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CARTA DE VENEZA “Dalton Trevisan, Prêmio Camões-2012”- por Sílvio Castro

 

  Os contos e novelas de Dalton Trevisan estão irresistivelmente presos a Curitiba, cidade de nascimento do autor brasileiro que acaba de receber o Prêmio Camões-2012.
  

Curitiba foi sempre uma cidade de características muito especiais. Por longo tempo a capital do Paraná ficou como que obscurada na atenção dos brasileiros, em particular daqueles do Rio de Janeiro, quando essa mesma atenção se voltava para os quatro Estados do sul do país. Tal coisa acontecia porque numa natural visão das coisas sulinas, tais atenções se concetravam nas realidade urbanas de São Paulo e Porto Alegre. Como o que acontece com o México por estar muito próximo dos Estados Unidos, Curitiba pagava principalmente pela sua proximidade com São Paulo…
  

Assim foi por longos tempos; até quando muitas das realidades da vida do Brasil começaram a apresentar grandes transformações. No caso, em particular com a continuada tendência de mudar de terras que a cultivação do café oferece às economias nacionais de que faz parte. Depois de ter deixado as terras fluminenses, a preciosa coffea arabica procurou novas terras mais para o sul, indo num primeiro tempo para São Paulo, mas algum outro tempo depois alargou seu território produtivo nos espaços paranaenses. Juntamente com tal fenômeno, o Paraná assistiu a um período de mudanças e crescimento de sua população. Curitiba, por longos anos capital de um Estado quase escondido, agora se fazia uma metrópole de um universo inteiramente modificado. Tudo isso é o mundo dos tantos livros de estórias, mais do que de história, do vencedor do Prêmio Camões-2012.
  

Como que de repente, Curitiba cresce e se faz uma grande e muito viva metrópole moderna: de 140 000 habitantes em 1940, passa aos atuais 1 8000 000. Porém, apesar desses números, a capital paranaense soube manter um sentido de vida correspondente à serenidade de suas serras e colinas. O mesmo acontece  na existência comum da comunidade citadina, a partir da particular urbanidade de seus habitantes. Essa urbanidade soube criar, em geral, uma competente administração municipal. Exemplo disso foi o fenômeno que o inteiro mundo soube reconhecer, através da atenção da UNESCO, quando desde os anos iniciais da década de 1970 a mesma Organização das Nações Unidas proclamou Curitiba modelo mundial para o problema da “recolha diferenciada do lixo”. Na capital paranaense, cada cidadão sabia conscientemente como comportar-se diante do problema da higiene pública e a cidade se transformou mais ainda num grande jardim.

  

Curitiba é o mundo principal dos personagens de Dalton Trevisan. Porém, isso acontece através do muito pessoal estilo de escritura do autor de as Novelas nada Exemplares, mais ligado aos problemas existenciais dos personagens, à quotidianeidade de suas vidas, à multiplicidade dos caracteres individuais, às grandezas e mediocridades dessas mesma individualidades, do que interessado aos problemas políticos igualmente presentes nesta sociedade modelo. 

  

Dalton Trevisan é um ficcionista da família literária de Clarice Lispector, porém com patentes diferenças entre o paranaense e a universal autora que chegada menina do Este europeu soube fazer-se também um ser brasileiro. Dalton Trevisan cria e traduz a sua numerosa humanidade ficcional a partir principalmente da valorização da realidade vivida e de uma intensificação expressiva por vezes  marcada por amarga ironia, por outras decididamente voltada para os valores próprios da mediocridade de tantas vidas. São estórias que não desejam ser exemplares, mas que pela sabedoria realista do estilo do autor se fazem modelos marcantes da história do moderno conto brasileiro. Diversamente de Clarice Lispector, Dalton Trevisan não deseja traduzir o seu mundo a partir necessariamente de um modelo novo de linguagem, mas o quer fazer através de uma direta, a mais possível, tradução desse mesmo mundo. Assim fazendo, ele atinge formas de escritura de presente modernidade, entre as mais salientes da prosa brasileira contemporânea. Por isso, tem merecido a maior atenção da melhor críticana literária do Brasil. Assis Brasil em deteminado momento assim o considera: 

 

   “A obra de Dalton Trevisan cresce em valor literário e pesquisa formal, sendo hoje considerado pela crítica um contista clássico. (…  …) Na sua obra, mais do que nunca convivem sem fronteira ficção e realidade.“

  Para exemplificar o sistema da escritura de Trevisan, o mesmo Assis Brasil toma do autor as considerações feitas sobre um dos seus heróis prediletos, Jesús: “Um grande tipo, contestador irado e brigante, expulso como indesejável de Nazaré, capaz de caminhar sobre as águas, usar o chicote, gostar de brilhantina no cabelo, praguejar figueira, fazer de cada mulher uma bailarina de inferninho e de você um Jô perdido, um Pedro arrependio, um Lázaro revivido.“

 

  Um outro crítico de grande atividade, Fausto Cunha, assim vê o contista de  A Morte de um Gordo:
  “Sendo um escritor visceralmente literário, com a preocupação obsessiva da perfeição, ele se distancia cada vez mais do estilo literário, desfazendo-se de tudo o que lhe parece supérfluo no texto ficcional.“

 

  Advogado de profissão, bem como empresário proprietário de uma fábrica de vidros, Dalton Trevisan vive pessoalmente a vida mais específica de sua cidade. Curitiba, a civil e modelo de urbanidade, esta Curitiba encontra nele um mensageiro particular de suas tantas faces.

 

Ligado à poética da Geração de 45, com todos os paradoxos que essa Geração da modernidade literária brasileira apresenta, Dalton Trevisan tem o seu início literário no livro de contos Sonata ao Luar, de 1945, que um outro grande nome da literatura paranaense, o crítico Wilson Martins, chamou de “estréia obscura” do autor. Em 1946, o jovem Dalton Trevisan lidera um grupo que lança a revista literária Joaquim (em homenagem a todos os Joaquins do Brasil), revista que, depois de 21 números, cessou em dezembro de 1948. Graficamente, Joaquim tinha as mesmas vestes pobres que serão próprias dos livros de Dalton Trevisan na fase inicial, antes que a partir de 1965 – com a 2ª. edição das Novelas nada Exemplares – ele se faz um autor dos melhores editores do Rio de Janeiro e de São Paulo. Desde então e diante da novidade estilistica do contista paranaense, o público brasileiro espera dele igualmente livros de poesia. Mas, a fidelidade direta à narrativa curta se mantém, isso porém sempre confirmando quanto de proximidade existe entre o conto e o poema. Uma das maiores qualidades dos contos de Dalton Trevisan se encontra principalmente na sua sempre presente personalidade capaz de captar o lirismo das coisas, mesmas as mais triviais.
 

 A bibliografia de Dalton Trevisan é vasta nesse seu percurso criativo que cobre toda a segunda parte do movimentado 1900 literário brasileiro, até este 2012 que o vê vencedor do Prêmio Camões. Nesta bibliografia destacamos:

  Sonata ao Luar, 1945; Os dias de Marco, 1953; Os Domingos ou Ao Armazém de Lucas, 1954; A morte de um Gordo, 1954; Novelas nada Exemplares, 1959; A Guerra Conjugal, 1969; A Faca no Coração, 1975; Abismo de Rosas, 1976; Essas Malditas Mulheres, 1982;  Contos Eróticos, 1984; Quem tem medo de vampiro?,1998; O Grande Deflorador,  2002; Pico na veia, 2002; Arara Bêbada, 2004; Macho não ganha flor, 2006.
 

 Depois daquele outorgado a um grande poeta, Ferreira Gullar, agora o Prêmio Camões-2012 vai a um dos nomes mais representativos da prosa de ficção brasileira contemporânea, o paranaense Dalton Trevisan.
 

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