CARTA DE VENEZA – 30 – por Sílvio Castro

 “Outono de 2012: Veneza, capital da cultura internacional”

Acontece praticamente todos os anos: os meses de setembro e outubro trazem um movimento renovado para a cidade dos Doges. Então, ao lado das habituais manifestações de arte e cultura, os visitantes e os próprios não excessivos residentes se confrontam com uma acentuação das muitas ordens de espetáculos, vários deles a cada dia, que cobrem o período outonal da cidade dos sonhos. Porém, se assim é praticamente por todos os anos, mais do que nunca tal coisa acontece neste outono de 2012.

Veneza vê a sua reduzida população de 60.000 habitantes triplicar, assistindo a uma invasão que deixa os venezianos mais tradicionalistas presa de acessos de raiva quando devem pegar os vaporetos e motoscafos, super-lotados ao impossível em cada momento do dia, ou quando pensa em passar pelas ruas mais frequentadas aos milhares pelos turistas, sempre absortos e quase parados na contemplação das muitas descobertas.

A cidade passa a  exprimir-se em cem línguas e o veneziano deve praticamente emudecer  na imposibilidade de usar o próprio dialeto.

Neste outono de 2012 Veneza oferece em particular aos seus visitantes bem 53 diferentes eventos culturais, tudo em simultaneidade. São 53 espetáculos de cinema, teatro, de artes plásticas, de música, de literatura. Tem de tudo e para todos os gostos, principalmente para o bom-gosto.

O primeiro deles  foi o Festival Cinematográfico de Veneza, do qual já demos amplo espaço em várias Cartas precedentes. Mais do nunca o nível melhor da produção cinematográfica mostrou-se então em Veneza. Entre elas, os bons exemplos do cinema português contemporâneo, com as películas, As Linhas de Wellington, de Valéria  Sarmiento, e O Gebo e a Sombra, do grande mestre Manoel de Oliveira. Logo em seguida abriram-se os espaços sempre inovadores da V  Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza, com a figura de protagonista fixada num mestre da arquitetura portuguesa, Álvaro Siza Viera – Leone d’Oro pela carreira -, e com a força das boas presenças do Pavilhão do Brasil, daquele de Portugal e, pela primeira vez na Bienal de Veneza, o de Angola. De tudo isso igualmente já tratamos.               

Mas, enquanto decorria e decorre a Bienal Internacional de Arquitetura, 17 outras Exposições chamavam a atenção de todos, em particular aquela dedicada aos 300 anos de nascimento de Francesco Guardi, bem como uma outra, muito especial, a de um Ticiano que Veneza não via que eram 250 anos, obra-prima restaurada e que hoje se encontra na sua sede estável do Museu do Hermitage, de São Pedroburgo.

Depois de manifestações de alto nível dedicadas à dança clássica, bem como outras consagradas a eventos literários, Veneza agora mostrou uma de suas grandes promoções periódicas com o 56. Festival Internacional da Música Contemporânea, de 6 a 13 de outubro de 2012, sob a direção de Ivan Fedele. O Leone d’Oro desta edição do Festival da Música foi dado ao grande mestre contemporâneo francês, o compositor e diretor de orquestra Pierre Boulez (1925), autor de obras marcantes da nossa época, como Polyphonie X, Strutuctures I, Etudes de musique concrète (1949-52). Ou as mais recentes Dérive 2 (1988-2008).

O Leone d-Argento do Festival veneziano foi concedido ao Quartetto Prometeo, nascido em Fiesole, na famosa Scuola di Musica da cidade, com a Orchestra Giovanile italiana, isto em 1993. O Quarteto Prometeu é um grupo que realiza em forma renovadora o encontro entre tradição e contemporaneidade, justamente a linha marcante deste importante Festival Veneziano.

Por tudo isso e também pela beleza intrínseca que sempre dela se mostra, Veneza se faz, neste outono de 2012, uma verdadeira e concreta capital da cultura internacional

 

               

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