(Continuação)
Ainda neste período, o Imperador chinês Ch’ung Ch’en lembrou-se de proibir, em 1839, o consumo da droga, e como hoje nós podemos compreender a razão do Imperador!, esquecendo-se, no entanto, dos lucros que essa droga dava à Grã-Bretanha, o que levou esta a entrar em guerra com a China, a Guerra do Ópio, que duraria três anos, terminando com a derrota da China, liberalizando-se assim a importação do ópio pela China, que teve ainda de pagar uma indemnização à Grã-Bretanha pelo ópio que tinha sido confiscado e destruído nesses três anos, obtendo ainda a incorporação no Império da Grã-Bretanha da cidade de Hong-Kong. Mas a consequência mais grave para a China foi chegar ao início do século XX com metade da sua população masculina viciada na droga.
Cena da Guerra do Ópio
Até Baudelaire, no século XIX, escreveu em os «Paraísos Artificiais», que o ópio «leva à clareza mental, aguça as potencialidades da índole, estimula o sonho e suscita a abundância de imagens e fantasias elevadas», para logo acrescentar que «o seu uso contínuo é responsável pela perda do controlo do processo imaginativo e da capacidade de trabalhar».
Também em França o ópio se vai divulgando, criando uma grande dependência já em meados do século XIX, havendo, nomeadamente em Paris e nos portos de Bordéus, Toulon, Marselha, casas de fumo semi-clandestinas. A colonização da Indochina torna a situação ainda mais grave pela acessibilidade que possibilita ao ópio, permitindo a divulgação pela França dos locais onde se podia fumar ópio, os quais, no início do século XX, eram já milhares. Na Grã-Bretanha, o inglês Thomas de Quincey foi um dos primeiros dependentes desta droga.
A China, primeiro país a proibir o consumo do ópio, ver-se-ia obrigado, ao perder a chamada Guerra do Ópio, como acima se relata, a abrir a comercialização do ópio aos portos europeus, tornando-se no primeiro produtor no século XIX, com 30.000 toneladas, deixando para trás países como a Índia, a Pérsia e… a Turquia!
A grande emigração chinesa para os Estados Unidos da América do Norte levou consigo a importação do ópio, divulgando-se de tal modo que o governo teve de tomar medidas que levaram à proibição não só do ópio como de todas as drogas perniciosas, permitindo apenas a utilização dos seus derivados para fins médicos, no que seria acompanhado por treze países em 1909, instaurando-se uma Comissão Internacional do Ópio numa conferência que teve lugar em Xangai. A proibição do comércio livre do ópio aconteceu em França no final de 1908.
Mas o «fruto proibido é o mais desejado» e a internacionalização do tráfico e o aumento do consumo de drogas é um facto que perdura nos dias de hoje, com um mercado globalizado preocupando todos os responsáveis pela saúde das populações, vendendo-se o ópio no mercado negro em barras ou em pó, embalado em cápsulas e em comprimidos.
Foi depois da II Guerra Mundial que a produção do ópio aumentou consideravelmente, multiplicando-se as refinarias de heroína, não só no Sudeste Asiático, mas também na Europa, com destaque para Marselha, proliferando as quadrilhas de traficantes pelo Mundo, criando o hoje próspero mercado negro, com particular destaque nos Estados Unidos da América do Norte.
Também poderíamos recordar muitos outros nomes do mundo artístico, que os jovens logo desejavam imitar, com as consequências que hoje bem conhecemos, importando aqui sublinhar que o consumo dos opiáceos provoca mudanças bioquímicas ao nível molecular, o que nos permite afirmar, com base nos estudos científicos, que essas mudanças são permanentes, tendo como consequência que um consumidor que tenha deixado a droga não possa considerar-se curado para sempre, existindo nele uma predisposição que o pode levar a retomar o seu consumo.
Para fins medicinais, o ópio é permitido desde que prescrito por médicos e para doenças específicas, como o cancro no estômago; no que respeita à morfina, no entanto, a sua aplicação na medicina tem diminuído graças à introdução dos narcóticos sintéticos.
(Continua)
