Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Onde a Suiça lava mais branco e os europeus ricos querem estar mais limpos – V
- Inquérito UBS –Série Negra
(continuação)
Cortina de fumo
No departamento II do BNS onde um pequeno grupo de economistas trabalha sobre um plano de apoio ao banco UBS estas palavras outonais suscitam “sorrisos na pausa da manhã”, conforme o relata um homem do meio financeiro. Dentro do Banco Central onde desde 2005 são publicados os primeiros artigos sobre a estabilidade do sistema financeiro suíço, ganhou-se rapidamente consciência da dimensão da catástrofe que se anuncia. Mas, para esses mesmos economistas, também foi “reconfortante” ver que o secretismo que cercavam o trabalho do BNS, da Comissão Federal de bancos (CFB, da Administração Federal de Finanças (AFF) para garantir a solidez dos grandes bancos tinha sido preservado. Tanto mais que em 15 de Setembro de 2008, a crise assumiu uma viragem dramática. Em Wall Street o Bank of America absorve o Merrill Lynch e as suas perdas enormes. Pior ainda, o banco de investimento Lehman Brothers implode devido à sua exposição aos créditos subprime. O UBS tem uma exposição ao risco de aproximadamente 300 milhões de dólares neste banco e sobretudo continua activo, apesar de uma posição, à semelhança de Lehmon Brothers, sobre o segmento dos derivados de crédito que pesa milhares de milhões.
Com a queda dos mercados, com a desconfiança em torno da UBS e da sua exposição aos créditos subprime, tudo o que o mundo financeiro e tal como os analistas fazem é especular sobre as perdas adicionais e sobre uma terceira recapitalização do banco. Fazem-no tanto mais quanto a primeira destas recapitalizações que foi marcada pela chegada de um fundo público de Singapura tinha alimentado o debate político durante várias semanas. Ness altura, porém, foi principalmente a compra de um banco que não vale mais de 50 mil milhões de francos na Bolsa que encheu os jornais. Ou até mesmo uma fusão com o rival histórico, Crédit Suisse. No seio da Troika BNS-CFB-AFF também se começa a ter sérias dúvidas sobre a capacidade da UBS para convencer os novos investidores a reforçarem o seu capital.
Estas dúvidas, os dirigentes do banco – Peter Kurer e Marcel Rohner – confirmá-las-ão aos supervisores e às autoridades monetárias. Seis dias após a falência do Lehman Brothers, na manhã de 21 de Setembro de 2008, deu-se na verdade uma reunião secreta numa sucursal de UBS em Zurique, no número 22 de Nüschelerstrasse. “Não se queria que as pessoas vissem os banqueiros a um domingo num grande edifício do BNS. Essa reunião foi bem gerida, foi-o com toda a discrição” disse um dos participantes na reunião.
Diante dos homens do BNS, da CFB e da AFF, os dirigentes do banco confessam que podem precisar de assistência do Estado para cumprir com os requisitos de capital exigidos. Jean-Pierre Roth e Philipp Hildebrand, Presidente e vice-presidente do BNS, Eugen Haltiner, Presidente do CFB e Peter Siegenthaler, diretor da AFF, ouvem Peter Kurer e Marcel Rohner. Mas eles também falam. O BNS, sugere então um remédio muito em voga entre os bancos centrais do mundo: um “estrutura de acantonamento, um banco mau, a bad bank”. Seja pois feita uma transferência de activos ilíquidos que sobrecarregam as contas de UBS para uma sociedade de acantonamento dos títulos controlada pelo BNS.
A direcção de UBS tem 21 dias para encontrar o dinheiro para o capital desse caixote do lixo, 6 mil milhões. O BNS, é responsável pela abertura de uma linha de crédito para 68 mil milhões de francos para absorver os activos. Sabe-se, o UBS não vai encontrar o dinheiro. Pior, no final do terceiro trimestre, o levantamentos de grandes montantes de fundos é calculado em cerca de 84 mil milhões de francos. E em 12 de Outubro, Peter Kurer solicitará a assistência federal.
Mas neste 21 de Setembro, há uma formalidade: validar a política do plano. E Peter Siegenthaler começa em Berna para informar o seu chefe interino. Para adicionar a infelicidade á infelicidade, Hans-Rudolf Merz sofreu um ataque cardíaco e está prestes a passar por uma quinta cirurgia de by-pass nas coronárias no Hospital da ilha, em Berna. Eveline Widmer-Schlumpf irá substitui-lo. O grande financeiro e UBS estão nos cuidados intensivos, o Conselho Federal vira-se para o BNS para a CFB e para Peter Siegenthaler, o homem que tinha gerido o processo Swissair.
Em Genebra, em Novembro de 2009, um mês antes da sua aposentação da presidência do BNS, Jean-Pierre Roth descreveu por estas palavras a atitude dos políticos durante a crise. O seu testemunho vale ouro: “os bancos centrais estrangeiros dispunham na verdade de uma independência de decisão, mas deveriam procurar obter o apoio prévio do seu governo ou do seu Parlamento para implementarem a sua política”. Isso felizmente não foi o caso na Suiça.» Não havia outra coisa a fazer, disse hoje um membro muito próximo do Conselho Federal. Na melhor das hipóteses, quando este último decidiu apoiar o UBS em termos de custe o que custar, na sua reunião de 24 de Setembro, ele apenas pode “lançar granadas de nevoeiro, sugerindo que não decidiu nada”. E o nevoeiro estava mesmo muito carregado nesse Outuno.
A batalha do capital
Em forma de pano de fundo do resgate de UBS, desenrolava-se simultaneamente um combate ainda mais subterrâneo. É certo, a crise financeira ameaça o maior banco do país, as relações de 128 000 com as PME e quase três milhões de contas. Mas as autoridades de supervisão bancária e as autoridades monetárias também têm outro objectivo: proteger o UBS e o Crédit Suísse contra eles mesmos e assegurar a sustentabilidade de todo o sistema financeiro. O remédio? Um aumento de capital, ou seja, uma rude machadada na sua rentabilidade. Como se sabe, o dinheiro que estará parado, esse rende muito pouco.
Voltemos a Janeiro de 2007. Peter Siegenthaler, Philipp Hildebrand, Eugen Haltiner e o director da CFB, Daniel Zuberbühler, discutem numa pequena Comissão sobre a estabilidade do sistema financeiro e sobre os riscos que lhes fazem correr os grandes bancos. De memória, este sector pesa então tanto quanto a riqueza produzida em um ano nos Estados Unidos e só o balanço da UBS equivale a cerca de 430% do produto interno bruto da Suíça.
Nesta altura, o BNS e a CFB intensificarem as suas trocas de informações sobre os grandes bancos, o que leva a concluir em 23 de Maio de 2007, um acordo ligeiro entre eles (Memorando de entendimento). Um texto sobre o qual nem o Conselho Federal, ou o Parlamento se pronunciaram. O que evita, por exemplo, aos emissários dos bancos no Parlamento de influenciarem um acordo cujo conteúdo incomoda UBS e Crédit Suisse. Um tratado que permite também estar a colocar o segredo numa das suas partes, tal como sobre a gestão das crises bancárias.
Particularidade Suíça, uma parte do controlo da terceira praça financeira mundial estabelece-se entre duas instâncias cujas relações se regulam por um texto que tem uma força legal relativa e sobre o qual a política não tem o direito de olhar. Enquanto que o BNS olha sobre todo o sistema como um todo, a CFB analisa examina as instituições individuais. Não é pois de surpreender que as opiniões divirjam, como no Verão de 2007, sobre a crise dita de subprime e sobre o seu impacto na Suíça.
Que pensar da gestão de riscos na UBS ou no Crédit Suisse? Difícil de avaliar tanto tudo é impreciso, admite Philipp Hildebrand à imprensa em 14 de Junho de 2007. No entanto, continuou o homem do BNS, ” o portfólio destinado aos negócios destes bancos quase que duplicou desde 2003, para atingir um valor significativamente maior que 1 milhão de milhões de francos. Esse montante representa dois terços dos activos geridos pelo sector dos Hedge funds “. Um parecer sobre o perigo do sistema, ideia que não compartilha Daniel Zuberbühler. Em 16 de Junho, este disse ao Temps que a crise do mercado subprime era “demasiado limitada e muito afastada do sector bancário. Ela é demasiado gentil.» Em suma, uma insignificância. Três meses mais tarde, o UBS anuncia 4.3 mil milhões de francos em prejuízos. A 10 de Dezembro, o fundo público de Singapura (GIC) – cujo director, Tony Tan, é um velho conhecido de Philipp Hildebrand – injectou 11 mil milhões em capital em UBS.
No Outono de 2008, quando o trio BNS-CFB-AFF passa em revista os acontecimentos da crise, estes deram razão ao Banco Central. Para além da ideia de um “banco de acantonamento”, ouve-se falar de uma medida contra a qual bem se grita nos meios financeiros: reforçar a base dos bancos, elevando os seus fundos próprios para 5% do balanço (rácio de alavancagem). Ou seja dezenas de milhares de milhões.
A reacção é violenta. O presidente do Crédit Suisse, Walter Kielholz, vocifera ad hominem contra Philipp Hildebrand. Em comissão parlamentar, os eleitos burgueses vituperam a o BNS, suspeito de querer prejudicar a competitividade da praça financeira. Pior, a CFB temia uma posição discordante ao mais alto nível, quando um porta-voz de Hans-Rudolf Merz diz à NZZ am Sonntag que “ os fundos próprios não podem ser colocados a nível muito alto, caso contrário os bancos sofrerão de desvantagens concorrenciais. O refrão é conhecido e no BNS recordam-se que “o sistema político é activado contra nós”. Mas não por muito tempo.
Com o colapso do Lehman Brothers, em 15 de Setembro de 2008, a resistência a um aumento dos fundos próprios caiu. Certamente, o Crédit Suisse tenta um último acordo final com a CFB. Sem sucesso. Para a UBS, incapaz de cumprir os milhares de milhões exigidos pelo BNS a sociedade de portagem, difícil de contestar este novo regime. A 12 de Outubro em Zurique, quando Peter Siegenthaler e Eugen Haltiner estabelecem a transacção a partir da qual se entregam 6 mil milhões em fundos para os cofres de UBS – sem fazer do Estado um accionista do banco – o segundo que preside a CFB sabe que um aumento dos fundos próprios se desenha para muito breve.
Eugen Haltiner não irá esperar muito pouco tempo. A 16 de Outubro, a Suíça acordou com dois suiços, Jean-Pierre Roth e Pascal Couchepin, a explicarem nos meios de comunicação social que o Conselho Federal e o BNS “reforçam o sistema financeiro”. Sob a forma de um empréstimo, o tesouro federal concede 6 mil milhões ao UBS para que este possa criar uma estrutura de acantonamento cujos activos serão retomados pelo BNS no valor de 60 mil milhões de euros.
No palco, junto a Peter Siegenthaler, Eugen Haltiner gagueja sobre os ajustamentos em matéria de capital próprio numa indiferença geral. No entanto, a 20 de Novembro, em conjunto com a UBS e com o Crédit Suisse, a CFB anuncia os novos requisitos sobre os fundos próprios. A única concessão feita aos bancos para não dramatizarem os mercados, os supervisores mantêm em silêncio o objectivo até 2013 de um rácio de alavancagem de 5% em período de bom tempo. Desde a sua criação em 1934, esta é uma das raras vitórias dos CFB face aos grandes bancos. E para isso, foi necessário que o principal banco suíço tenha chegado a uma situação de catástrofe.
(continua)
