CARTA DE VENEZA — 25 – “Angola na 13ª. Bienal de Arquitetura de Veneza “ – por Sílvio Caatro

 

                       

A 13ª. Exposição de Arquitetura da Bienal de Veneza, edição dirigida pelo arquiteto inglês David Chipperfield (nome que de imediato chama à mente aquele outro, dickensiano, David Copperfield), do título geral Common Ground (Espaço Comum), ambiciosa e, pode-se dizer, atraente quadro da arquitetura mundial dos nossos dias, apresenta um evento muito especial: a presença, pela primeira vez na história da Bienal, de Angola.

Trata-se de uma estréia de muitos significados. O primeiro deles se relaciona com as metas procuradas pela Revolução dos Cravos, de 1974. A exibição internacional de um país africano, ex-colônia portuguesa, comprova mais uma vez como os ideais dos revolucionários de 74 continuam a dar fruto.

  Angola, desde o momento em que recebeu oficialmente a declaração oficial do fim do estado de colônia de uma potência européia, percorreu muitas e difíceis estradas de afirmação político-econômica. Depois de superada em 2008 a trágica situação derivada da guerra civil, o país se dirigiu a novos rumos e progressos. Próprio nos dias presentes Angola se prepara a uma segunda experiência de consultações democráticas, depois daquela de 2002, quando o presidente José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979, conquistou a maioria dos votos, numa proporção que superou o índice de 80%. Para uma demonstração da geral maturidade assumida pelo povo angolano, espera-se que os resultados da atual consultação não atinja resultados plebicitários como os de 2002…

 A  primeira presença de Angola numa manifestação internacional como é a atual 13ª. Exposição de Arquitetura da Bienal de Veneza deixa muito esperar que as antigas colônias africanas de Portugal atingem momentos de grande desenvolvimento político-social. Em meio aos 55 países que participam da exposição veneziana, o Pavilhão de Angola assume particulares destaques. Situado num dos pontos mais salientes do panorama veneziano, a ilha de San Giorgio, sede da importante Fundação Giorgio Cini, o pavilhão ocupa o espaço da Sala Carnelutti, integrada na arquitetura geral da ilha, e traz como título geral Beyond Entropy Angola, organização de Stefano Rabolli Pansera, presidente e fundador da Beyon Entropy, e da arquiteta angolana Paula Nascimento, responsável da mesma empresa em Angola e antiga colaboradora do atelier de Ávaro Siza.

 O espaço da Sala Carnelutti mostra de imediato ao visitante um grande e particular jardim, apresentado em modo eficazmente direto e claro, distante das características gerais de muitas apresentações exibidas nesta 13ª. edição veneziana, quando o público vem tomado por um aparato escrito que muitas vezes exalta uma predisposição fortemente retórica. No pavilhão da Ilha de San Giorgio tudo se faz ao contrário. Ali tudo é direto, visivamente direto; olfativamente direto no grande jardim interior protagonizado por uma planta muito especial, a Arundo Donax. Este vegetal tem propriedades muito especiais: cresce rapidamente, é feito de uma rizoma – caule subterrâneo – de fios muito finos que filtran naturalmente a água suja e contaminada; apresenta-se com uma estrutura de ramos e galhos de forte rigidez que absorvem grandes quantidades de gaz carbônico (O2C) da atmosfera, coisa que o faz um instrumento ideal para a biomassa. Tal planta vem usado como elemento de depuração ecológica nos subúrbios e cidades satélites de Luanda. A imensa capital angolana, com mais de 8 milhões de habitantes, encontra desta maneira um aliado precioso para a luta indispensável ao congestionamento e salubridade de sua atmosfera em constante modificação. Surgem assim novas áreas urbanísticas que superam em forma eficaz e imediata uma anterior situação de degradação ecológica e de acentuação da pobreza da gente que vive em tal espaço, agora em contacto com novos espaços.

Desta maneira, Angola propõe ao público internacional um seu natural instrumento para o inclemento da luta pela purificação da atmosfere geral. Coisa muito importante nos tempos atuais quando a política ecológica dos diversos países começam a verificar que os métodos adotados até aqui funcionam muito relativamente, o que induz à necessidade de apelar por novos resultados que somente a moderna pesquisa científica pode trazer.

O Pavilhão veneziano da delegação de Angola é um positivo testemunho de como muitos países africanos, sempre mais numerosos, estejam superando fases negativas da própria realidade civil e marchando com novas convicções para um futuro de maior justiça social para uma gente marcada por um passado predominantemente negativo.

 

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