16/6/2012 18:08, Por Redação, com Esquerda.net – de Lisboa
Discussão sobre a Grécia mobiliza a esquerda europeia
Às vésperas das eleições na Grécia, que acontecem neste domingo, a esquerda europeia também debateu a situação daquele país no encontro “Com o povo grego, contra a troika”, realizado nesta capital, na noite passada. Loudovikos Kotsonopoulos da coligação Syriza alertou que o povo grego vai enfrentar “uma batalha brutal e feroz” numa “luta em defesa dos valores da justiça, da liberdade, da igualdade e da dignidade humana”. A reunião foi dirigida pela eurodeputada Marisa Matias e lotou o salão da Casa do Alentejo até as primeiras horas da madrugada deste sábado, com a participação de Younos Omarjee da Front de Gauche de França, Jürgen Klute do Die Linke da Alemanha, Trevor Ó Clochartaigh do Sinn Féin da Irlanda, além de Loudovikos Kotsonopoulos da Syriza, de Manuel Carvalho da Silva e de Luís Fazenda.
Younos Omarjee da Front de Gauche falou do balanço “catastrófico” das intervenções das políticas da União Europeia (UE) e do FMI, elogiou a luta do povo grego e a sua “resistência sem igual” e condenou as intervenções dos governantes europeus, destacando que o novo presidente francês, François Hollande, “teve ontem um discurso (sobre a Grécia) firmado na chantagem”.
Jürgen Klute denunciou os discursos dos governantes do norte da Europa e da Alemanha, afirmando que “não há transferência nenhuma (de riqueza) do Norte para o Sul da Europa, mas sim em sentido contrário”. Recordou que as crises não começaram nos Estados soberanos, mas foram em primeiro lugar dos bancos, que “a dívida começou por ser do setor privado” e que é necessário “exigir à banca que contribua para resolvê-la”. O representante do Die Linke denunciou também que a Grécia é o maior consumidor da indústria militar alemã e o segundo da indústria francesa do armamento e que “Merkel e Sarkozy exigiram que Papandreou cumprisse os contratos (de armamento) com a Alemanha e a França”.
Trevor Ó Clochartaigh relatou as difíceis condições que vive o povo irlandês e lembrou que os resultados do referendo ao pacto orçamentário na Irlanda, em que o “sim” ganhou com 60% contra 40% do “não”, foi uma vitória do medo, perante a chantagem de que “deixará de haver dinheiro nos bancos”, “deixarão de haver postos de trabalho”. O representante do Sinn Féin frisou que, no entanto, as forças que apoiavam o “não” tiveram no máximo 20% nas últimas eleições e o “não obteve 40%, considerando que “quem não votou é quem mais sofre” e formulou o desejo que os “cidadãos gregos não sejam atingidos pelo mesmo problema do medo” neste domingo.
Loudovikos Kotsonopoulos da Syriza afirmou ser “muito confortável saber que não estamos sós”, pois a “crise económica se transformou numa crise política”. Sobre esta evolução apontou cinco fases:
1 – eclosão da crise econômica,
2 – “crise da gestão pela troika”,
3 – “o processo de gestão que se traduziu num fracasso”,
4 – o fracasso da “coligação técnica” como “escudo político” dos dois partidos dominantes,
5 – “as pessoas tentaram uma representação política alternativa”.
Ciente de que todas as forças dominantes, externas e internas, estão focalizadas na Syriza, considerou que “estamos perante uma grande batalha”, uma “luta em defesa dos valores da justiça, da liberdade, da igualdade e da dignidade humana” e que espera que “a estrela vermelha do socialismo democrático possa iluminar o nosso continente mais uma vez”.
Carvalho da Silva. de Portugal, denunciou que “mais uma vez de forma ignóbil o direito do trabalho é posto no banco dos réus”, que a “revisão da legislação de trabalho que está em curso visa também matar a esperança de salários dignos e de estabilidade laboral para os mais jovens”, destacando que o “direito do trabalho sustentado em regras de mercado e em relações de trabalho individualizadas é uma fraude”.
O ex-secretário geral da CGTP considerou que “os resgates das periferias são nada além do que um saque organizado dos acionistas dos bancos alemães e outros, isto é, dos verdadeiros irresponsáveis que não se cansam de apontar o dedo para a irresponsabilidade alheia”. Sublinhando que “o roubo organizado e o caminho para o abismo prosseguem e que é preciso agirmos”, frisou que “o projeto para que os trabalhadores e os povos foram mobilizados está definitivamente posto em causa”. “A coesão econômica e social, a evolução social no progresso, o respeito pela soberania e a cultura dos povos, a dimensão social do mercado interno tornaram-se expressões carentes de sentido”, disse.
Da Silva afirmou ainda que “seguramente não teremos saídas dos atuais bloqueios com caminhos traçados por aqueles que nos conduziram e nos conduzem para o desastre quer na União Europeia quer nos diversos países e em concreto, em Portugal”.
– Estamos todos conscientes que, no plano nacional, não serão Passos Coelho, Relvas e Gaspar com os orientadores Borges e companhia que apontarão soluções para os problemas com os quais nos deparamos – disse. Ele acrescentou, ainda, que “também não haverá saídas pelas mãos daqueles membros do Partido Socialista que já pensam apenas na alternância que o desgaste inexorável do Governo lhes irá propiciar”.
Em sua fala, no encerramento, Luís Fazenda afirmou que “somos todos gregos” e salientou:
– Há um fantasma que percorre toda a Europa é o de uma alternativa de esquerda, que não quer abandonar o euro mas que quer o predomínio de uma política progressiva sem austeridade, quer rejeitar os memorandos, as troikas, as imposições, as amputações da democracia.
Luís Fazenda lembrou que “há um ano havia um país resgatado e outro a ser resgatado, agora há cinco”, que antes “era a crise dos PIGS, agora é a crise do euro”, considerou que “é necessária uma resposta fiscal, mas não chega devido aos off-shores”, que “não basta tentarmos encontrar medidas de mera regulação do capitalismo financeiro”, mas que é preciso “um polo público financeiro, a nacionalização do essencial da banca privada”.
– Se não houver essa nacionalização haverá jogo do gato e do rato, meter o leão na jaula é a nacionalização do essencial da banca privada – disse. E acrescenta que “a direita quer liquidar o Estado Social, a nossa perspetiva é a inversa, o que exige controlar o poder econômico e meios para o Estado Social”.
O líder parlamentar do Bloco de Esquerda também considerou ser “necessário não ter posições sectárias” e que “é necessário encontrar as mais vastas alianças para derrotar um inimigo poderoso”. Ele declarou que “é preciso também neste momento que os vários setores à esquerda discutam os programas e as alternativas políticas”, frisando que “não nos podemos iludir novamente com terceiras vias que não resolvem coisa alguma e apenas mantêm o status quo cada vez mais degradado, mais deteriorado”.
Luís Fazenda sublinhou, ainda, que “uma esquerda europeia, pese ainda as suas insuficiências e dificuldades, é hoje uma realidade” e que “este é um ponto a favor da alternativa, que não é do isolamento nacional, mas uma alternativa de enfrentamento na Europa”.
