A Europa confrontada com os suicídios « por razões de ordem económica”
(continuação de A Itália tenta reagir face aos suicídios dos pequenos patrões)
Régis Soubrouillard – MARIANNE, L’Europe confrontée aux suicides « par crise économique, 19 de Abril de 2012
De acordo com um estudo da Associação de Investigação Económica e Social, a crise económica daria origem a um suicídio por dia no país. O número de suicídios entre os desempregados teria aumentado mais de 30% em 2010. Mas desde o início do ano, os empresários e os trabalhadores independentes também são muito mais propensos a acabarem com os seus dias.
(Thanassis Stavrakis/AP/SIPA)
Antecipando as depressões e as perturbações mentais a aparecerem desde 2008, a OMS incitava a não “subestimar as turbulências e as eventuais consequências da crise financeira”.
Na altura, era nos Estados Unidos que os centros de chamadas de apoio para a prevenção dos suicídio estavam a ser considerados como importantes e tiveram mesmo um importante aumento de actividade ao ritmo do encerramento de fábrica e ameaças de despejo.
De acordo com um estudo sobre “o suicídio na Itália em tempos de crise” realizado pela associação de investigação económica e social (Eures), o número de suicídios não deixou de estar a aumentar a partir de 2010. Os desempregados são os mais afectados, com 362 suicídios em 2010, representando um forte aumento em relação aos anos anteriores: 270 suicídios por ano em média.
Mas os empresários e os trabalhadores independentes também estão muito mais propensos a acabar com os seus dias. Em geral, os homens entre 45 a 64 anos são particularmente afectadas por este fenómeno.
Alguns casos, no nordeste deram origem a muito barulho, Giovanni Schiavon disparou sobre si-mesmo um tiro na cabeça, a 12 de Dezembro último no seu escritório, com 59 anos. A sua empresa Eurostrade 90 estava, de facto, endividada mas o Estado devia-lhe 250.000 euros.
Suicídios POLITICOS ?
Daniele Marini, director da Fundação Nordeste, que estuda o desenvolvimento económico e social da região, explica que, se é “difícil estabelecer um tipo de retrato destes empresários, pode-se no entanto identificar algumas características comuns”.
“A primeira é a dimensão modesta, senão mesmo mínima, das suas empresas, que na sua maioria exercem a sua actividade nos sectores bem definidos como a construção, o artesanato e outros. Depois, o facto de que, num sistema onde uma PME no nordeste está em média ligada a 274 fornecedores, os quais geralmente realizam cerca de 80% do produto acabado, todas as PME estão estreitamente ligados umas às outras”.
O estudo da Associação de investigação em justiça económica e social considera “muito alto” o risco de suicídio entre os italianos directamente expostos às consequências da crise.
Vinte e três suicídios foram já registados desde o dia 1 de Janeiro de 2012, incluindo nove em Veneto, a rica região do nordeste da Itália onde se encontra a sede de CGIA, um sindicato de artesãos e de pequenos empresários. “Esses suicídios são um verdadeiro grito de alarme lançado por quem já não pode mais.” “As taxas, os impostos, a burocracia, a dificuldade em ter acesso ao crédito, os atrasos nos pagamentos têm criado um clima hostil que penaliza os empresários “, disse Giuseppe Bortolussi, Secretário de CGIA , citado pela imprensa italiana. Uma rede de ajuda psicológica foi agora posta a funcionar por acção de uma empresário de Veneza, a região que concentra mais pequenas empresas.
O suicídio em público de um farmacêutico reformado em Atenas no início de Abril suscitou uma emoção muito forte em todo o país, um suicídio chamado “político” pelos semanário Ethnos (o povo): “Política, primeiro pela escolha do lugar onde a tragédia aconteceu.” A Praça Syntagma, um local altamente simbólico, em frente ao Parlamento, onde os representantes do povo determinam o destino do país, votando as leis de austeridade que estão a destruir as vidas dos milhões de gregos. Em seguida, pela decisão de fazer deste gesto, que normalmente se realiza na solidão de um local privado, um acto público – quase um sacrifício diante da multidão, para que esse seu desespero possa atingir toda a sociedade.” Na Grécia, a taxa de suicídio aumentou de 40%.
Suicídios individuais, a assinatura colectiva de «um mal-estar social
Desde 1897, em O suicídio, o sociólogo Emile Durkheim descrevia como “um facto conhecido que as crises económicas influenciam e agravam a tendência para o suicídio” tomando por exemplo a crise financeira que atingiu Viena em 1873. Imediatamente a seguir o número de suicídios aumentou. “Não nos devemos também esquecer do famoso krach que ocorreu na bolsa de valores de Paris no inverno de 1882.”. “as consequências fizeram-se sentir não só em Paris, mas por toda a França“.
Se o suicídio mantém naturalmente a sua parte de sombra enquanto que morte de um ser humano, de uma identidade individual, o argumento de Durkheim é ainda actual na crise financeira por todo o mundo, e em especial na Europa: “o número de falências é um barómetro que reflecte com uma suficiente sensibilidade as variações pelas quais passa a vida económica.” “quando, de um ano para o outro, estas repentinamente se tornam muito mais, pode-se ter certeza que houve uma perturbação grave“.
É o lado autodestrutivo das sociedades modernas, incapazes de responder ao desespero social que elas produzem, uma onda de suicídios entre os desempregados reenvia “a uma aparente determinação dos dirigentes europeus a cometerem um suicídio económico por todo o continente” diz-nos Paul Krugman, no New York Times.
Um sintoma social ou como a arma simbólica, as centenas de suicídios feitos separadamente por pessoas que não se conhecem acabam por se assemelhar a uma assinatura colectiva.
