A SOLIDARIEDADE REVISITADA NO SEU DIA – por Raúl Iturra

                       

Tinha dito em outros ensaios que faltavam dias no calendário para comemorar tanto dia internacional: da mãe, do pai, dos avós, dos netos, da mulher, da mulher que trabalha, da domesticidade, do amigo, da amizade, do escritor e outros. A solidariedade é comemorada em Portugal a vinte de Dezembro de cada ano. Como dia internacional, a vinte e um de setembro. Saibamos, porém, de que falamos por meio de um texto revisitado e emendado. Faltam ainda os dias dos viúvos, das viúvas, dos divorciados, dos anulados, caso estes últimos fossem possíveis l…Saibamos, pois, o que comemoramos neste dia.

Em 1883, Émile Durkheim definia a solidariedade como o apoio e coordenação de pessoas entre si. Nenhuma sociedade seria capaz de funcionar se não houver apoio mútuo. Bem sabia Durkheim que essa solidariedade era uma ilusão, como socialista que era. Ideologia Socialista Democrata aprendida das suas leituras da obra de Karl Marx e de trabalhar com outro socialista, bem mais avançado do que ele, como Marcel Mauss. Durkheim apoiava a igualdade no seu texto acima citado e lutava pela abolição da propriedade privada, como refiro num livro escrito por mim em 2008: O Presente, essa grande mentira social. A mais-valia na reciprocidade. Porque acabar com a propriedade privada? Porque dividia à sociedade em classes: os que tinham bens e os que nada tinham. Estes, trabalhavam para os primeiros por um salário que nem permitia alimentar a família.

O Grande Maestro lutou em favor dos que nada tinham e escreveu o livro de 1883, intitulado De la division du travail social. Étude sur lórganization des sociétés supérieures, Félix Alcan, Paris. O que ele denomina sociedades superiores, refere a sua própria forma de organizar a sua vida na França, a sua Nação. Não é desprezar aos já conhecidos povos de uma outra forma de organizar a vida, denominados nativos, povos que ele estudava e analisava, comparando as suas formas de vida como a dos franceses e outros povos europeus. A sua conclusão foi simples: havia dos tipos de solidariedade, a organizada pelo Direito, e a espontânea, nascida dos costumes populares, ou, para ele, Mecânica ou mutualidade espontânea Durkheim usava o conceito da orgânica, organizada pelo Direito e pela Economia. O seu texto é um debate com Adam Smith, como sabemos, sobre o seu livro de 1776: Um inquérito para conhecer as razões e causa da riqueza das Nações.

Adam Smith defendia formas liberais do comércio, Durkheim, de que o comércio devia estar regulamentado pelo Direito. Sabido é que Smith definia o trabalho como uma proclividade do ser humano a produzir. Durkheim o definia como o resultado da aplicação do proletariado para fabricar bens de propriedade dos industriais que possuíam meios de produção.

Durkheim, socialista, incriminava a um Smith liberal essa a sua ideia de investir onde e como o dono do capital pensar que era melhor. Durkheim, que leu, como Marx, com avidez o texto de Smith, advogava pela fiscalização do que devia ser produzido e pela intervenção do Estado no comércio entre pessoas. Durkheim pensou que as suas análises eram sobre o socialismo, mas reparou atempadamente na existência de um grupo político denominado socialista e decidiu que a sua descoberta, por sere sobre a sociedade e a sua interação, devia ser denominada Sociologia ou o estudo científico das sociedades humanas e dos factos sociais.

Porque científico e não apenas uma análise do que acontecia no mundo dos factos sociais? Não apenas eram factos, também era usado por ele na sua análise uma hipótese que abria o que ia estudar, a lógica para provar esses factos e os comparar com outros diferentes. Comparação que incitava uma nova ideia, investigada por ele de forma estatística para saber a quantia desses factos, especialmente os que eram diferentes ao requerido às pessoas dentro da vida em interação.

A sua melhor prova era esse o seu afã de usar o método comparativo dos afazeres de grupos de estratificação diferente numa mesma nação, tomando a vantagem de existis na sua sociedade os pobres e os ricos, com formas de agir diferente. Mas, o Mestre fundador da Sociologia, não ficara satisfeito com esse ponto de comparação. Procurou analisar o comportamento de grupos sociais de outros lugares do mundo, os, nesse tempo, denominados nativos. Nunca fez trabalho de campo, salvo nas indústrias de Paris para o seu livro O suicídio, publicado em 1897. Nem foi ao deserto da Austrália para estudar as formas de ser da etnia Arunta ou Aranda, denominada primitiva pelos australianos e por outros. Porque primitiva? Porque as suas formas de vida eram a de caçar sem instrumentos modernos, como espingarda, apenas perseguiam aos avestruzes que depois comiam. Ou com lanças, a caçada do javali, o seu melhor alimento. Os Aranda não guardavam aos animais para os criar em manadas e assim poupar esse correr de um sítio para outro para obter a sua alimentação.

Na  língua dos Arunta, existia o conceito de solidariedade, que foi aprendido por um colaborador de Mauss das palavras de um sábio maori, mencionado no texto de 1924, Ensaio dobre a dádiva, a palavra hau, que em luso europeu significa reciprocidade.

A minha dúvida sobre se era conceito o sentimento, apareceu ao analisar as palavras do Chefe Maori Rainita Raini Puri, quem explica que os presentes, uma vez oferecidos, não podem ser devolvidos. Toda devolução seria uma ofensa e uma deslealdade para o oferente. No entanto, nasce uma obrigação que é a de oferecer outro bem. A minha dúvida, não exprimida no meu livro de 2008: O presente, essa grande mentira social, nasce das análises de Malinowski sobre o Kula ou o anel de comércio permanente entre os Massim da Kiriwina da Melanésia, quando reparei quer no autor citado quer nos apontamentos de Jerry Leach que de Antropólogo passou a ser Embaixador dos EUA na Grã-Bretanha e nunca acabou a sua tese, oferecendo os apontamentos e Diários de Campo ao nosso Departamento, onde são guardados, mas podem ser consultados com licença da Catedrática atual, antiga colega minha e muito amiga pessoal e de casa, como Sir Jack Goody, Dame Caroline Humphreys, quem os facilita. Foi ai que aprendi que a reciprocidade era a entrega de bens em troca de mulheres para casar. Se no nosso Departamento havia essa reciprocidade, ainda mais entre os Arunta e os Kiriwina. Nos trocávamos visitas e textos, eles, comida e mulheres para a sua reprodução.

A laia de conclusão, queria acrescentar neste texto o que não me lembrara de analisar no meu livro: a reciprocidade parece no entrar dentro dos factos solicitados para serem analisados por Durkheim, mas sim entre os rituais estudados por Mauss, especialmente o livro editado por ele e escrito por um discípulo morto na primeira Grande Guerra do Século XX, Robert Hetz, intitulado: Pecado e Expiação na nossa língua até o dia de hoje jamais traduzido ao luso português: Le péché et l’expátion dans les societés primitives, Gradhiva, Paris, 1988.
Parece-me que esta ideia a devo ter retirado dos textos do Durkheim, mas especialmente da minha própria análise sobre o pecado e a reciprocidade.

Durkheim esboça uma ideia da solidariedade como sentimento no seu texto de 1912: Les formes élémaintaires de la vie religuieuse, Félix Alkan, Paris.
A solidariedade pode ser, ou para estudar uma sociedade, um facto de apoio, mas também uma emoção passível de ser analisada para entendermos os grupos que estudamos. Solidariedade e reciprocidade são parte do comércio mas essencial para a reprodução social, donde, factos sociais que com prazer analisamos para entender esse eterno deambular dos Aranda, os Massim, os Kiriwina e nós próprios. Não há prazer maior entre nós, que sermos acolhidos pelos outros e recebermos presentes, como acabam por dizer Durkheim em 1912 e Mauss em 1924, analisado dos meus textos sobre este debate permanente que dá prazer, ensaio intitulado Reciprocidade, seminário dobre a temática na Universidade de Múrcia em 2001, publicado em 2003.

Não canso mais ao leitor. Apenas, é uma dica do que nunca se diz ou sabe dos tio e sobrinho, a dupla Durkheim Mauss que criam conceitos semelhantes quanto a factos e emotividade, um derivado do outro: reciprocidade de solidariedade,

Raúl Iturra,

21 de Setembro de 2012, Dia Internacional da Solidariedade.

lautaro@netcabo.pt

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