Pouco mais de uma hora depois da chegada, começaram a cair morteiradas na periferia do arame farpado, e a confusão foi inevitável. Os pára-quedistas procurando tomar posição nas trincheiras abertas por diversos lados, especialmente próximo da cerca de arame farpado, cruzando-se com os militares do destacamento local, mas muito poucos deles tomaram posição de defesa. O cabo apontador do morteiro de 80 toma posição e procura atingir o morro de onde sai o fogo inimigo; mas o inimigo está distante, não se ouvem tiros de espingarda. Toda a gente fica na expectativa, esperando não ser atingido pelos estilhaços dos rebentamentos das granadas inimigas. Terminado o espectáculo, apenas ficaram as sentinelas de vigilância, e os pára-quedistas procuraram animar os companheiros ali destacados e muito desmoralizados. O comandante da companhia ali destacada estava recolhido numa barraca construída num vão do terreno, com telhado de zinco, rezando o terço juntamente com outros militares; estes nem chegaram a pegar nas armas durante o ataque inimigo. Isso causou alguma perplexidade aos pára-quedistas, mas, nas conversas que se seguiram com os sitiados ficou clara a difícil situação de abandono e estagnação humana daquela gente.
Passada a noite, logo pela manhã, os pára-quedistas embarcaram nas viaturas que os transportaram para a zona do objectivo que lhes foi determinado. Três unimogues e uma Berliet serviram para esse transporte na direcção de Nangololo, numa distância aproximada de 30 quilómetros; um pelotão de Miteda manobrava as viaturas e asseguravam o seu regresso.
Já apeados e seguindo para norte da picada de Nangololo, entraram no temível vale de Miteda; pouco mais de quinhentos metros andados numa picada muito usada, ouviram-se os primeiros tiros, seguidos de rebentamentos de granadas. O cabo Fonseca logo comentou: “Lá estão os checas a experimentar as armas”. (Era frequente os apontadores da metralhadora MG ou Breda da viatura da frente abrir fogo para assustar o inimigo). A preocupação sobre o que teria acontecido aumentou quando, uns quilómetros mais à frente, foram interceptados três guerrilheiros vindos da direcção de onde provinham os tiros; o pessoal da secção da frente tentou agarrá-los à mão, evitando abrir fogo para não denunciar a presença da tropa; mas, para incerteza do futuro, apenas um foi apanhado com a respectiva arma. A partir dali, e com a fuga dos outros guerrilheiros, é certo e sabido que a missão estava mais dificultada; até porque o “efeito surpresa”, fundamental para o sucesso, tinha ido para o diabo.
Enquanto isso, os militares de Miteda sofriam mais um revés nas suas motivações para a guerra: não foram tiros dos “checas”, mas um inesperado ataque dos guerrilheiros que destruiu um Unimog e matou três militares, ferindo mais alguns.
Poucos dias depois desta tragédia, os pára-quedistas regressaram a Miteda, desolados e cabisbaixos, por não terem levado a missão a bom termo, porque a zona era dominada pelos guerrilheiros que não deram tréguas até emboscarem a nossa tropa donde resultou um morto e três feridos graves. Como um mal nunca vem só, ficaram ainda mais consternados ao tomarem conhecimento do ataque que atingiu as tropas de Miteda.
Mueda, Julho de 1966
Joaquim Coelho – 2º Sargento do BCP 31.
O autor, Joaquim Coelho, participou em diversas Operações Militares, integrado no BCP 31como 2º sargento pára-quedista.
4ª Companhia de Comandos
MOÇAMBIQUE
1966-1968
