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CARTA DE VENEZA – 24 – “PORTUGAL NA 13. EXPOSIÇÃO DE ARQUITETURA DA BIENAL DE VENEZA “ – por Sílvio Castro

Portugal  se apresenta como marcante presença, entre os 55 países partecipantes, na 13ª. edição da Bienal de Arquitetura de Veneza, manifestação inaugurada no dia 29 de agosto de 2012 e que se prolongará até 25 de novembro do mesmo ano. Dirigida por David Chipperfield, a presente edição se propõe sob um tema geral de particular significado para a prática arquitetônica contemporânea: Espaço comum. Trata-se de uma proposta de verificação e análise de quanto foi edificado entre a segunda metade do século XX e o início do novo milênio.

Instalado na sua sede sempre provisória no Canal Grande, antigo Fondaco Marcello, pequeno espaço rústico e baixo, defronte à parada dos vaporetos de San Tomá no Canal Grande veneziano, o pavilhão português apresenta uma muito expressiva exposição baseada nas modificações por que tem passado o espaço de Lisboa depois do incêndio do Chiado, em 1988, até o presente 2012. Organizada e dirigida pela arquiteta Inês Lobo, a presença de Portugal desenvolve o seu projeto sob três aspectos gerais: 1) “Lisboa Centro”, com a reconstrução do Chiado, a Biblioteca do  Museu de Numismática do Banco de Portugual, o MUDE, Museu do Design, e Fanqueiros.; 2) a “Lisboa ribeirinha”, desde o Museu das Carruagens, até a nova Estação  da Terminal marítima, passando pela grande reestruturação da Ribeira das Naus; 3) “As conexões de Lisboa”,  com os projetos para o Parque Maior, o Jardim Botânico e adjacências, o Acesso à Colina do Catelo, o Príncipe Real. Isto através de uma bem organizada tradução de tanto material modtrado por meio de videos, nos quais os arquitetos protagonistas se manifestam. Tudo completado por correspondentes projeções dos trabalhos realizados.

A equipe de arquitetos que participa do projeto é ampla e significativa de quanto a arquitetura portuguesa contemporânea tem realizado. Os arquitetos são: Álvaro Siza Vieira, Bárbara Rangel, Catarina Mourão, Duarte Belo, Eduardo Souto Moura, Francisco Aires Mateus, Gonçalo Byrne, Joana Vilhena, João Favila, João Gomes da Silva, João Luís Carrilhoi da Graça, João Nunes, João Pedro Falcão de Campos, João Simões, José Adrião, Manuel Aires Mateus, Manuel Graça Dias, Manuel Salgado, Paulo Mendes da Rocha, Pedro Domingos, Ricardo Bak Gordon, Ricardo Carvalho, Rui Furtado, Rui Mendes. Uma grande equipe de mestres já consagrados e de jovens em plena conquista da maturidade criadora. Os mesmos que trabalharam na realização, sempre em desenvolvimento, de uma cidade que se faz sempre mais moderna.

 Dentre esses trabalhos, cumpre ressaltar o projeto que inicia o ciclo, a restauração do Chiado e de sua Baixa depois do incêndio de 1988. Álvaro Siza realiza o mesmo com a aplicação do máximo de seus princípios norteadores: uma concepção de modernidade integrada naquela outra da tradição estabilizada. Assim agindo, ele elabora uma ação de um novo Chiado que compreenda as zonas da Baixa  próximas e que foram atingidas pelas chamas de 1988. Para efetivar a sua meta, Siza se guia pela concepção urbanística vinda da cultura pombalina, fortemente caracterizadora de toda a arquitetura da Baixa. A mesma concepção que permitiu e provocou o máximo de modernização urbanística da capital portuguesa, com a abertura das grandes avenidas a partir de 1850.

Esse projeto de modernidade arquitetônica e urbanística, foram um dos muitos exemplos da carreira profissional de Álvaro Siza que induziram a Bienal de Arquitetura de Veneza de 2012 a conceder-lhe o Leão de Ouro pela Carreira.

A concessão do Leão de Ouro pela Carreira se faz pela primeira vez em 1996, sendo Oscar Niemeyer o primeiro galardoado. Em seguida foram premiados Renzo Piano, Paolo Soleri e Jǿm Utzon (2000); Richard Rogers (2006); o historiador James Ackerman e Frank Gehry (2008); Rem Koolhaas e Kazuo Shinohara (2010).

 Álvaro Siza chama a atenção da crítica internacional desde as suas obras iniciais – as piscinas de Leça e o restaurante de Matosinho -, realizadas nos anos da dédada de 60. O arquiteto português logo se faz notar pelas inovações de seus projetos para a construção residencial, como o Saal do Porto, o bairro Malagueira, de Évora, operações fortemente integradas no espírito modernizador surgido com a revolução de 1974. Tais sucessos o levam naturalmente a importantes convites internacionais, o principal deles aquele que lhe faz a Iba para a reconstrução dos bairros de Berlim oriental bombardeados na II Guerra Mundial. Tais empresas levam Siza a receber inúmeros prêmios internacionais, entre os quais o Alvar Aalto e o Pritzker.

 Mais atualmente muitos outros são os trabalhos do arquiteto do Porto: além da obra fundamental da restauração do Chiado, ressalte-se de imediato a bela escola de Setubal, bem como o Museu de Santiago de Compostela; na Corea; e a operação na Holanda em seus bairros residenciais – complemento essencial de uma das linhas caracterizadoras da obra arquitetônica e urbanística de Siza.

Todas as obras de Álvaro Siza se fazem notar pela forte intensidade de seu desenho e pela profunda concepção sócio-cultural que o guia. Justamente essas qualidades fundamentam uma das mais interessantes manifestações expositivas paralelas à Bienal – 18 no seu total… – que movimentam Veneza nesse momento. Assim, na Fundação Querini Stampalia, está aberta de 29 de agosto a 11 de novembro de 2012 a reveladora exposição “Álvaro Siza – Viagem sem Programa (desenhos e retratos)“. Nela as qualidades do traço do arquiteto se traduzem em exuberança, qualidade que leva o autor festejado à realização de retratos de amigos de alta qualidade artística. Esta exposição de 53 obras foi organizadapor Greta Ruffino e Raul Betti, com a direta participação do autor.

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