Essa agora! É que nem dá nem para entender! Faltam dias no calendário de um ano, para comemorar tantos dias internacionais; da mulher, do amigo, do pai, da mãe, faltam ainda os de o cão e o do gato ou o dia Internacional dos animais domésticos! Antes, como escrevi no dia da queixa contra o Dia Internacional do Amigo, eram os dias dos santos, esperados com uma certa ansiedade por dar direito a folga. Quem inventou estes dias, deve ser um comerciante para vender mais, especialmente em épocas de crises económicas pelas que estamos a passar!
Tenho cinco netos e netas. Dou-me bem com eles. Sempre me visitam e trazem-me presentes. Há os que me dizem Opa, há que me denominam Gran-Pa, os que dizem Abuelo, há os que me chamam tio-avô, todos eles queridos e mimados.
Quem criou estes dias não foi nem as Nações Unidas nem Amnistia Internacional, à qual eu pertenço! Deve ser a Associação de Comerciantes que não conseguem vender a sua bagagem o seu estoque de mercadorias.
Mercadorias que apodrecem nas suas lojas.
Parece-me um insulto o dia Internacional dos Avós. Uma relação tão cuidada, uma emotividade ativa, íntima, pessoal, a festa da intimidade que acontece todos os dias no cuidado de não mimar aos filhos dos nossos filhos para que aprendam a viver sem hau e sem mana como definiram Malinowski em 1922 e Mauss em 1924.
Esse hau dos Maori que obriga a devolver a prenda oferecida, o esse mana que não é o diminutivo de irmã, mas sim o halo na cabeça de quem nos guia pelas ruas da amargura no decorrer da vida. Quer a minha mulher, quer eu, ficamos ofendidos por revelar as conexões especiais e íntimas entre adulto maior e os mais novos que começam a entender os trilhos da vida. Esses trilhos que nos causam ansiedade porque, pela experiência vivida como pais, vemos o perigo do gatinhar do mais novo mas nada podemos dizer por corresponder aos pais educar, da mesma forma e maneira em que nos fizemos com a nossa descendência, em que nem pio saia da boca dos nossos pais por nos impedir a má criação dos eternos presentes oferecidos, o que os nossos bolsos não permitiam comprar e correspondia aos mais novos habituar-se à pobreza da vida. Dizem por ai que os Avós somos para mimar os netos em todo aquilo que os pais no conseguem, por estarem a iniciar a sua acumulação de lucros para investir na educação de filhos para quando o tempo chegar.
Se me falam da padroeira do bairro de Triana em Sevilha, Santa Ana a avó de Jesus, por ser a mãe de Maria, outro galo cantaria. A minha família que habita esse bairro o são membros da Corte da Rainha de Espanha que procurou Sevilha para sentar a sua Corte, ai entedia mais. As avós estavam sempre a treinar às netas mais novas para o seu novo ofício e servidão. É sabido que não sou um homem de fé, mas Santa Ana, a avó, merece todo o respeito por nunca se ter intrometido na vida de Maria e as suas formas de criar o denominado salvador do mudo.
Sermos Avós, é uma relação carismática que merece todo o respeito dos outros: é um ser e não ser. É o silêncio perante as barbaridades do comportamento infantil. Não é em vão que Luís Sila Pereira, no ano dois mil de este Século, nos diga que entre a Nação Mapuche do Chile todos os pais são pais do exército dos mais novos, donde, avós de todos os filhos dos filhos. Ou José António Bengoa quem tem gastado a sua vida em estudar e escrever sobre indigenismo e define as relações parentais em 1999, na sua Historia do Povo Mapuche.
Dia Internacional dos Avós? Por favor, no me sujem a água de ser o mais velho do nosso grupo doméstico. Comemorem Santa Ana, que não faz mal, bem ao contrário, permite aos adultos maiores ainda sem netos, sentem-se apoiados pela festividade da Avó, um dia público que dá direito a folga e procissão.
Paro aqui. A minha ancianidade de ser Avô está ofendida e não perdoo aos que criaram este dia. O meu orgulho é o de ser Avô todos os dias da minha vida! Mais uma vez, não me sujem a água do outono da minha vida, façam como os Massim da Kiriwina: o pai da mãe, esse tio materno, é também avô do sobrinho que passa a ser também o seu neto, toma conta dele, gere os seus bens e o ensina a trabalhar, como Malinowski define em 1926, no seu texto Crime and Custom in Savage Society, Routledge and Kegan Paul, Londres. Os selvagens somos nós, que por todo ou por nada, criamos mais um dia Internacional, que arruínam a nossa relação sincera, que causa a alegria do lar.
Não dá para entender, excepto a crise económica pela que atravessamos! Que tenta ser compensada pelos dias referidos antes.
