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DIÁRIO DE BORDO de 17 de Agosto de 2012

 

Há 50 anos surgiu nas livrarias um livro de um engenheiro agrónomo francês que iria ser múltiplas vezes citado – L’Afrique noire est mal partie. Quando, em 1965, foi publicada a edição portuguesa, a edição original já estava em muitas das estantes dos antifascistas portugueses. Sobretudo o título fizera história. Um levantamento dos recursos naturais do continente africano, punha em contraste a riqueza do solo e a pobreza que os colonialismos, pela exploração intensiva da mão-de-obra escrava ou quase escrava, espalhavam. Há meio século, as independências pareciam  tudo ir resolver. Expulsas as potências coloniais, África que, desde o Magrebe ao Cabo, encetara mal o caminho da autonomia, veria os seus problemas resolvidos – a fome, as doenças endémicas, o atraso tecnológico… As independências nacionais tudo resolveriam. Era assim que a esquerda europeia via o futuro.

Porém, as elites autóctones, com a aquisição do know how, trouxeram colado os vícios dos colonizadores. Frantz Fanon, melhor do que René Dumont, explicara já este fenómeno de mimetismo cultural – os milhões de «condenados da terra» iriam ser escravizados, explorados, assassinados, já não pelos malditos brancos do poder colonial, mas pelos heróis libertadores (ou pelos seus herdeiros) – Pele Negra, Máscaras Brancas, o livro de Fanon publicado dez anos antes da obra de Dumont ter começado a circular, explica tudo muito bem.

As imagens do massacre de mineiros na África do Sul, são dolorosas de suportar pela violência e pelo significado. Pelo que vemos e pelo que sabemos e imaginamos. Na mina de Marikana, no Noroeste, desde sábado que se verificam violentos confrontos entre os mineiros em greve e as forças policiais. A violência dos protestos dos mineiros, armados com barras ferro e cocktails Molotov, provocara já  mortes no sábado passado entre os mineiros e a polícia.De resto, a forma como os mineiros atacaram as forças policiais, configura uma atitude suicida. Representantes sindicais haviam apelado aos mineiros para que moderassem a violência dos seus ataques à polícia, pois para todos se tornava óbvio que a polícia mais tarde ou mais cedo empregaria armas letais Preferir morrer, como declararam, espelha bem o estado a que chegaram aqueles trabalhadores. Entre os três mil grevistas, um grupo de algumas centenas, armado de catanas, barras de ferro, cocktails Molotov, romperam o perímetro estabelecido pelas forças policiais e avançou para a morte.

Não consegue explicar-se como é que num país tão rico de recursos, há mineiros a ganhar salários miseráveis. Não se compreende como é que o nivel de vida médio de um cabo-verdiano é superior ao de um sul-africano, tendo em conta a pobreza do solo do pequeno arquipélago e os inesgotáveis recursos da África do Sul. Não se compreende?

Compreende-se, sim – a antropofagia atávica da espécie, explica tudo. Bem dizia Máximo Gorki – “o importante é que o homem se vá afastando do animal”. Pois é. Mas o animal persiste em ficar.

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