Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia rebentar
Já não tem sentido ter ou nao ter
Vivo com o meu ódio a mendigar
Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida para andar
Bebo o fel amargo até morrer
Já não tenho pena sei esperar
A cobiça é fraca melhor dizer
A vida nao presta para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As àguas do rio são de correr
Cada vez mais perto sem parar
Sou como o morcego vejo sem ver
Sou como o sossego sei esperar.
Oiço a canção e penso em tantas situações a precisarem de uns certos ajustes de contas. São às dezenas as que me chegam, bem concretas. Fico-me pelo Sr. Alves, por ter certas particularidades. Tem 3 bocas para alimentar (mais a renda, a água, a luz…) A mulher deu à sola e ficou com 3 crianças. Não sabe para onde se virar. Teve que aprender a também fazer de mãe.
“A vida nao presta para sonhar”
O puto mais velho é um reguila, só dá problemas na escola. Os biscates que lhe aparecem para fazer pouco mais dão do que uns 500 euros por mês. Tem que andar à procura, que o não esqueçam e o chamem, tem que cumprir as tarefas de que vai ficando responsável. E acudir a tudo o que diz respeito aos filhos.
Mesmo assim, considera-se um sortudo. Tem tecto, paga pouco de renda. Vai buscar alimentos do Banco Alimentar e está dias seguidos a comer salchichas com arroz, salsichas com esparguete, salchichas com batatas, feijão frade com sardinhas de lata, pão rijo dado pela padaria da esquina, uns bolos requentados que a pastelaria distribui ao fim do dia por os não ter vendido…
“Tenho muitos anos para sofrer”
Os putos vão começar novo ano lectivo em Setembro e nem quer pensar como vai arranjar o material… E lá andará de novo na pedincha de roupa para o inverno, o raio das crianças não param de crescer! Passa o dia a pensar como encontrar novas soluções.
A situação não é nova, já se arrasta há 3 anos. Mas está cada vez mais difícil arranjar os arranjos para fazer, deixou de ter o passe para os putos. Os amigos fartam-se de resmungar contra o governo. Pouco tempo lhe resta para pensar se este é pior do que os outros. A vida sempre lhe foi difícil… Mas percebe que para muitos dos desconhecidos está pior. Ouve falar de paralisações, de manifestações. Ele não tem nem patrões, nem sindicato. Com quem se aliar?
“Sou como o sossego sei esperar”.
Penso no Sr. Alves, vejo-o a esperar, duvido que com o sentido que o Zeca lhe deu nesta canção. Só desejo que, se ela lhe faltar, não lhe dê ou para sovar os filhos, ou para os abandonar. Só desejo que lhe dê para encontrar um fio condutor no seu próprio sentir que o leve a saber o que fazer…
Lembro um escrito pessoal de um argonauta: “Cuida-te criatura, do que tens pela frente de quem nos quer, corno manso, a seguir um qualquer cherne, em triste formatura. Antes, então, salmão e subir o rio, lutar contra-a-corrente”.
