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MUNDO CÃO – O SUICÍDIO – por José Goulão

MConfesso que não sei se será justo trazer a estas linhas o nome de Amaya Egaña, uma mulher basca de 53 anos, antiga conselheira do município de Baracaldo, eleita pelo Partido Socialista, que se suicidou no passado dia 9 de Novembro a poucas horas de ser despejada da sua habitação por não ter pago a hipoteca ao banco. Amaya lançou-se da varanda da sua residência sentindo chegado o fim do caminho para as possibilidades de respeitar os seus compromissos bancários.

A minha dúvida não se relaciona com a situação desumana e de crueldade de que foi vítima Amaya. Acontece que o seu caso adquiriu, por razões próprias que não vêm ao caso explicar, lugar nas primeiras páginas de jornais espanhóis mas está longe de ser único. Muito recentemente, mais ou menos na mesma ocasião, correram notícias de suicídios, pelas mesmas razões, de um homem de 53 anos em Granada, no extremo oposto da Península Ibérica, e um outro de 50 anos, em Valência. Dados que coincidem com estatísticas sinistras sobre os aumentos em massa de suicídios em Portugal, Espanha, Grécia, Itália e em alguns outros países relacionados com a impossibilidade de responder às exigências assumidas anteriormente e que não podem ser respeitadas devido a cortes salariais, supressão de subsídios, diminuições de reformas e salários mínimos, supressão de direitos – numa palavra, a mais pronunciada atualmente na Europa, “austeridade”.

O caso de Amaya tornou-se exemplar porque a seguir ao anúncio do seu suicídios os chefes dos dois partidos responsáveis pelo estado miserável em que se encontra Espanha, o Partido Popular (direita pós-franquista) de Rajoy, e o Partido Socialista (PSOE) agora de Pérez Rubalcaba e antes de Zapatero, se juntaram de uma forma amistosa como há muito não acontecia para implorarem aos bancos moratórias sobre os despejos.

Deve então dizer-se que os dirigentes dos partidos-Estado de Espanha, desacreditados pela sua subserviência às exigências neoliberais dominantes e à senhora Merkel, precisaram da morte de uma pessoa, por sinal eleita de um deles, para pedirem aos bancos um pouco de misericórdia na maneira insensível como tratam as pessoas. Foi preciso uma senhora desesperada, que não via futuro para além dos seus 53 anos, lançar-se da varanda à rua para os senhores políticos pedirem aos bancos um pouco de piedade. Os bancos a que eles hipotecam todo um povo – todos os povos, se acrescentarmos os casos de Portugal, Grécia, Itália, Irlanda e outros que se seguirão – para os salvar, mais aos seus desmandos e prebendas de gestão, porque “não podem falir” e para isso existem os contribuintes e respetivos sacrifícios concretizados em brutais sobrecargas de impostos – numa palavra, “austeridade”.

A senhora Amaia Egaña, cidadã basca, por acaso espanhola pelas vicissitudes ainda não resolvidas da História, lançou-se sobre o empedrado da sua rua dando a vida não pelos outros mas sacrificando-a ao desespero decorrente dos poderes desumanos que mandam em nós. O seu gesto chamou a atenção de políticos que têm estado entretidos a governar para os mercados, esquecendo pessoas como Amaya, os anónimos de Granada e Valência, de Portugal de Minho ao Algarve, Madeira e Açores incluídos, de Atenas a Salónica, de Turim a Palermo. Talvez os políticos estejam apenas a pensar em próximas eleições e nos efeitos que o drama de uma pessoa pode ter na mente de milhões. Mas estejam seguros de que nem as suas lágrimas de crocodilo nem os périplos oportunistas da senhora Merkel, suserana não eleita de uma data de países da Europa, são suficientes para deitar poeira nos olhos dos cidadãos que querem ver e já se desenganaram com a propaganda ignóbil de elites políticas e jornalísticas que perderam o sentido básico das suas atividade e profissão, o humanismo e a supremacia do valor das pessoas sobre o do dinheiro. O elemento mais frustrante de tudo isto, creiam, é o desperdício de vidas de seres como nós como a da cidadã basca Amaya Egaña e de outras pessoas de que só lamento não ter os nomes à mão e cuja evocação, seguramente, tornariam esta coluna impublicável pela sua dimensão.

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