INTUIÇÃO OU MANIA? – por Fernando Correia da Silva
carlosloures
Um Café no Orçamento
Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. No Café Chiado, em Lisboa, digo para quem me queira ouvir:
– Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um angolano pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.
À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho Neto, sempre zangado…
Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.
– Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
– Ontem fui à Feira Popular.
– Fazer o quê?
– Fui à montanha russa.
– E depois?
– Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
– E depois?
– Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
– E depois?
– Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.
Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.
Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:
– Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.
– Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro…