UMA GUERRA DE MOEDAS NEGLIGENCIADA NA EUROPA, de Daniel Gros – Introdução.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

A crise europeia é culpa dos que protestam na rua, diz-nos Joaquim Aguiar,  a crise europeia  é culpa da Suíça, diz-nos Daniel Gros: duas leituras para branquear a responsabilidade das Instituições Europeias na crise que nos assola.

Uma Introdução ao texto Uma guerra de moedas negligenciada na Europa de Daniel Gros

Um texto curioso, mais um, de Daniel Gros, o director  do think tank  Centre for European Policy Studies, sobre uma suposta guerra de moedas na Europa. Um texto a branquear Bruxelas face à terrível crise que corre o risco de destruir a própria unidade europeia, um texto que assim nos levanta a nós próprios a questão de se a União Europeia, se Bruxelas,  deve merecer apenas um  Prémio Nobel, o da Paz, ou se dois,  o da Literatura também, pela elegância dos seus textos, dos seus tratados que convencem até homens bem sabidos como Daniel Gros das suas supostas muitas virtudes e da sua suposta  ausência de defeitos. Talvez este último Prémio ficasse este ano melhor entregue a Bruxelas que a Pequim, elegância por elegância na balança. À  luz do texto de Daniel Gros, talvez mereça os dois Prémios, pensamos nós, até porque a conclusão a que chega este importante economista, defensor de Bruxelas e dos seus Tratados,  é de que a culpa da crise europeia é afinal da Suíça!

Com este texto de Daniel Gros, pretende o autor dar-nos uma outra explicação para a crise e, no mínimo, poderemos dizer que se trata de uma explicação bem curiosa, em que se acusa a Suiça de ser um vector de grande responsabilidade da crise na Europa.  Trata-se de um texto curioso  não tanto pelo que pretende dizer mas pelos factos que enuncia, que ilustra,  e em que parte deles,  ou não os comenta, porque inconvenientes para a lógica de Bruxelas ou porque os comenta de uma forma tão caricata que não tem qualquer credibilidade. Nos seus comentários quer claramente  esconder a responsabilidade de Bruxelas face à crise na Europa, procura um responsável em última instância da crise e, pasme-se, encontra-o, é a Suíça.

O autor descobre, a partir da enumeração de dados importantes a permitir uma leitura bem diferente, que a culpa da crise europeia está na manipulação da paridade cambial franco suíço contra o euro! Essa é a sua conclusão, mas o seu texto é importante, não apenas porque mostra a mistificação desencadeada pelos neoliberais apoiantes de Bruxelas  como ele próprio, mas também porque os factos que assinala, esses, estão bem expostos no texto, a mostrar-nos uma Europa emparedada pelas trocas comerciais desequilibradas, sejam elas com a Suíça ou com a China, de uma Europa emparedada pela presença de paraísos fiscais a que o autor não dedica nem uma só linha, de uma Europa emparedada pela desregulação total dos mercados e pelos desequilíbrios comerciais instalados no interior da zona euro e da zona euro para com o exterior, também. Tudo isso significa, o que o autor não diz, que estamos perante uma lógica europeia de submissão aos mercados mesmo que estes estejam pelo outro lado, pelo lado da contraparte às relações com a Europa, sujeitos a intervenções estatais que neste contexto se podem assimilar a manipulações de mercado cambial. Nada disto interessa aos nossos dirigentes de Bruxelas que pensarão como qualquer mortal que não importa o que os outros façam, desde que nós, Bruxelas, façamos como nos mandam os nossos princípios. Bela moral, mesmo que com isto desapareçamos enquanto Europa soberana, independente, enquanto Europa solidária, para que os outros princípios, os da Democracia, os da Soberania nacional, os da Paz e da Concórdia entre os povos, para não sublinhar tantos e tantos outros mais, sejam pisados pelo rolo compressor desta concorrência feroz entre os actores globais e com a Europa passivamente a receber os resultados dessa guerra que não faz mas de que aceita todos os seus resultados, os resultados de que somos nós todos as vítimas. Da Europa transformada em cemitério industrial é este o resultado que vai merecer agora um Prémio Nobel da Paz, a ser logicamente recebido pelo responsável maior desta destruição: Durão Barroso.

Uma opinião que nos parece semelhante à que acabamos de expor é-nos dada por Jean‑Luc Mélenchon quando afirma:

“Compreendemos que a União Europeia não tenha recebido o Prémio Nobel da Economia tanto a sua política agrava a crise e o desemprego. «É certo que a  União Europeia tem garantido a paz aos mercados financeiros e aos especuladores assim como aos enormes lucros dos bancos […] mas não é também verdade que a política desta União Europeia conduz a uma guerra  contra os povos que a compõem e contra os seus direitos sociais?”.  “Nestas condições, porque não lhe darem também o Prémio Nobel da Literatura pela qualidade literária dos seus tratados” conclui Jean-Luc Mélenchon.”

Há pois muita gente a pensar o mesmo. Do excedente comercial às fugas enormes de capitais da zona Euro que andam à procura de abrigo num dos maiores paraísos fiscais do mundo, a Suíça, fugas estas que Daniel Gros não quer questionar, do silêncio de Bruxelas a tudo isto enquanto vai sacrificando um a um os países soberanos que deixa desprotegidos face às sucessivas agressões organizadas pelos mercados financeiros e não só, eis, com este texto curioso de Daniel Gros a apontar a culpa da crise da Europa para a Suiça (!!!) e em que esta crise aparece aos olhos deste europeísta de meia tigela, mesmo que ele seja politicamente importante, como sendo o resultado da protecção que a Suiça faz à sua indústria, via manipulação da taxa de câmbio contra o euro! Nem sequer há a coragem de questionar a razão de ser dos excedentes comerciais da Suíça, nem sequer há a coragem de se interrogar do desnível de concorrência da Suíça no mercado mundial relativamente à China contra os produtos exportados pela Europa, os famosos terceiros mercados, nem sequer há a coragem de se interrogar do silêncio europeu face ao facto de a Suíça ter mais reservas cambiais que a zona euro. Nada disso. Mas, sublinhemos, o texto é importante, com alguns dados mais que, quando colocados num quadro mais geral da crise europeia, o que o autor, Daniel Gros, não quer fazer, nos mostram à evidência que é de um crime contra esta Europa o que Bruxelas e Durão Barroso têm andado meticulosamente a organizar.

Trata-se então de uma espécie de um Joaquim Aguiar, mas de maior nível, quando para este último a crise é da responsabilidade da rua, dos que querem emprego, dos que querem condições dignas de vida, enquanto para este pensador europeísta, o Daniel Gros, a culpa é, afinal, da pequena Suíça, não porque a sua relojoaria fina vale mais que os vinhos exportados pela França, não porque a sua importante mecânica fina é de alto valor acrescentado, não pela sua química de ponta, não porque seja concorrente com a Alemanha e não vemos como é que um euro mais fraco ajudaria a eliminar os excedentes do Norte, não porque seja paraíso fiscal, o que é muito relevante, não, não é por nada disto, é sim porque não deixa flutuar a sua taxa de câmbio face a essa entrada maciça de capitais a fugirem da zona euro, fuga de capitais que ele não questiona, talvez porque esta fuga é ela própria uma decisão livre dos mercados. Se esta “manipulação” tem estado a ser silenciada, se tem estado a ser aceite, a lição moral óbvia que do seu texto se retira é a seguinte: então não se deve protestar contra a suposta manipulação cambial pela China, até porque esta, segundo o nosso autor, desde há três anos que nem sequer existe. Mesmo aqui a desonestidade intelectual parece-me ser enorme: uma coisa é a Suíça ter enormes reservas cambiais em que grande parte são fugas de capitais da Europa para o paraíso fiscal, a Suíça, outra coisa são as reservas cambiais da China que derivam dos seus enormes excedentes comerciais. Comparar o que não é comparável, talvez para branquear a China neste processo?

São assim os Joaquim Aguiar desta Europa em crise. Para o Joaquim Aguiar português, a culpa  da crise é das pessoas que se manifestam na rua, para os Joaquim Aguiar do exterior, para Daniel Gros, por exemplo, a culpa da crise na Europa  é a Suíça. A Europa é que não,  é o que se deduz, o responsável é então sempre um outro.

Mas leiam o texto, que o tempo, esse,  não o sentirão  como perdido.

Júlio Marques Mota

Leave a Reply