A burguesia chilena e a sua greve contra Allende, por Raúl Iturra

 

 

 

 

 

 

 

O Dr. Salvador Allende investido como Presidente do Chile em 1970, 4 de Novembro, após eleição por sufrágio universal.

 

 


 

 

 

 

 

 

Entendo que o direito a greve é dos trabalhadores. Não há código do trabalho nos tempos que correm, que não permita ao operariado a interrupção voluntária e colectiva de actividades ou funções, por parte de trabalhadores ou estudantes, como forma de protesto ou de reivindicação.

 

Aliás, a lei Nº 65, de 1977, de 26 de Agosto da República de Portugal, diz: A Assembleia da República decreta, nos termos dos artigos 167º, alínea c), e 169º, nº 2, da Constituição, o seguinte:

 

Artigo 1º

 

Direito à greve

 

1 – A greve constitui, nos termos da Constituição, um direito dos trabalhadores.

 

2 – Compete aos trabalhadores definir o âmbito de interesses a defender através da greve.

 

3 – O direito à greve é irrenunciável.

 

No entanto, como é bem conhecido, a burguesia apoderou-se desse direito quando Sua Excelência – forma de tratar no Chile os Presidentes da República – o Dr. Salvador Allende, médico e político, foi eleito para a mais alta magistratura da Nação. Bem sabemos que a eleição foi renhida e teve que ser referendada pelo Congresso Nacional em pleno se o candidato não atinge a maioria absoluta.  Sua Excelência ganhou o primeiro lugar, apesar de não ter maioria absoluta, conquistou o primeiro lugar com 36,2% dos votos, contra 34.9% de Jorge Alessandri, o candidato da direita, e 27.8% do terceiro candidato, Radomiro Tomic, cuja plataforma era similar à de Allende. Como a Constituição chilena previa a necessidade de “maioria dupla” (no voto popular e no Congresso), difíceis negociações foram entabuladas para a aprovação do nome de Allende no Parlamento. Após o brutal assassinato do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas chilenas, o general constitucionalista René Schneider, perpetrado por elementos ligados à Pátria y Libertad, Allende teve, finalmente, seu nome confirmado pelo Congresso chileno.

 

Como tenho comentado noutros ensaios meus neste sítio de debate Estrolabio, o Presidente sabia que tinha pouco tempo para governar como devia ser e começou de imediato com o seu programa de governo. Esse programa baseava-se na repartição da riqueza para todos serem iguais, ideia retirada da doutrina científica de Karl Marx, doutrina que orientava as suas ideias legislativas. A sua primeira actividade foi nacionalizar os Bancos, normalmente geridos com dinheiro estrangeiro e com gestores de outros países, ou dos Estados Unidos de América, ou pelos britânicos ou chilenos que transaccionavam com moeda estrangeira. Nomeara uma economista para observar a nacionalização, como Presidente do Banco Central, que geria as actividades de todos os outros, Noémia Kafka, a minha colega de ensino na Universidade de Cambridge. Ironias da vida: os Kafka, judeus, tinham procurado asilo no Chile para fugir da perseguição fascista da Europa. A sua filha teve que fazer o contrário… A seguir, nacionalizou as empresas geridas por ingleses, suíços, alemães e, naturalmente, pelos cidadãos norte-americanos.

 

O ponto mais pesado foi a reforma da propriedade da terra. O seu lema era que a terra é para quem a trabalha. Os proprietários de Haciendas e fundos, entregavam a gestão a um capataz ou administrador e exerciam as suas profissões na cidade de Santiago ou outros grandes centros de comércio, como Valparaíso e Concepción.

 

A burguesia começou de imediato com os seus protestos e desfilavam em frente do palácio de Governo, La Moneda, batendo tachos vazios com colheres de pau, aço ou prata. Acções concertadas pela ideologia de ultra fascista Pablo Grez, ideólogo do Movimento Pátria e Liberdade, sindicato burguês que geria a ideologia dos seguidores dos Partidos Conservador e Liberal, grupos antigos que governavam a República desde a sua fundação en 1810 até a eleição do primeiro Presidente burguês, Arturo Alessandri Palma, pai do candidato derrotado, que tinha sido Presidente do Chile nos anos 50 do século passado.

 

Este facto deu aço para um lema: em momentos de perigo, o país acode aos seus grandes velhos. Alessandri Rodríguez tinha já 80 anos quando foi, contra a sua vontade, candidato da direita chilena. Campanha que lhe custara a sua paz e a vida, faleceu pouco tempo depois da eleição de Salvador Allende.

 

Pátria e Liberdade via avançar as reformas e temiam ficar sem dinheiro, ao que estavam habituados. Mais do 60% de população era pobre e um baixo número, entre médio rico, a denominada classe média e um 10% de imensas poses no país e fora dele. A burguesia, alarmada, teve duas ideias: a primeira, comprar dólares, vender os seus bens, como no Portugal do 25 de Abril de 1974, e fugir, como grande parte da nossa família. A segunda, foi a ideia de Grez, quem morrera assassinado pelos seus jovens amantes, de bater na porta da CIA.

 

O Presidente reinante nos Estados Unidos, Richard Nixon, instruiu de imediato ao seu Prémio Nobel da Paz, o judeu Henry Kissinger, para activar à força de espionagem e começar a campanha de levantar as Forças Armadas, contra o seu comandante, o Presidente da República. Com sucesso. A burguesia tinha formado o seu sindicato, aberto contas bancárias fora do Chile, e iam sistematicamente a Escola Militar, Naval e de Aviação, para atirar milho e trigo, comida de aves, por considerar que os militares eram galinhas, termo usado para os cobardes no chileno castiço. Um militar desprezava às pessoas galinhas e sentiam-se ofendidos e humilhados por esta forma de agir, especialmente de mulheres, contra eles. Muitas dessas mulheres eram casadas com membros das Forças Armadas, o que incrementava a sua menos valia.

 

E o dia da justiça para os militares chegou, com o apoio da burguesia e da pouca aristocracia que ainda existia no país. Pelo que, para minha vergonha como chilenos e familiar de um membro sublevado, o Almirante Merino, e de um torturador cujo nome vou omitir por respeito a família e porque acaba de falecer. O Palácio de Gobierno foi atacado por aviões Hawker –Haunters da marinha dos Estados unidos, que com toda precisão bombardearam ao nosso Presidente. Presidente que teve a valentia de morrer no alto cargo para o qual tinha sido eleito, pela sua própria mão.

 

A greve da burguesia não teve maior sucesso. Pensavam que seriam chamados a governar, mas o ditador foi como o nosso libertador Bernardo O´Higgins, foi-se desfazendo dos seus camaradas de golpe, relevou do seu cargo ao traidor auto nomeado General dos Carabineros – a PSP de Portugal – mandou assassinar a Gustavo Leigh, sem sucesso, ganhando mais um inimigo com poder nas Forças Armadas, indigitou Generais do Exercito como Ministros, auto proclamou-se Director Supremo, mas 19 anos depois de tanto crime cometido, a própria burguesia reconheceu o seu erro, até derrubar ao ditador e tornar o país uma democracia, como sempre tinha sido.

 

A burguesia marchou duas vezes: uma, por engano, contra o Presidente da República livremente eleito, e outra, contra um senhor Picunche que nem sabia falar, mas sim cometer crimes dentro e fora do país. Ditador que faleceu réu da justiça, só e abandonado até pela sua antiga apoiante burguesia, que fez greve para o ter no sítio principal, reconheceu o seu erro, e A Sua Excelência o Presidente Allende teve um funeral de Estado, 20 anos depois…Os enganos da burguesia são de alto perigo, nem os seus sindicatos funcionam. Acabam de perder o mando por não se saber unir para a eleição do novo Presidente Piñera, Ministro de Economia e professor em investimentos do velho ditador. A greve burguesa acabou outra vez com um fascista no governo.

 

Chile tem uma curta memória…

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