DIÁRIO DE BORDO, 8 de Junho de 2012

 

 

Várias personalidades, portuguesas e estrangeiras, têm dado voz à opinião de que os portugueses estão a aceitar bem as políticas do actual governo, apontando o seu comportamento no dia a dia. Continuam a ir à praia, vão ao futebol, o Rock in Rio tinha imensa gente, etc. Parece que acreditam que a paz reina na sociedade portuguesa. E que essa paz é sinónimo de aceitação das políticas de austeridade. Nem todos acreditarão no que dizem. Em relação  aos que acreditam, há que realçar que se trata de uma convicção perigosa. No mínimo desajustada.


Os portugueses não são apreciadores de uma vida política agitada. Mas também não aceitam de bom grado uma vida de imposições e limitações de toda a espécie. A sua história, a recente e não só, mostram que uma das respostas constantes é a emigração. Um passado recente sob um regime político despótico, um passado secular sob uma estrutura social estática, uma valorização excessiva da resignação como forma de vida, criaram uma situação em que muita gente se encara com naturalidade o procurar no estrangeiro um modo de vida mais equilibrado. Essa tradição, se assim se lhe pode chamar, está presentemente a ser aproveitada por personalidades (não só personalidades) colocadas em lugares de responsabilidades para darem sugestões aos portugueses que emigrem. Insinua-se mesmo que os que não emigram é por comodismo.


Portugal é sem dúvida um exemplo (nada positivo, claro) de como as classes dominantes conseguem utilizar a filosofia de vida de um povo (Diário de Bordo sabe que esta não é propriamente uma expressão consagrada) e os seus hábitos tradicionais, fazendo-os passar por um ideal de vida, para o incitarem à resignação e à passividade. Veja-se o movimento associativo. Há muito que se assinala o prejuízo que traz ao nosso país a fraqueza do seu movimento associativo. Que explicações se podem dar para compreender essa fraqueza? São com certeza muitas, e de complexidade variável. Uma, sem dúvida das mais importantes, é o individualismo, uma espécie de sentimento de isolamento, que vai de braço dado com uma enorme desconfiança em relação a iniciativas de conjunto, baseada na descrença da boa vontade dos outros em se chegar a metas de interesse comum, superando interesses pessoais.

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