Tinha dito em outros ensaios que faltavam dias no calendário para comemorar tanto dia internacional: da mãe, do pai, dos avós, dos netos, da mulher, da mulher que trabalha, da domesticidade, do amigo, da amizade, do escritor e outros. A solidariedade é comemorada em Portugal a vinte de Dezembro de cada ano. Como dia internacional, a vinte e um de setembro. Saibamos, porém, de que falamos por meio de um texto revisitado e emendado. Faltam ainda os dias dos viúvos, das viúvas, dos divorciados, dos anulados, caso estes últimos fossem possíveis l…Saibamos, pois, o que comemoramos neste dia.
O Grande Maestro lutou em favor dos que nada tinham e escreveu o livro de 1883, intitulado De la division du travail social. Étude sur lórganization des sociétés supérieures, Félix Alcan, Paris. O que ele denomina sociedades superiores, refere a sua própria forma de organizar a sua vida na França, a sua Nação. Não é desprezar aos já conhecidos povos de uma outra forma de organizar a vida, denominados nativos, povos que ele estudava e analisava, comparando as suas formas de vida como a dos franceses e outros povos europeus. A sua conclusão foi simples: havia dos tipos de solidariedade, a organizada pelo Direito, e a espontânea, nascida dos costumes populares, ou, para ele, Mecânica ou mutualidade espontânea Durkheim usava o conceito da orgânica, organizada pelo Direito e pela Economia. O seu texto é um debate com Adam Smith, como sabemos, sobre o seu livro de 1776: Um inquérito para conhecer as razões e causa da riqueza das Nações.
Adam Smith defendia formas liberais do comércio, Durkheim, de que o comércio devia estar regulamentado pelo Direito. Sabido é que Smith definia o trabalho como uma proclividade do ser humano a produzir. Durkheim o definia como o resultado da aplicação do proletariado para fabricar bens de propriedade dos industriais que possuíam meios de produção.
Durkheim, socialista, incriminava a um Smith liberal essa a sua ideia de investir onde e como o dono do capital pensar que era melhor. Durkheim, que leu, como Marx, com avidez o texto de Smith, advogava pela fiscalização do que devia ser produzido e pela intervenção do Estado no comércio entre pessoas. Durkheim pensou que as suas análises eram sobre o socialismo, mas reparou atempadamente na existência de um grupo político denominado socialista e decidiu que a sua descoberta, por sere sobre a sociedade e a sua interação, devia ser denominada Sociologia ou o estudo científico das sociedades humanas e dos factos sociais.
Porque científico e não apenas uma análise do que acontecia no mundo dos factos sociais? Não apenas eram factos, também era usado por ele na sua análise uma hipótese que abria o que ia estudar, a lógica para provar esses factos e os comparar com outros diferentes. Comparação que incitava uma nova ideia, investigada por ele de forma estatística para saber a quantia desses factos, especialmente os que eram diferentes ao requerido às pessoas dentro da vida em interação.
A sua melhor prova era esse o seu afã de usar o método comparativo dos afazeres de grupos de estratificação diferente numa mesma nação, tomando a vantagem de existis na sua sociedade os pobres e os ricos, com formas de agir diferente. Mas, o Mestre fundador da Sociologia, não ficara satisfeito com esse ponto de comparação. Procurou analisar o comportamento de grupos sociais de outros lugares do mundo, os, nesse tempo, denominados nativos. Nunca fez trabalho de campo, salvo nas indústrias de Paris para o seu livro O suicídio, publicado em 1897. Nem foi ao deserto da Austrália para estudar as formas de ser da etnia Arunta ou Aranda, denominada primitiva pelos australianos e por outros. Porque primitiva? Porque as suas formas de vida eram a de caçar sem instrumentos modernos, como espingarda, apenas perseguiam aos avestruzes que depois comiam. Ou com lanças, a caçada do javali, o seu melhor alimento. Os Aranda não guardavam aos animais para os criar em manadas e assim poupar esse correr de um sítio para outro para obter a sua alimentação.
Na língua dos Arunta, existia o conceito de solidariedade, que foi aprendido por um colaborador de Mauss das palavras de um sábio maori, mencionado no texto de 1924, Ensaio dobre a dádiva, a palavra hau, que em luso europeu significa reciprocidade.
A minha dúvida sobre se era conceito o sentimento, apareceu ao analisar as palavras do Chefe Maori Rainita Raini Puri, quem explica que os presentes, uma vez oferecidos, não podem ser devolvidos. Toda devolução seria uma ofensa e uma deslealdade para o oferente. No entanto, nasce uma obrigação que é a de oferecer outro bem. A minha dúvida, não exprimida no meu livro de 2008: O presente, essa grande mentira social, nasce das análises de Malinowski sobre o Kula ou o anel de comércio permanente entre os Massim da Kiriwina da Melanésia, quando reparei quer no autor citado quer nos apontamentos de Jerry Leach que de Antropólogo passou a ser Embaixador dos EUA na Grã-Bretanha e nunca acabou a sua tese, oferecendo os apontamentos e Diários de Campo ao nosso Departamento, onde são guardados, mas podem ser consultados com licença da Catedrática atual, antiga colega minha e muito amiga pessoal e de casa, como Sir Jack Goody, Dame Caroline Humphreys, quem os facilita. Foi ai que aprendi que a reciprocidade era a entrega de bens em troca de mulheres para casar. Se no nosso Departamento havia essa reciprocidade, ainda mais entre os Arunta e os Kiriwina. Nos trocávamos visitas e textos, eles, comida e mulheres para a sua reprodução.
A laia de conclusão, queria acrescentar neste texto o que não me lembrara de analisar no meu livro: a reciprocidade parece no entrar dentro dos factos solicitados para serem analisados por Durkheim, mas sim entre os rituais estudados por Mauss, especialmente o livro editado por ele e escrito por um discípulo morto na primeira Grande Guerra do Século XX, Robert Hetz, intitulado: Pecado e Expiação na nossa língua até o dia de hoje jamais traduzido ao luso português: Le péché et l’expátion dans les societés primitives, Gradhiva, Paris, 1988.
Parece-me que esta ideia a devo ter retirado dos textos do Durkheim, mas especialmente da minha própria análise sobre o pecado e a reciprocidade.
Durkheim esboça uma ideia da solidariedade como sentimento no seu texto de 1912: Les formes élémaintaires de la vie religuieuse, Félix Alkan, Paris.
A solidariedade pode ser, ou para estudar uma sociedade, um facto de apoio, mas também uma emoção passível de ser analisada para entendermos os grupos que estudamos. Solidariedade e reciprocidade são parte do comércio mas essencial para a reprodução social, donde, factos sociais que com prazer analisamos para entender esse eterno deambular dos Aranda, os Massim, os Kiriwina e nós próprios. Não há prazer maior entre nós, que sermos acolhidos pelos outros e recebermos presentes, como acabam por dizer Durkheim em 1912 e Mauss em 1924, analisado dos meus textos sobre este debate permanente que dá prazer, ensaio intitulado Reciprocidade, seminário dobre a temática na Universidade de Múrcia em 2001, publicado em 2003.
Não canso mais ao leitor. Apenas, é uma dica do que nunca se diz ou sabe dos tio e sobrinho, a dupla Durkheim Mauss que criam conceitos semelhantes quanto a factos e emotividade, um derivado do outro: reciprocidade de solidariedade,
Raúl Iturra,
21 de Setembro de 2012, Dia Internacional da Solidariedade.

