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O PATO ALGEMADO – V – por Sérgio Madeira

                                          O Pato algemado – V

Hoje vamos começar por contar uma história que não é de patos, mas sim de ratos e de gatos. Há países parecidos com a Ratolândia. O pato está a lembrar-se de um, mas não diz qual é…

O estranho caso do pastor alemão – A sapateira prodigiosa  – por Sérgio Madeira

“A cultura nunca fez mal a ninguém”, sentenciara o inspector Pais, fechando com chave de ouro um briefing na PJ em que, estranhamente loquaz, dissertara sobre o palimpsesto e  o imprinting as duas teorias em que Marlove baseava toda a sua acção. Porém, a cultura às vezes é prejudicial. Sobretudo quando se lhe junta a tese de que tudo o que é importante subjaz escondido por ilusórias aparências – a tese do palimpsesto. Já iremos ver porquê.

Saíra nessa manhã da Igreja Luterana de Darmstadt onde estivera a conversar com o pastor Franz Boagren. A conversar é como quem diz – O pastor além do alemão falava um inglês desenvolto. Filipe além do português e das noções de língua castelhana que todos os portugueses julgam ter, frequentara um curso de inglês no Instituto Cambridge, depois de ter comprado um curso da BBC em cassetes… self study … Bem, resumindo, não sabia inglês. Sabia o  suficiente para perceber que estava na pista errada.

O reverendo entendendo vagamente o que estava em causa, apresentara (com um sorrisinho irritante) provas de como na data e à hora em que Emanuel de Sousa Figueira fora morto estava a oficiar no templo. Uma das provas era uma foto do pastor a falar aos fiéis e a data do jornal coincidia. Nunca estivera em Portugal. Trocara correpondência com um arcipreste da Igreja luterana portuguesa sobre a publicação em português do seu livro  «Como falar com Deus em 20 lições». Sousa Figueira fora, durante umas semanas, fiel do luteranismo, mas quando lhe chegara o pedido para subsidiar a edição, já estava noutra confissão – a mórmon… Mas, que raio, Filipe, não queria pensar no maldito caso do pastor alemão…

Houve o caso da sapateira… Ou melhor da industrial de calçado  Maria Teresa Corselle, encontrada morta no seu apartamento no Parque das Nações – três tiros na cabeça, calibre 22, arma de desporto. Suicídio parecia estar fora de questão (-Lógico! – decidira o Pais). Maria Teresa estava separada do marido e tinha um novo companheiro – ambos com álibis indestrutíveis. No funeral houve uma troca de insultos e de acusações. O marido, referindo-se à falecida, dissera: «Essa puta…» Fora o Pais que os separara com a máxima de André Brun – «Uma mulher não se disputa… conquista-se». E naquele caso nada havia a conquistar. A não ser recordações.

Quando Maria Teresa Corsselle apareceu morta, o inspector Pais, a quem a investigação foi distribuída, marimbou-se para a teoria e prendeu o óbvio criminoso – um artista, um designer fora despedido, após uma discussão violenta. Maria Teresa atribuíra a perda de um negócio ao trabalho do designer.  Tony era aquilo a que antes de haver o “politicamente correcto” se chamava um mariconço. Tinha-se esboçado uma cena de pugilato e o Tony Cardoso, chamara putéfia à Teresa (que antes lhe chamara panilas de merda) e, toda a gente ouvira, Tony ameaçara matá-la..Pais prendera-o de imediato.   Mas agora dizia com ar pesaroso: – Então, não é que o Cardoso tem um álibi indestrutível? Estava no Pedro dos Leitões, em plena Bairrada, com um grupo de panascas… E não são só os amigos que confirmam. O Tony abusou do frisante e dançou uma sevilhana… Há dezenas de testemunhas.

Filipe ria com o seu ar modesto – Claro! O Pais, resmungou – Pois, essa coisa – O Palim sexto…

Estavam no café da Avenida Duque de Loulé.

– Palimpsesto – rectificou o Marlove – Disse que havia uma nota na agenda da Corsselle… O  Pais abriu a pasta e consultou um relatório. Leu: »A Sapateira Maravilhosa», Madrid, 13, quarta. Federico García Lorca! – Isto nada deve ter a a ver – deve ser um Frederico, um cliente. Já pus um agente a investigar. Filipe Marlove, sem prestar atenção, abrira o portátil e teclava com rapidez. Ao cabo, de uns momentos, disse. – Se calhar tenho de ir a Madrid:

– Fazer o quê? – O Pais mastigava um pastel de bacalhau.

La Zapatera Prodigiosa, está em últimas exibições no Teatro Lope de Vega…

-Ah sim? – o Pais deu início ao segundo pastel – E o que tem isso a ver com as calças?

Filipe Marlove, fez um sorriso condescendente.

O Pais atalhou – Bem ou é o Palim sexto ou o Emprinting

A seguir – A sapateira prodigiosa e não só

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