Circulam a esta hora notícias sobre a prisão de José Lula da Silva no quadro da luta contra a corrupção e Dilma Roussef poderá estar ligada ao processo. Mas não é disso que vamos falar. Vamos falar sobre o atraso dos países que na sequência dos Descobrimentos foram colonizados pelos portugueses. E sobre a entrevista que, a propósito, Lula deu ao El Pais *na passada sexta-feira.
Quando um angolano, um moçambicano, um guineense, se queixam da colonização portuguesa ou referem quadros de crueldade desumana, de exploração, de discriminação; quando descrevem a violência das guerras inauditas que travaram contra as Forças Armadas portuguesas para se poderem tornar independentes, descontando um ou outro exagero patriótico – em 25 de Abril de 1974, a única frente em que a guerra estava perdida para as forças coloniais, era a da Guiné-Bissau, onde o PAIGC confinara a ocupação portuguesa à capital. Mas foram genuínas lutas de libertação em que abundaram actos de heroísmo e de amor à pátria, contra o roubo dos recursos, da força de trabalho,da identidade nacional cometido por um país europeu. Em todo o caso, 40 anos após a proclamação da independência, começa a soar falso o argumento da colonização, os portugueses deixaram ficar, além do idioma, o mar onde abunda a pescaria, as jazidas de diamantes, ouro, petróleo… Não são culpados de que os chicotes que deixaram cair sejam empunhados por «patriotas» e que a exploração do homem pelo homem continue a coberto de um hino e de uma bandeira nacionais.
No Brasil, independente há mais de 200 anos, a desculpa da «má» colonização portuguesa é, não só de um inaceitável primarismo histórico, como de uma inverdade gritante. A «luta pela independência» não existiu; aos brasileiros, como por aqui dizemos, a independência «saiu na Farinha Amparo». Tracemos em poucas palavras o cenário cronológico em que o facto ocorreu. Em Novembro de 1807, com o exército sob o comando de Junot atravessando a fronteira, no dia 27, por decisão do Conselho de Estado. D. João, o príncipe regente, a família real e toda a corte, embarcam em Lisboa na frota que arribará a São Salvador da Baía em 22 de Janeiro de 1808. Em 1815 é constituído o Reino Unido de Portugal e Algarves. Em 1816, morre D. Maria I e sobe ao trono D. João VI (coroado em 1818. Em 20 de Janeiro de 1817, o exército sob o comando de Lecor, ocupa Montevideu, a actual capital do Uruguai. Em 1820, em Portugal, com o pronunciamento militar de 14 de Agosto, inicia-se o processo que conduziria ao confronto entre liberais e absolutistas. Em Abril de 1821, o rei regressa a Lisboa, o mesmo fazendo em Setembro o príncipe herdeiro, D. Pedro. A Câmara do Rio secunda o que a de São Paulo já fizera e em 7 de Setembro de 1822 é proclamada a independência do Brasil com o «eu fico!» de D. Pedro, que será coroado imperador em 13 de Outubro.
Paramos aqui a cronologia, mas como se sabe D, Pedro regressará a Portugal onde encabeçará as forças militares que se opõem ao absolutismo que o infante D. Miguel quer instaurar e que dará lugar à guerra civil que terminará em 1834 com a vitória liberal, sendo o imperador do Brasil coroado como rei de Portugal.
É evidente que a independência do Brasil não pode ser comparada à de Angola, por exemplo. Se fosse uma separação conflituos, como se explicava que o herdeiro da coroa portuguesa fosse o primeiro soberano da nova nação e tenha depois assumido a coroa portuguesa (sem ser considerado um «traidor», mas sim a figura carismática do liberalismo em Portugal). a independência do Brasil (que já não era uma colónia), foi um acto consensual. Na realidade, os portugueses que viviam no território e tinham ali os seus interesses e os cortesãos que durante sete anos se habituaram a mordomias que perderiam se voltassem a Lisboa, foram os primeiros brasileiros. Os índios que sobreviveram ao extermínio e os escravos importados como gado da costa africana, não foram libertados (a escravatura foi extinta antes em Portugal). A invasão do Uruguai continuou… Como se pode comparar esta independência palaciana com a que o PAIGC travou na Guiné? Barbaridades repressivas como as que resultaram da inconfidência? Era assim que acabavam as contestações ao poder real. Sabemos que todos os países cimentam a proto-história e a história com mitos. A batalha de São Mamede que, em 1128, começou a dar corpo ao projecto político de um rapazinho ambicioso, não terá sido acto muito mais heroico do que o grito do Ipiranga
Mas Lula da Silva fez o que muitos políticos brasileiros fazem com êxito assegurado – dizer mal dos portugueses. A colonização castelhana foi melhor? Incas e Astecas não estariam de acordo. Se fossem os holandeses a dominar o território, tudo seria melhor? Então a Indonésia, rica em recursos, está economicamente mais avançada do que o Brasil? Os jornalistas do El Pais podem ter gostado dos piropos, mas talvez fosse bom lembrar que a Guiné Equatorial – colonizada por Espanha – é um dos países do mundo com piores indicadores de desenvolvimento e bem-estar dos seus cidadãos, estando em 144ºr. Apesar de todos os seus problemas, o Brasil está «um pouco melhor». E melhor estaria se não fossem os políticos corruptos.
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Lula da Silva culpabiliza colonização portuguesa pelos atrasos da Educação no Brasil
“Eu sei que isto não agrada aos portugueses”, disse o ex-Presidente brasileiro, que falava numa conferência em Madrid organizada pelo “El País”.O ex-Presidente do Brasil Lula da Silva culpabilizou esta sexta-feira a colonização portuguesa pelos atrasos na educação brasileira, afirmando que Álvares Cabral descobriu o país em 1500 e a primeira universidade brasileira apenas foi criada em 1922. “Eu sei que isto não agrada aos portugueses, mas Cristóvão Colombo chegou a Santo Domingo [actual República Dominicana] em 1492 e em 1507 já ali tinha sido criada a Universidade. No Peru em 1550, na Bolívia em 1624. No Brasil a primeira universidade surgiu apenas em 1922”, disse hoje Lula da Silva, numa conferência em Madrid, organizada pelo diário “El País”.Para Lula da Silva, que comparou as atitudes dos países colonizadores Espanha e Portugal nas respectivas áreas de influência, este facto “justifica os atrasos da educação no Brasil”.A primeira universidade brasileira foi a Universidade do Rio de Janeiro, que resultou na junção das Faculdades de Medicina, Direito e Engenharia.Ao contrário de outras ocasiões, Lula da Silva não referiu que as bases do Ensino Superior brasileiro foram lançadas muito antes, no final de século XVII e XVIII.Em 1792, foi criada a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, instituição de ensino superior precursora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1808 foi criada a Faculdade de Medicina da Baía, na sequência dachegada ao Brasil da Coroa portuguesa.A argumentação de Lula da Silva em Madrid visava sobretudo as “elites brasileiras” dos últimos 100 anos, em comparação com o “legado” dos seus anos à frente do Brasil. Lula argumenta que o seu Governo triplicou o orçamento da Educação, construiu 18 novas universidades federais, 173 novos “campus” no interior do Brasil e três vezes mais escolas técnicas que últimos 100 anos.

Sem esquecer o que de mal foi feito, nisto concordamos.Seria quase como dizer que a culpa do nosso atraso é do Afonso Henriques.