Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
São questões como esta que provocam mal-estar. Este é o caso do Barclays, fortemente abalado pelo escândalo de manipulação da LIBOR, a principal taxa de referência dos empréstimos interbancários no primeiro centro financeiro mundial.
A maré de artigos que publicou a imprensa britânica – que pensa ser a melhor do mundo, mas que não viu nada do se tinha andado a fazer – dá vontade de voltar para a cama, a cabeça sobre o travesseiro, a moral dentro das meias. Depois da demissão do Presidente e Director geral, a famosa frase de Oscar Wilde, o grande defensor das frases acertadas e bem aplicadas, “perder um pai é um azar, perder os dois é, na verdade, uma grave negligência”, assenta aqui que nem uma luva a este grande banco britânico. Finalmente, quase…
Porque para além do escândalo da Libor, é toda uma cultura financeira que está novamente no centro das atenções: bancos demasiado poderosos, a fraqueza do regulador e da política, a ganância na City e assim por diante.
Em Canary Wharf, os arranha-céus não cabem nos nossos ombros, antes pelo contrário. O centro financeiro dá a mesma impressão de poder que tinha antes de ter rebentado o caso da Libor. A sede do Barclays Capital, onde o escândalo aconteceu, é uma curiosa mistura de residência aristocrática com colunas gregas, evocando E tudo o vento levou com um palácio próximo do tipo oriental e também do clube de aristocratas britânico. Como se, quanto mais se ganha no virtual, os algoritmos e o futuro, mais se tende a enfiar o seu universo no mundo do passado.
Ao contemplar a 5 North Colonnade, o autor destas linhas lembra-se de um pequeno almoço recente no BarCap no decorrer do qual os sushis regados com água mineral tinham sido servidos numa sala de reunião de paredes brancas. Como se a ausência de calor e o regime de emagrecimento não fossem feitos para se proteger dos olhos e para esconder actividades dificilmente declaráveis.
Os embaraçosos e-mails que trocaram os manipuladores da Libor, e que tenham sido tornados públicos pelas autoridades sugerem que é nas próprias salas de mercado que as taxas eram manipuladas. Na verdade, todo este pequeno mundo provavelmente se reencontraria no Café Brera situado na entrada de Cabot Square, ponto de encontro dos traders de BarCap .
No final desta tarde, o bar está cheio, bastante cheio mesmo, as luzes são suaves. A música abafa as conversas. Homens, na sua grande maioria, em que a camisa de colarinho aberto tira um pouco o ar de arrogância a esta irmandade. Muito poucas mulheres e estas estão vestidas com um conjunto de saia e casaco escuro e uma blusa de seda branca. Não é um expresso ou uma latte que os faz puxar pela língua, mas a certeza do seu próprio destino e o seu sentimento de impunidade. A corrida para o primeiro lugar do pódio e aos bónus traduz-se numa corrida desenfreada e numa luta feroz, sem cinto de segurança, onde é necessário fixar bem o adversário até que os seu olhos se baixem por não aguentarem o olhar. Como nos filmes de western…
Regressemos por instantes às nossas imagens da cena bancária britânica. O banco HSBC ilustra a Ásia e os seus taipans”, as casas comerciais escocesas de Hongkong. O banco Royal Bank of Scotland representa a Escócia e as suas maneiras bem singulares de falar, de fazer, de sonhar. O Lloyds, significa a Inglaterra do interior, a tradição, e a forma cortês de estar. Barclays, por seu lado, foi sempre considerado como original, para não lhe chamar excêntrico. Três exemplos, três testemunhos.
Primeiramente, um pequeno almoço em 1993 com o PDG de então, Andrew Buxton, descendente directo da família fundadora, na sala de jantar pessoal do Barclays cuja ornamentação, cujas antiguidades e a fogueira acesa faziam lembrar a decoração de um castelo inglês. Refeições suculentas, vinhos finos, charuto de Havana a seguir… aqui sabia-se viver! E o nosso hospedeiro durante muito tempo evocou a empresa com um perfil de cidadania assim desejado pelos fundadores no século XVII, quakers, dissidentes do protestantismo, com uma moral rigorosa e altruísta. No fim das bebidas o aristocrata de elegância refinada tinha desdenhado comentar os acontecimentos do dia. Hoje, os quakers devem-se revolver nos seus túmulos mausoléus de East Anglia.
Em seguida, em 2003, Matthew Barrett, o patrão autodidacta do estabelecimento, que tinha na época e à sua conta o maior número de cartas de crédito do reino emitidas, declara , com os olhos cheios de malícia: “Pessoalmente eu não compro nada, nada mesmo, com a minha carta de crédito porque isso me ficaria muito caro.” Enfim, estas duas belezas de banqueiras, Amanda Staveley e Diana Jenkins, a quem Barclays tinha recorrido em 2008 para seduzir os capitais das petro-monarquias misóginas do Golfo a fim de escapar por esta via à nacionalização .
Em O traidor ao nosso gosto, Our Kind of Traitor, John Le Carré tinha desenvolvido a tese segundo a qual o dinheiro da máfia russa tinha salvo o mercado interbancário da paralisia aquando da crise dita de subprimes de 2008. ”Teoria delirante, fruto da ‘imaginação fértil de John Le Carré cujo conhecimento das artes da alta finança nunca foi o seu ponto forte”, tinha replicado a Associação britânica dos bancos encarregada de fixar diariamente aa taxas Libor. O escândalo Barclays mostra verdadeiramente o que a ficção pode ter de ingénuo relativamente à mais crua das realidades da alta finança.
Marc Roche , LE MONDE, 10.07.2012
