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CARUNCHO, por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

 

 

 


 

 

 Perguntei à Fátima, gostava muito dela:

       

– Então menina? Quando é que nós casamos?

   

Mandou que eu arranjasse casa para depois marcarmos a data do casório. Frente ao mar quero morar, disse-lhe eu.

 

Riu-se porque dinheiro eu não tinha para alugar casa na praia. Dei-lhe um beijo, tu vais ver, tu vais ver.

   

Corri todo o litoral, era só mansões e apartamentos de luxo. Mas não desisti. Por fim encontrei, entalado entre casebres de pescadores, um terreno de uns 10 por 30 metros. No meio uma casa térrea, embora arruinada.

 

Decidi: é esta, tem que ser esta! Localizei o senhorio, que morava na outra ponta da cidade. Ficou espantado, alugar aquilo, para morar com a família? Ó homem, veja lá no que se mete… Dei-lhe a volta, renda jeitosa porque as obras corriam por minha conta.

 

Antes do restauro mostrei a casa à Fátima. E ela disse-me:

 

– Uma casa carunchosa? E já viste a vizinhança? È só pé descalço… Morar aqui? Nem penses nisso.

 

Com tijolos, telhas, azulejos, ladrilhos, cimento, cal e tinta, amigos meus ajudaram-me a reparar a casa. Sábados e domingos durante quatro meses, do couro nos saiu. Para a inauguração convidei não só os meus colegas e amigos mas também os pescadores, meus vizinhos. Olhando o mar, rimos, contámos histórias, piadas e anedotas, cantámos, a solo e em coro, guitarradas, camaradagem. Gostámos tanto que, no último domingo de cada mês, reiniciávamos a festa: caldeiradas, peixe grelhado no braseiro armado no quintal, arroz e açorda de marisco, amêijoas, chouriço, lombo e pernil, vinho branco e tinto, patuscadas no alpendre. O vinho, a bagaceira e as carnes, os meus colegas é que traziam. O peixe e o marisco, os pescadores é que davam. O resto dava eu, o pão, o arroz, as batatas, as verduras, o azeite, a pimenta e as malaguetas e ainda o trabalhinho para tudo organizar.

 

O convívio frente ao mar ganhou fama e a Fátima soube dele. Bateu-me à porta. Ela a contemplar ora as ondas, ora o interior da casa, deslumbramento. Perguntou:

 

– Então menino? Quando é que nós casamos?

 

Encolhi os ombros. 

 

– Uma noiva carunchosa? Nem penses nisso…      

 

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