quinhentos tanques soviéticos e afundou vários navios. Ele perdeu uma perna em combate, mas isso não o impediu de continuar a lutar até ao fim da guerra. Rudel era procurado pela União Soviética e apareceu em Bariloche, onde rapidamente se tornou conhecido pelas suas grandes qualidades como esquiador.

(…)

 

À espera da cavalaria

Entretanto, na Croácia, Stepinac tinha convocado uma conferência de bispos em Zagreb que resultou na proclamação de uma carta pastoral na qual os bispos incitavam a população a pegar em armas contra o novo governo do país. Os ustachas que não tinham sido executadas ou que não tinham fugido do país fugiram para as montanhas, formando uma organização terrorista com o nome eloquente de Os Cruzados. A bandeira da organização foi consagrada na capela de Stepinac. Muitos padres e monges fizeram parte da organização, quer como militantes armados, quer como espiões e comunicadores. Muita da informação recolhida por estes espiões clericais acabou na posse dos serviços secretos americanos através do Vaticano [13].

A colaboração entre os Americanos e os rebeldes Ustachas não é surpreendente se tivermos em conta que estes últimos esperavam uma intervenção americana na Croácia. O próprio Stepinac estava convencido de que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer [14]. Talvez Stepinac tivesse razões para pensar assim. Afinal, naqueles dias, Pio XII tinha uma relação mais do que fluida com a liderança militar americana. Apenas um exemplo: num único dia, em Junho de 1949, o papa recebeu em sucessivas audiências cinco generais americanos de topo.

 

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NOTAS

Nota do editor

[1] Desde logo, e sem pretender ser exaustivo, a matança de S. Bartolomeu em França em 1572 (estima-se que 10.000 a 20.000 mortos), as guerras na Europa entre protestantes e católicos, perseguição aos cátaros em França nos séculos 12 e 13, a inquisição, com particular incidência nos judeus ou cristãos-novos, a grande fome na Ucrânia em 1932-33 (3 a 7 milhões de mortos), até aos recentes genocídios na Arménia (entre um milhão e um milhão e meio de perseguidos e assassinados pelo governo otomano entre 1915 e 1923), no Camboja (assassinato de pelo menos 2 milhões de pessoas pelo regime khmer entre 1975 e 1979), a revolução cultural na China de 1966 a 1976 (estimativas variam entre 1 milhão e mais de 20 milhões de mortos), o assédio de Israel à Palestina desde 1948 (estima-se em pelo menos várias dezenas de milhar de mortos palestinianos, incluindo massacres a campos de refugiados como Sabra e Shatila).

 

Capítulo 5

[1] Keegan, John, The Second Worid War, Penguin Books, Nueva York, 1990.

[2] Manhattan, Avro, Catholic Imperialism ana Worid Freedom, op. cit.

[3] Bulajic, Milán, The Role of the Vatican in the Break-Up of the Yugoslav State: The Mission of the Vatican in the Independen! State of Croatia: Ustashi Crimes of Genocide (Documents, facts). Ministério da Informação da República Sérvia, Belgrado, 1993.

[4] Bulajic, Milán, Never again: Ustashi Genocide in the independen! State of Croatia (NDH) from 1941-1945, Ministério da Informação da República Sérvia, Belgrado, 1992.

[5] Dedijer, Vladimir, The Yugoslav Auschwitz and the Vatican: The Croatian Massacre ofthe Serbs during World War II, Prometheus Books, Nueva York, 1992. A autenticidade da citação do arcebispo é inquestionável, uma vez que o livro em questão contém o texto manuscrito na sua própria caligrafia.

[6] Manhattan, Avro, The Vatican Holocaust, Ozark Books, Springfield, 1988.

[7] Dedijer, Vladimir, op. Cit.

[8] Alexander, Stella, The Triple Myth. A Ufe of Archbishop Alojzije Stepinac, East European Monographs, Nueva York, 1987.

[9] Crowe, David M., A History of Gypsies of Eastern Europe ana Russia, St. Martin’s Griffín, Nueva York, 1994.

[10] Dedijer, Vladimir, op. cit.

[11] Cornweil, John, op. cit.

[12] Memorando de crimes de genocídio cometidos contra o povo sérvio pelo governo do estado independente da Croácia durante a Segunda Guerra Mundial. Outubro 1950. Enviado ao presidente da quinta assembleia geral das Nações Unidas por Adam Pribicivic, presidente do Partido Democrático Independente da Jugoslávia, por Vladimir Bilayco, antigo juiz do supremo tribunal da Jugoslávia e por Branko Miljus, antigo ministro da Jugoslávia.

[13] Anderson, Scott y Anderson, Jon Lee, The League, Dodd, Mead & Company, Nueva York, 1986.

[14] Black, Edwin, IBM y el Holocausto, Editorial Atlántida, Buenos Aires, 2001.

[15] Dedijer, Vladimir, op. cit.

[16] Falconi, Cario, U silenzio di Pió XII, Sugar, Milán, 1965.

[17] Ibid.

[18] Bulajic, Milán, The Role of the Vanean in the Break-Up of the Yugoslav State: A Missão do Vaticano no Estado Independente da Croácia: Ustashi Crímes do Genocídio (Documentos, factos), op. cit., pp.

[19] Deschner, Kariheinz, Mit Gott una den Faschisten, Günther Verlag, Stuttgart, 1965.

[20] Djilas, Aleksa, The Contested Country: Yugoslav Unity and Communist Revolutíon, 1919-1953, Harvard University Press, Cambridge, 1991.

[21] Aarons, Mark y Loftus, John, Unholy Trinity: The Vatican, the Nazis and the Swiss Banks, St. Martin’s Griffin, Nueva York, 1998.

[22] Ibid.

[23] N.T. Esta informação tem por base o jornal Hrvatska da Argentina, Fevereiro de 1960, citado em nota de rodapé nº 136 do texto “The last bullet for the last serb” de Michele Frucht Levy, inserido na publicação “Crimes of State Past and Present” (ver aqui), editado por David M. Crowe em 2011. Esta referência a esta suposta ação do Papa João XXIII não será estranha ao facto de a Argentina após a 2ª guerra mundial ter recebido numerosos refugiados (35.000 entre 1940 e 1950) – entre os quais Ante Pavelic – o grosso dos quais por motivos políticos e que se identificavam com o nacionalismo croata de extrema direita e ultra católico (Ustacha) (ver Wikipedia aqui), e que muito provavelmente controlariam o citado jornal Hrvatska. Não se dispõe de outra fonte que confirme esta dita bênção de João XXIII, daí que tenhamos as nossas reservas quanto à fidelidade desta informação.

[24] N.T. Em 10 de fevereiro de 1960, aos 61 anos, Stepinac morreu de uma trombose. O Papa João XXIII realizou uma missa de réquiem para ele logo depois na Basílica de são Pedro. O arcebispo Stepinac foi enterrado em Zagreb durante um serviço no qual os protocolos apropriados ao seu status clerical sênior foram, com a permissão de Tito, totalmente observados. O Cardeal Franz König estava entre os que compareceram ao funeral. As relações do governo iugoslavo com o Vaticano melhoraram após a morte de Stepinac e desenvolveram-se ainda mais após o Concílio Vaticano II de 1962-65. As relações diplomáticas foram restauradas em 1966 (ver Wikipedia, aqui). Não será de estranhar que tenha sido um Papa ativamente anti-comunista como era João Paulo II a elevar Stepinac à categoria de beato. Cabe referir que João Paulo II não se coibiu de fazer uma peregrinação ao santuário de Marija Bistrica em 1998 para a beatificação de Stepanic, mas nunca visitou os campos da Croácia de 1941-45, nomeadamente o campo de Jasenovac. É ainda de referir que João Paulo II no âmbito do conflito dos Balcãs que redundou na dissolução da Jugoslávia (1991-2001) nunca criticou ou condenou o líder croata Franjo Tudjman, um negacionista do holocausto e anti-semita, que chamava ao genocídio praticado no campo de Jasenovac o “mito de Jazenovac” (ver Another Side of the Pope: John Paul II’s Balkan Legacy, Abril de 2005, aqui).

 

Capítulo 6

[1] Manhattan, Avro, The Vatican tíolocaust, op. cit.

[2] Goñi, Uki, La auténtica Odessa. La fuga nazi a la Argentina de Perón, Paidós, Barcelona, 2002.

[3] «Supreme Allied HQ to 6th and 12th Army Groups. Apprehension oí Croat Quislings», 5 de junio de 1945. Documento desclassificado do Exército estado-unidense.

[4] Aarons, Mark, op. cit.

[5] U.S. Army Counter Intelligence Corps. Destacamento em Roma. 12 de setembro de 1947. Caso número 5650-A.

[6] Dorril, Stephen, MI6; Inside the Covert Worid of Her Majesty’s Secret Intelligence Service, Touchstone, Nueva York, 2000.

[7] «¿Adonde fue a parar el oro de los croatas? Fontes do Vaticano acusam os Estados Unidos de superficialidade histórica». Agência Zenit, 5 de junho de 1998.

[8] Loftus, John y Aarons, Mark, The Secret War against the Jews: How Western Espionage Betrayed the jewish People, St. Martin’s Griffin, Nueva York, 1997.

[9] Headden, Susan, Hawkins, Daña y Rest, Jason, «A vow oí silence», U. S. News and Worid Report, 30 de março de 1998.

[10] Cockburn, Alexander y St. Clair, Jeffrey, Whiteout: The CÍA, Drugs and the Press, Verso, Londres, 1998.

[11] Phayer, John Michael, The Catholic Church and the Holocaust, 1930-1965, Indiana University Press, Bloomington, 2000.

[12] «Rome Área Allied Command to the CIC», 8 de agosto de 1945. Documento desclassificado do Exército estado-unidense.

[13] Manhattan, Avro, The Vatican Holocaust, op. cit.

[14] New Statesman & Nation. Londres, 26 de octubre de 1946.

 

 

 

 

 

 

 

 

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