UMA GUERRA DE MOEDAS NEGLIGENCIADA NA EUROPA, de Daniel Gros. Parte II.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

(continuação)

O lado suiço desta história

A versão oficial da história Suíça é simples. Durante  mais de uma década o país tinha tido  grandes e crescentes excedentes da balança de transacções  correntes e manteve uma taxa de câmbio estável (contra o euro) sem a necessidade de qualquer intervenção, provando que estes excedentes constituíam um equilíbrio de mercado. No entanto, com a eclosão da crise financeira os  ‘especuladores’ começaram  a considerar o Franco suíço um refúgio seguro, levando  a moeda a um nível em que o sector de exportação suíço não poderia competir por muito mais tempo. Deste ponto de vista, o Banco Nacional Suíço interveio pesadamente e, em seguida, o fixing da taxa de câmbio contra o euro foi assim inteiramente justificado.

No entanto, essa visão apologética não leva em conta que a estabilidade sem nenhuma intervenção foi até 2008 apoiada por uma combinação de factores que é improvável voltarem a verificar-se em conjunto pelo menos, uma vez que os governos austríacos e as  famílias de todos os  novos Estados orientais da UE estavam dispostos a endividar-se em francos suíços por causa de suas taxas de juro mais baixas. Além disso, o boom de crédito global tinha dado a  entender que o investimento no exterior era tão seguro como o investimento interno.  Esta ilusão foi agora quebrada e os investidores privados têm-se compreensivelmente apressado  em  descarregar   os seus riscos cambiais  no banco nacional suíço. A posição oficial é bastante simples na sua assimetria.

As saídas de capitais são consideradas um fenómeno de equilíbrio durante a ascensão de um ciclo de crédito, mas as entradas  de capital durante a desaceleração são “especulativas” e, portanto, devem ser neutralizados.

A denúncia de que os fluxos são “especulativos” e que assim teriam  que ser combatidos não soa bem  se entrarmos em linha de conta  que mesmo hoje as reservas  cambiais do Banco nacional Suiço são  ‘apenas’ dois terços da soma dos excedentes de conta corrente do país que este acumulou ao longo dos últimos vinte anos. Muitas vezes também  se argumenta que uma excessiva valorização do franco suíço prejudicaria o turismo e as indústrias de exportação. Mesmo deixando de lado que a Suíça tem uma das menores taxas de desemprego na Europa, esse argumento não faz sentido. É claro que uma década de grandes excedentes da balança corrente leva a uma estrutura económica que não consegue sobreviver quando os fluxos de capital se invertem. Uma política cambial  que pretende consolidar uma estrutura industrial em que esta só possa  sobreviver com uma taxa de câmbio que produz um excedente de balança  corrente a dois dígitos é claramente querer exportar o desemprego para o seu vizinho, é uma política de desvalorização  competitiva,  beggar thy neighbour policy.

Tudo é então bem  claro  e  as acções do Banco Nacional Suíço para manter o Franco suíço a um valor  baixo e assim perpetuar um excedente da abalança corrente  de mais de 12% do PIB, tiveram um impacto significativo sobre a taxa de câmbio do euro e, portanto, um efeito não negligenciável sobre a economia da zona euro.

A taxa de câmbio do  franco suíço relativamente ao euro é importante por si só,  tendo em conta que as exportações dos países da zona euro para a Suíça são  aproximadamente o mesmo que as exportações para a China (em ambos os casos na ordem dos  €90 mil milhões em 2011). Além disso, o excedente suíço da sua  balança de transacções correntes  é relevante à escala da zona euro sendo equivalente a perto de 1% do PIB da zona euro ou ainda equivalente aos défices combinados da França e da Itália. O peg da Suíça relativamente ao euro tem então levado a que o necessário ajustamento  a realizar-se no interior da zona euro (eliminação do défice  da balança de transacções  correntes no Sul combinado com a criação de mais baixos  excedentes no Norte) se tenha tornado  significativamente mais difícil.

Além disso, a maioria dos investimentos do Banco Nacional Suíço denominados em euros foram presumivelmente em depósitos bancários e em títulos dos países do núcleo central da zona euro. Isto significa que as suas intervenções têm levado a um excesso de liquidez ainda maior dentro do sistema bancário alemão e assim tem-se contribuído materialmente para os enormes créditos acumulados pelo Bundesbank dentro do sistema Target 2.

Daniel Gros,..,…..
(continua)

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