Agora que assentou a poeira o cenário está límpido, percebe-se quem navega em águas turvas, porcas e fétidas, e quem pretende sobreviver através da transparência democrática.
Falo-vos da Grécia, do povo grego e do garrote que a União Europeia pretende continuar a aplicar-lhes em nome da democracia e da liberdade.
Poderia perder tempo a tecer considerações sobre o primeiro-ministro que há muito perdeu qualquer réstia de legitimidade e de um chefe de Estado que chefia números e não pessoas, mas estarão de acordo que não vale a pena. A única imagem que me ocorre a propósito das suas atitudes em relação ao chefe do governo grego e à Grécia é uma frase muito usada nos meios cinegéticos, desporto de que não sou particular admirador mas cujo léxico entendo muito bem por razões familiares e zona de origem. Diz-se que não é preciso falar-se com o cão quando se tem acesso ao dono do cão. Ora falando o primeiro-ministro grego, ao que consta pelas notícias europeias, com o dono do cão, que deixe o cão a ladrar e sigamos adiante.
O cenário é claro como água límpida. O povo grego votou e, sem qualquer margem para dúvidas, disse que pretende renegociar a dívida e não aceita a austeridade. Os outros 26 chefes de governo sabem isso, o que não vem ao caso porque para nada contam, e o que sobra dos 28 é como dizem de Deus: sabe de si e de todos.
Ora o poderoso deus germânico, deus ou deusa não vem ao caso, mais o seu banco central que dizem europeu e é alemão mesmo falando italiano, acham que os gregos querem o que não devem, votaram como não poderiam e por isso têm de ser castigados. Ou aceitam a austeridade e pagar a dívida como Berlim e Frankfurt querem ou então… Ou então… Ou então…
O repugnante desta atitude asfixiante de chantagem é associá-la ao respeito estrito pelos valores e práticas de democracia. A Alemanha e os poderes que atrás dela se barricam, os poderes dos especuladores, dos banksters, dos frequentadores de paraísos fiscais, as máfias bolsistas de todas as nacionalidades e sem pátria alguma, os que pretendem espalhar esterco em todo o continente através do “novo milagre” energético chamado gás de xisto, os traficantes de armamento e de guerras da NATO, sem esquecer os padrinhos dos fascismos ucraniano e afins, e cito só alguns, esses acham que a Grécia e os gregos devem curvar-se a esta democracia, a esta liberdade. Exigem, porque é uma ordem, não uma opinião, que vejamos o filme ao contrário e passemos a ler a cartilha da democracia tal como eles a reescreveram para continuarem a usufruir de privilégios ilegítimos conservados à mão armada, não pelo voto.
Ponhamos os olhos na Grécia, nos gregos e no modo como são tratados pela Alemanha – os outros só fazem número e ladram, recorrendo de novo à metáfora cinegética – tiremos as conclusões e assumamos as consequências. Ou continuamos a deixar as costas a jeito para levar chibatadas ou saibamos ser dignos como os gregos, porque para pior do que têm vivido no último lustro não podem ir.
E não deixemos de lado o que parece um pormenor, mas não é. A deusa alemã não está de braço dado apenas com o seu banco central. Enlaça-o também com os social- democratas. É o arco da governação. Entendidos?

