Por Júlio Marques Mota
(continuação)
3. Olhares sobre a União Europeia, olhares sobre a Letónia, sobre Chipre – IV
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B) Olhares sobre A União Europeia, sobre Chipre
3. Chipre assume a Presidência Europeia
Chipre debate-se com muitos problemas internos, incluindo o ocupação da parte norte da ilha pela Turquia e um resgate financeiro que poderá atingir os 12,5 milhares de milhões de euros.
DAN BILEFSKY, New York Times
Nicósia, Chipre – Quando A República de Chipre assume a presidência rotativa da União Europeia, no domingo, haverá aqui uma qualificação que poderia ajudar a ganhar a simpatia de todo um bloco cansado da crise com os seus 495 milhões de cidadãos: esta, também ela, está quase falida.
O que era suposto ser um momento de orgulho para esta pequena nação-ilha de cerca de 800.000 pessoas está a transformar-se uma embaraçosa e complicada situação. O país, cujos bancos estão muito expostos aos problemas da Grécia, foi forçado na segunda-feira a pedir um resgate para o seu sector bancário em situação muito difícil ao próprio grupo de nações de que é suposto estar a presidir. Os economistas estimam que Chipre poderá precisa de ajuda até um montante de 12,5 mil milhões de euros apoiar os bancos e para apoiar o seu sector público em enormes dificuldades também.
Apenas algumas horas antes, o seu Presidente de ideologia comunista, Demetris Christofias – que se autoproclama “a ovelha vermelha da Europa” – atacou a União Europeia, dizendo que a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional operavam como uma potência “colonial “exigindo fortes medidas de austeridade a países em grandes dificuldades, uma clara referência ao seu grande irmão, a Grécia.
O Presidente Christofias, cujo partido enfrenta eleições gerais no próximo ano, está tão determinado a evitar as duras medidas de austeridade que os assessores dizem que ele também está agressivamente empenhado na procura de um empréstimo a ser concedido pela China e ou pela Rússia, mas até agora sem sucesso notável.
Enquanto a sua forte oposição às políticas de austeridade aparecem em consonância com muitos europeus, outros queixam-se de que sendo o actual Presidente, um ardente defensor do presidente Vladimir V. Putin da Rússia e o único líder comunista no bloco de 27 membros, poderia usar a sua posição como um muito bom palco para procurar enfraquecer, abalar, dividir ainda mais uma Europa já enfraquecida. O Presidente sempre teve uma atitude ambivalente em relação à UE”, disse Fiona Mullen, um dos principais analistas de Chipre… “Ele vem de um partido que muitas vezes mais parecia olhar para Leste em vez de olhar para Oeste.”
Não é apenas a sua postura contra a austeridade que preocupa os dirigentes europeus. Um telex confidencial de 2009 enviado da embaixada dos Estados Unidos em Chipre para Washington, publicado por WikiLeaks dava conta de que o Presidente Christofias tinha elogiado Fidel Castro, recebera uma nova embaixada venezuelana em Nicósia, elogiou o Irã e terá insultado a NATO. Tais ideias poderiam complicar as negociações delicadas da política externa, embora altos diplomatas de Chipre insistam que o país está determinado a ser um mediador honesto.
Acima de tudo, a presidência pode ser ofuscada pela disputa de Chipre a fermentar desde há tempos com a Turquia, minando ainda mais as relações já desgastadas entre a Europa e a Turquia, cujas negociações sobre a adesão à União estão em perpétuo estado de ruína. A Turquia já disse que vai boicotar a presidência.
Chipre é uma anomalia na União Europeia, na medida em que está dividida entre uma parte grega e uma outra parte menor, de domínio turco, desde 1974, quando a Turquia invadiu o país em resposta a um golpe de inspiração grega. A Turquia, que mantém cerca de 30.000 soldados no norte, é o único país que reconhece a parte norte como país, como um Estado, Chipre do Norte. Esta divisão continua a ser uma preocupação para os cipriotas gregos e turcos tanto, milhares dos quais foram obrigados a fugir das suas casas como resultado da invasão.
Bem alta, acima desta cidade dividida, pintada sobre uma montanha no lado virado para a parte grega de Chipre está uma bandeira gigante da República Turca de Chipre do Norte, a sua estrela e o crescente como um constante lembrete de um dos mais duradouros conflitos da Europa em situação não resolvida.
“Feliz é o homem que pode dizer que é um turco”, diz um slogan ao lado da bandeira, que é iluminado provocadoramente durante a noite. Enquanto a maioria das pessoas evita a zona de Chipre do Norte, o norte assegura o que o sul não pode esquecer.
As negociações de adesão da Turquia à União Europeia estão paralisadas como resultado da disputa aparentemente intratável; uma resolução é vista como um pré-requisito para a Turquia antes desta se poder juntar à união. Os sinais não são encorajadores. A Europa quer que a Turquia abra os seus portos e os seus aeroportos a Chipre, em troca de um descongelamento parcial das bloqueadas negociações para a entrada da Turquia na União Europeia. Mas a Turquia insiste que a União Europeia deve primeiro terminar o embargo ao norte.
Em uma entrevista dada em Março, ao jornal turco de Chipre, Kibris, o ministro da Turquia para os assuntos da União Europeia, Egemen Bagis, disse que uma opção era a Turquia anexar o Chipre do Norte, se a actual ronda de negociações de paz fracassassem. “Estamos num estado de impasse, em que nenhum dos lados tem interesse em mudar o status quo”, disse Erol Kaymak, professor de relações internacionais na Universidade do Mediterrâneo Oriental, no norte de Chipre.
As conversações de paz patrocinadas pelas Nações Unidas falharam, uma vez que foram reiniciados em 2008, quatro anos depois dos cipriotas gregos votaram não no referendo sobre a reunificação da ilha. (A menor população de Chipre que é turca votou sim, o que a Turquia cita sempre como prova de que os cipriotas gregos não querem a paz.)
Andreas D. MAVROYIANNIS, vice-ministro de Chipre para os assuntos europeus, disse numa entrevista que a intransigência da Turquia estava a impedir o progresso. “Se eles pudessem afundar-nos e fazer-nos desaparecer do mapa, eles tê-lo-iam feito “, disse ele.
Com o crescendo de tensões Chipre está ao alcance de Israel, cujas relações com a Turquia teriam sido desgastadas desde o ataque mortífero de Israel sobre uma flotilha turca em Gaza em 2010. Israel, visto pelos cipriotas como um baluarte potencial contra a Turquia, negou os relatos de que está a considerar colocar aviões de guerra em Chipre. Mas o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de Israel recentemente visitou Nicósia, e os países têm estado em conversações sobre o desenvolvimento da exploração de campos de gás natural no Mediterrâneo oriental.
Chipre tem ficado satisfeito com as recentes descobertas de grandes reservas de gás natural nas suas águas territoriais. Mas a Turquia ficou furiosa ano passado, quando o país licenciou a exploração de um bloco de gás natural com a empresa Noble Energy com sede no Texas e quando esta começou a perfurar. A Turquia enviou navios de guerra para acompanhar esta própria exploração e em que estes ficaram apenas a seis quilómetros do local de perfuração em Chipre.
No entanto, Neoklis SYLIKIOTIS, ministro de Chipre para o comércio e energia, foi cautelosamente optimista de que “a energia pode ser um catalisador para a reunificação.” Ele acrescentou: “Os rendimentos do gás é para todos os cipriotas e nestes estão incluídos os cipriotas turcos, também.”
(continua)
