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SALVADOR ALLENDE – UMA HOMENAGEM – por Raúl Iturra

Para que escrever mais sobre Salvador Allende, se todos sabemos que está, como digo no meu mais recente livro sobra Aztecas, Incas e Maias, na galeria dos patriotas que libertaram as colónias espanholas do jugo da coroa de Espanha?

Ao Meu Presidente não lhe coube essa honra, mas teve outra, libertar o Chile da opressão do Império dos EUA. Ninguém o queria como Presidente entre os ricos, por ser fundador do Partido Socialista do Chile em 1930, aos seus trinta e dois anos, Presidente da Federação de Estudantes do Chile, nos seus 24 anos, ministro do Presidente Radical Pedro Aguirre Cerda, na pasta Salubridade e do seguinte radical, Juan António Ríos,  em Defesa. Foi Presidente do Senado Do Chile no Congresso Bi- cameral de Senadores e Deputados. Um presidente do Senado que pode substituir ao Presidente da República se ausenta do território Nacional

Durante 40 anos foi Senador pela circunscrição de Valparaíso, a sua terra natal. Estávamos a minha pequena família e eu na Grã-Bretanha, quando soubemos que, pela quarta vez concorria para Presidente do Chile. Voámos para aparecer a tempo e horas e votar por ele a 4 de Setembro de 1970. Ganhou, finalmente. Bem sabia que não era querido por ser marxista e mação, mas o povo nada entendia de isso e votou por ele. Teve que correr, o tempo ia ser curto, tinha uma grande oposição nas câmaras e nos partidos que não eram da sua coligação Unidade Popular, apoiada pelos socialistas, radicais de esquerda, a Esquerda Cristã e o MAPU, do qual fui Presidente Regional até o dia da sua morte.

Em três anos redistribuiu a riqueza, confiscou as grandes fábricas e indústrias, todas nas mãos de estrangeiros. Com a sua mulher, Hortênsia Bussi Soto, implementaram o programa de um litro de leite para cada criança no Chile. Confiscou as terras do latifundiários e as entregou aos trabalhadores, como as fábricas de pano para confecionar roupa de vestir, a de Chiguayante, palavra da etnia Mapuche do Chile que significa, traduzida do mapudungun ao castelhano chileno, Agua de Argila e, além do mais, retirou das mãos das empresas norte-americanas, o salário da República, as maiores minas de cobre do mundo e cobrou indemnizações pelos lucros das empresas USA com mais de cem anos de exploração.

Nada disto foi do prazer do derrocado Nixon que governava nesses anos, com o Prémio Nobel da Paz, Kissinger. Levantaram às Forças Armadas contra o Presidente do Chile, o Generalíssimo das mesmas, más um traidor que as comandava, um general que morreu réu e em tribunal aos 92 anos, com a sua mulher e filho, queriam atracar o Presidente e fazer dele um peleje. Allende, armado, lutou até que as tropas insubordinadas entraram ao Paço Presidencial. Calmamente entrou na suite presidencial e matou-se para evitar ser usado e uma estúpida guerra civil. Que nasceu em Valparaíso em 1908 e morreu no ataque à ao Paço denominado La Moneda a 11 de Setembro de 1973, é história sabida.

O que não se sabe é que ele sabia dialogar com multidões que respondiam às suas questões. Morreu como viveu: sempre em risco. O risco era a sua forma de vida, que lhe permitira cumprir a sua palavra empenhada. Era um aristocrata que, com a sua família, abandonou as suas regalias e morreu pelo Chile. Nós, ao campo de concentração, a seguir exílio de 39 anos. Só e sem família. No me importo: perdi todo, até família, mas o socialismo materialista histórico de Marx. Materializado em Allende, orienta esta cumprida solidão. Sempre penso em ele e a sua atitude orienta a minha vida.

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