Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Daniel Gros, 11 Outubro de 2012
A Suíça fixou o valor da sua moeda em termos do euro, o peg, e a um nível que ajuda a sustentar um excedente na balança corrente de 12% e uma das mais baixas taxas de desemprego na Europa. Neste texto argumenta-se que a paridade do franco suíço face ao euro estabelecida pelas autoridades suíças, o peg, envolve a manipulação de moeda tanto quanto tem a ver com a Europa, manipulação na mesma ordem de grandeza da intervenção na China. Isto tem tido um impacto significativo sobre a taxa de câmbio do euro e um efeito não negligenciável sobre a economia da zona euro
Um excedente na balança corrente é o espelho de uma exportação de capital. Um país que está a ter persistentes excedentes da balança de transacções correntes, está então de modo persistente a exportar capital. Uma questão importante a considerar é a de saber qual é o sector que está a investir no exterior, se o sector privado ou se o sector público. S e é o sector público que investe no estrangeiro, em particular e se isso for feito pelo banco central através da acumulação de reservas cambiais, isto é frequentemente chamado de ‘manipulação de moeda’.
Um indicador habitualmente utilizado para determinar o grau ao qual um país manipula a sua moeda é o valor acumulado de reservas cambiais em relação ao PIB.
A tabela abaixo mostra o grau de intervenção cambial para dois países, que chamaremos de “CH”, a Confederação helvética, e “Ch”, ou seja a China.
O grau de influência sobre a moeda nacional pode ser medido de duas maneiras:
- O valor das reservas em divisas relativamente ao PIB, ou
- A alteração nas reservas cambiais acumuladas ao longo do passado recente, novamente em relação ao PIB.
A tabela 1 mostra que, em todas estas medidas CH emerge como maior manipulador’ do que o país a que chamamos ch. Em meados de 2012, o valor das reservas cambiais (em grande parte realizada em euros) de CH elevou-se a um valor perto de 70% do PIB; quase o dobro relativamente a Ch que era de cerca de 40% do PIB. Nos últimos 12 meses Ch, na verdade, deixou de intervir, mas isso pode ser devido a factores transitórios. A perspectiva de três anos, portanto, pode ser mais apropriada. Mas mesmo durante este período mais longo, também se verifica que CH manipula mais de Ch.
Table 1. Reservas cambiais, valores globais acumulados e fluxos em percentagem do PIB.
Fonte: Cálculos do autor sobre dados dos bancos centrais e do FMI. Nota: 3 anos de mudança refere-se à mudança durante o período de Julho de 2009 a Julho de 2012. As mudanças em relação ao PIB são calculadas considerando o PIB médio ao longo do período.
Na realidade Ch(ina) é um país muito maior, e o montante total das suas intervenções são muito maiores do que as de CH (Confoederatio Helvetica). A China tem acumulado mais €2630 mil milhões (3 milhões de milhões de dólares) como valor das suas reservas, sete vezes mais (‘apenas’ sete vezes dada a diferença no tamanho da economia, que é quase de 12 para 1) contra cerca de €340 mil milhões (400 mil milhões de dólares) da Suíça. Mas este último montante não é insignificante na escala da Europa. Além disso, a maioria das reservas de divisas da China é investida em dólares, enquanto que se considera que a Suíça tem investido principalmente em euros.
Na ausência de divulgação de dados, apenas se pode tentar adivinhar a composição monetária das reservas da China. De acordo com várias estimativas, cerca de 20-25% das reservas totais da China são mantidas em activos denominados em euros. Isto implica que nos últimos três anos o Banco Popular da China adquiriu cerca de €270 mil milhões de euros , enquanto a Suíça adquiriu aproximadamente €170 mil milhões, um pouco menos, mas fundamentalmente de uma ordem de grandeza relativamente semelhante.
Table 2. O valor estimado das reservas detidas em euros
Source: Swiss National Bank and People’s Bank of China Note: Os dados referem-se a Julho de cada ano.
A importância das intervenções em moeda estrangeira do Banco Nacional Suíço para a taxa de câmbio do euro também pode ser ilustrada da seguinte maneira. O Banco Nacional Suíço interveio no mercado do euro, no montante de €173 mil milhões nos últimos três anos. Se o BCE queria neutralizar o impacto desta posição sobre a taxa de câmbio do euro, deveria ter comprado uma quantidade equivalente de moeda estrangeira, digamos de dólares, colocando euros no mercado para impedir assim a sua valorização face ao dólar. É claro que se o BCE tivesse comprado US $210 mil milhões (€173 mil milhões), o euro provavelmente seria hoje uma moeda muito mais fraca contra o dólar. Uma intervenção do BCE desta escala certamente seria qualificada como uma verdadeira ‘guerra cambial’ e teria levado a conflitos significativos entre as grandes potências monetárias. Por outro lado, a intervenção Suíça terá causado uma muito pequena ondulação.
O resultado é que ao longo dos últimos anos, o o Banco Nacional Suíço comprou uma grande quantidade de euros para manter o Franco suíço artificialmente fraco e desde Setembro de 2011 é definido um limite oficial baixo contra o euro. No entanto, este facto não tem atraído sequer um comentário superficial por algum dos formuladores de políticas económicas de um qualquer lugar na Europa, sobretudo quando verificamos que as intervenções chinesas, que se elevaram a muito menos em termos de PIB (e que pararam nos últimos 12 meses) são quase universalmente condenadas em ambos os lados do Atlântico. O tratamento diferenciado é ainda mais surpreendente se tivermos em mente que a Suíça está a ter uma balança corrente equivalente a mais de 12% do PIB contra menos de 3% do PIB para a China.
