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EM VIAGEM PELA TURQUIA – 14 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Interrompemos» a viagem para falar de ópio e seus derivados

 É da cápsula de sementes do fruto da papoila ainda não maduro que, depois de seco, se extrai uma resina que origina uma pasta que, ao ser fervida, se transforma em ópio. Tem uma composição química de alcalóides (cerca de 20%) classificados em dois grupos principais: o piridino-fenantreno, como a codeína (utilizada como anestésico, analgésico e antitússico) e a morfina (que é um analgésico e um narcótico), e o isoquinolínico, como a papaverina (que é um relaxante muscular e um vasodilatador cerebral) e a noscapina ou narcotina (utilada como antitussígeno, sudoríparo e antipirético).

 Para além destes, encontram-se também a tebaína e alcalóides como meconina, meconiasina, narceína, codamina, laudanina e a protopina. No ópio são ainda encontrados ceras, açúcares e pequenas quantidades de sais de cálcio e magnésio.

 No século XIX sabia-se da dependência que a cocaína provocava, o que levou o farmacêutico inglês Alder Wright a procurar uma alternativa e, assim, ao aquecer até à ebulição a cocaína com anidrido acético, criou a diacetilmorfina, que conhecemos pelo nome mais popular de heroína em 1874, obtendo deste modo um dos melhores analgésicos que se conhecem. Em 1898 entrou no mercado por um curto período, pois viria a ser retirada do mercado cinco anos depois pela dependência que causava.

 O francês Armand Seguin, no início do século XIX, consegue extrair do ópio uns cristais incolores que conhecemos como sendo a morfina, embora a descoberta tenha sido atribuída a Friedrich Sertürmer, o qual, em 1817, lhe deu o nome de «morphium» (Morfeu = deus do sono), alcalóide que, tomado por via oral, não tem qualquer inconveniente, tendo sido administrado na forma de injecção subcutânea já na guerra de 1870 para anestesiar os feridos.

 A partir da morfina, também o químico alemão Dreser conseguiu sintetizar a heroína, muito mais potente do que a morfina, que viria a ser introduzida livremente no mercado como medicamento nos últimos anos do século XIX e depois retirada, como acima se diz.

 Dos malefícios do ópio também não existem dúvidas, levando a pessoa dele dependente a perder a sua capacidade de trabalho, tornando-se indolente e chegando mesmo à perda do desejo sexual. A dependência física da droga é uma das consequências para todos quantos a tomam; a sua interrupção produz tremores, vómitos, diarreia, dores em todo o corpo assim como delírios e até mesmo colapsos.

 O uso do ópio no mundo antigo –civilizações egípcia, mesopotâmica, persa, grega e romana- está profusamente documentada, pelo menos desde o século XV antes da nossa era, sendo utilizado em mais de 700 remédios. Era bem conhecido dos grandes médicos gregos, como Hipócrates e Galeno, tendo este feito um estudo sobre os efeitos tóxicos da droga que levou a que o ópio fosse recomendado para a cura da epilepsia, bronquite, asma, pedra nos rins, febre e também como sedativo, para além de ser considerado como tranqüilizante, óptimo para a diarreia e muitos outros fins medicinais.

Se muitos povos utilizavam o ópio como analgésico ou durante as cerimónias religiosas, os romanos consideravam a papoila uma arma e por isso a terão utilizado em suicídios e assassinatos. O cartaginês Aníbal, por exemplo, suicidou-se ingerindo uma boa dose de ópio que guardava no seu anel.

Na civilização grega, o ópio tinha uma utilização bem diferente; enquanto as iniciadas no culto de Deméter o tomavam para esquecer a tristeza com a chegada do fim do ano, procurando um curto sono pela droga, o que simbolizava a passagem do Inverno até ao rejuvenescimento trazido pela Primavera, os soldados misturavam-no com o álcool, assim banindo o medo e, consequentemente, ganhando coragem para as batalhas.

Na Idade Média, o ópio era sobretudo utilizado para aliviar a dor. O grande médico Avicena não deixou de o utilizar, acabando mesmo por morrer com uma superdose de ópio misturado com vinho, o que deve ter levado Maomé a dar uma volta no túmulo, já que tinha proibido o álcool aos muçulmanos, o que o Corão bem regista.

 Cinco séculos depois surgiria um grande alquimista, Paracelso, que viria a considerar o ópio como «elixir da vida» e «marco da imortalidade», mandando às urtigas os ensinamentos dos seus antecessores.

No século XIX a história é bem outra. O consumo do ópio tornou-se tão habitual como hoje a aspirina, aumentando mesmo o seu consumo, na primeira metade do século, quase 2,5% ao ano. Para termos uma ideia do aumento que havia do seu consumo, em 1830 eram importadas pela Grã-Bretanha cerca de 40 toneladas, mas, 30 anos depois, essa importação chegava quase às 130 toneladas, das quais cerca de 30% eram exportadas para os Estados Unidos da América.

Reza a história que a burguesia inglesa recorria ao chamado “Pó de Dover”, que era um remédio com uma forte dose de ópio, aparecido nos primeiros anos do século XVIII.

(Continua)

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