Um Café na Internet
Em 1951, no Café Chiado, eu desafio o Mário Henrique Leiria a assumir a autoria de um poema que está escrito com tinta ácida, indelével, no interior de uma das casas de banho. O Mário larga-se a rir, porém recusa-se a confirmar ou negar. Curiosa, a malta quer saber que raio de poema é esse e eu recito:
Aqui
Cagou
Pio Xi,
Rei dos Ciganos.


Meu Caro FernandoA nossa amiga Augusta Clara consegue rir com os teus «contos» (ponho entre aspas por estes teus escritos não caberem na minha concepção do que é um conto), o que é uma forma simpática de os apreciar; no entanto, não consigo ter a mesma atitude e pergunto: onde está o autor de «Mata-cães» que a tantos de nós encantou?Com amizade, envia-te um abraço oAntónio
Entre os muitos livros publicados por Fernando Correia da Silva, “Mata-Cães” é exemplar por ser aquele em que a fusão entre o autor e a personagem central é mais clara, a ponto de ser impossível dissociar um da outra. Nestes contos (uns mais conseguidos do que outros) sobressai a mesma posição ética (para pegar no tema do Adão) em que se escolhe entre o “certo” e o “errado” sem cuidar de saber qual das opções nos trará mais vantagem. O certo e o errado aqui é aferido pela cartilha do narrador que se está borrifando para o politicamente correcto. Porque não existe uma ética universal – grupos sociais, sistemas religiosos, escolas filosóficas, interferem nas aferições que se pretendam fazer. Nos mini-contos do Correia da Silva, o herói, digamos, é sempre o narrador e com ele triunfa a razão, a “sua” razão. No “Mata-Cães” e nestes mini-contos . Naturalmente, e aí concorda-se com Gomes Marques, os mini-contos apreciados isoladamente não aguentam a comparação com a que julgo ser a melhor obra do Correia da Silva. “Os Crimes Exemplares” do grande Max Aub também não podem ser apreciados isoladamente. Num deles, diz apenas – «Matei-o porque pensei que não estava ninguém a ver». Por este conto seria impossível avaliar o conjunto que é uma obra-prima. Respondendo ao Gomes Marques, diria que o Mata-Cães assoma à janela destes contos, pícaros de certo modo e nos quais o “bem” triunfa sobre o “mal”, através de um narrador que usa as respostas aceradas como o Zorro usa a espada justiceira.
Há uma história em que Jorge Luís Borges e Bioy Casares resolvem escrever um conto com muito poucas palavras. Era assim: “O forasteiro subiu as escadas no escuro tic toc tic toc tic toc ” E eu, teorias literárias à parte, continuo a sentir muito prazer em ler os contos do Fernando Correia da Silva.