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A propósito do texto “Serviço Nacional de Saúde e Exploração capitalista da saúde” de Adão Cruz – Israel Cohen

(Adão Cruz)

O Estuário do dia 10 de Setembro “Serviço Nacional de Saúde e Exploração capitalista da saúde” mereceu este comentário do colega  Israel Cohen. Pela sua importância como testemunho, aqui o transcrevo, com os meus agradecimentos ao ilustre amigo.

 

É isso mesmo, meu caro Adão,

Fui o orientador de formação de algumas dezenas de Internos da Especialidade de Cardiologia. Dizia-lhes logo no 1º ano em que os recebia: Não há a mínima hipótese de passagem de ano, se não souberem fazer uma completa história clínica do doente, se não forem competentes na semiologia, se não pedirem só os exames complementares de diagnóstico indispensáveis para formular o diagnóstico definitivo e orientação terapêutica. Por fim, eram-lhes distribuídos temas que teriam que estudar, a serem discutidos ao longo dos meses seguintes. Foi assim que sempre entendi a formação dos Internos.

Mesmo assim, ia notando a crescente tendência para a requisição de exames dispensáveis…

Ora, as coisas foram mudando ao longo dos anos, até que se chegou a um extremo insustentável, como se tornou desde há largos anos evidente… parte-se, ab initio, sobretudo da imagiologia e de uma “bateria” de exames que pretendem “by passar” todo aquele caminho indispensável de formação médica, deixando obviamente o doente de lado…não é necessário falar com ele nem conhecê-lo…e o médico passa a ser um mero técnico (sem qualquer menosprezo pelos técnicos).

À medida que estas transformações se iam processando, e como consequência lógica, os doentes passaram a chamar-se utentes e hoje não serão mais do que clientes e, por que não “fregueses”, subvertendo toda a relação médico – doente (penso que foste tu que há uns tempos atrás, te referiste a um colega nosso que dizia a um doente, após este ter dito meia dúzia de palavras – “Acabou-se o seu tempo de antena…”

A iatrogenia, sob todos os aspectos em que a classificaste, tornou-se evidente e assustadora.

Como se sairá deste círculo vicioso, com todo o enorme desperdício de trabalho, de vontades, de intelecto, de potencialidades, de capacidades e também, claro, de dinheiro, não te saberei dizer, meu caro Adão.

Só sei que a solução não estará certamente nestes bacocos governantes que, uns após outros, têm a firme vontade de aniquilar, pura e simplesmente, tudo o que levou tantos anos, contra ventos e marés, a construir.

Belo texto o teu, meu caro Adão.

Um abraço.

Israel

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