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A CANETA MÁGICA – Tourada – uma falsa tradição – por Carlos Loures

 

 

(adaptação de texto publicado no Estrolabio)

 

 

 

 

 

No 2º volume dos « Cadernos de Lanzarote», José Saramago transcreve um artigo que publicou na revista Cambio 16. Transcrevo dois trechos:

 

«O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso. O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua força, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro?» (…)«O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem ire morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um cero momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte».

 

Quando José Saramago leu o texto a  sua mulher, Pilar, disse – «Não podes compreender…” Tinha razão» diz o escritor»Não compreendo, não posso». É sempre o que os defensores das touradas, quando vêem que os seus «argumentos» não são aceites, dizem. Quem  acha que as touradas são um espectáculo degradante e advoga a sua proibição imediata «não compreende». Porque, dão a entender, para compreender uma coisa tão poética, tão tradicional, é preciso ter uma sensibilidade especial.

 

Pergunto – o que há para compreender? Uma negócio onde se cruzam ganadeiros, apoderados, toureiros, empresários… pega num animal, confina-o num «anel infernal», e tortura-o até à morte. O que há para perceber neste fenómeno que nada tem a ver com património cultural, nem com tradição e muito menos com poesia – que tem a ver, sim, com os obscuros corredores da mente humana onde se oculta um atávico prazer em fazer sofrer outros seres como catarse para os sofrimentos pessoais.

 

Os aficionados desenvolvem uma teoria de contornos  iniciáticos: quem não entende a magia da corrida não tem o direito de a criticar. Ou seja, para poder contestar as touradas é preciso gostar delas, estar por dentro do mistério da corrida, sentir a poesia de uma tarde de touros… Obscuras banalidades deste tipo, mas nem só um argumento sólido e aceitável.   Nos tempos de Roma usavam-se pessoas, embora já houvesse quem protestasse.

 

O que responderiam os defensores do espectáculo – que era uma tradição e que os escravos nasceram para morrer. E haveria também apreciações sobre a beleza poética de ver animais selvagens e famintos despedaçar seres humanos, sobre a «nobreza» com que uns morriam sem se defender e a falta de aprumo com que outros tentavam vender cara a vida. Nem sei porque é que os defensores das touradas não incorporam o circo de Roma na sua tradição. A Antiguidade Clássica daria um toque de erudição à «Fiesta». Assim só têm o Hemingway para dourar o seu historial.

 

Falando da tradição taurina em Portugal, ela é tão forte e tão antiga que a própria tourada á portuguesa é acompanhada por pasodobles. Os aplausos do público exprimem-se em «olés» e a terminologia taurina é toda em castelhano. Tradição portuguesa? Sempre que se fala na história das touradas, lá vem o conto de Rebelo da Silva, «A última corrida de touros em Salvaterra». Só este conto é metade da tradição, a outra metade é espanholice pura.

 

Em 1836, o ministro do Reino Passos Manuel promulgou um decreto proibindo as touradas (coisa que o marquês de Pombal já tinha feito no século anterior): “Considerando que as corridas de touros são um divertimento bárbaro e impróprio de Nações civilizadas, bem assim que semelhantes espectáculos servem unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade, e desejando eu remover todas as causas que possam impedir ou retardar o aperfeiçoamento moral da Nação Portuguesa, hei por bem decretar que de hora em diante fiquem proibidas em todo o Reino as corridas de touros.” Porém as «razões» do costume prevaleceram e nove meses depois as corridas regressaram.

 

 

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