Rui de Oliveira, que hoje vem aqui dar a sua opinião sobre o momento político nacional, é também um argonauta de primeira linha, organizador do magnífico Pentacórdio, a nossa agenda cultural. Numa semana em que o País, mercê das grandes manifestações do passado dia 15, parece ter tomado consciência de uma indignação que tardava em eclodir e em que surgiram numerosos sinais de repulsa por este executivo, o diagnóstico de Rui de Oliveira, médico bacteriologista, é particularmente oportuno.
Tendo estado presente em Lisboa naquele decisivo acto cívico (e político) e não sendo um dos seus promotores, surpreendeu-me a sua composição − tão distinta de concentrações anteriores – e da sua análise, que muitos já fizeram, importa retirar ensinamentos sobre como intervir de futuro e sobretudo, talvez, como não agir em tempos próximos.
Começando por aqui, é significativo que nem os convocantes (felizmente), nem os responsáveis partidários e sindicais (silenciosos antes) tenham pretendido capitalizar a dimensão expressa deste gigantesco descontentamento. Não o podiam nem deveriam fazer pois amargamente reconhecerão que a grandeza da manifestação popular, se centralmente se dirigia à recusa liminar dos sacrifícios impostos pelo Governo (a mando da troika ?), traduziu implicitamente a rejeição do constante manobrismo de partidos e sindicatos que, por mágico circunstancialismo (e também erro político dos próprios), se abstiveram de participar neste movimento. Daí que me pareça avisado fugir à tentação de alguns de apelar a integrar oportunísticas manifestações próximas, convocadas num espírito de rivalidade despeitada de quem vê os seus desígnios aparelhísticos (e partidários, reconheçam-no) em cheque. Que quem genuinamente reaje à agressão das medidas governativas e crê ser essa uma forma eficaz compareça, nada a opôr. Mas não alimentemos uma competição malsã e a realidade estatística se encarregará de mostrar a verdadeira dimensão sectorial destas iniciativas – por muito que se lamente a falta de visão política dos seus promotores presa de clichés ultrapassados e a instrumentalização a que submetem os trabalhadores representados.
Sobre como intervir no futuro a reflexão já é mais complexa.
Esperemos que o próximo “Congresso das Alternativas” em Outubro não tenha a pretensão de elaborar soluções de “enquadramento” político da movimentação expressa a 15 de Setembro ! Tudo o que signifique apontar um caminho único saído das mentes esclarecidas ali reunidas é limitativo da liberdade evidenciada no recente setembrismo. Que se analise o fracasso das tentativas de convergência na acção da chamada “esquerda” (suposta nacionalmente maioritária, o que está por provar…) é um esforço meritório e que, oxalá mercê deste “impulso de alma” recente, se não revele inglório. Há muito a remover de obstáculos dogmáticos às “soluções” até aqui propostas e há mesmo visões quase incompatíveis (vide a Europa) cujo debate sério e descomplexado pode ajudar à tarefa de construir plataformas de entendimento viáveis e susceptíveis de adesão popular. Ao propô-las, deixemos a liberdade aos cidadãos para as aprovar ou rejeitar.
Confesso que me satisfará, nos tempos mais próximos, que a decisão seja aferida pelo apoio (ou não) da população na rua.
Certamente que o choque político desencadeado pelo 15 de Setembro irá alterar, se não o próprio Governo, certamente as medidas que o mesmo forçadamente tomará. Não auguro nenhuma revisão drástica das mesmas nem vaticino qualquer providencialismo presidencial (na minha percepção política). Deixemos que elas se tornem públicas e aí ver-se-á como reagem os cidadãos deste Portugal (tão cantado nas manifestações), se varrem ou não de vez os autores desta política aviltante e imoral.
